Criminalização do funk teve mais de 20 mil assinaturas no site do Senado

Toda a manifestação cultural é válida, não é mesmo? Músicas e letras que retratam uma realidade social, como o rap e o funk, também. Porém, por que um projeto de criminalização do funk arrecadou mais de 20 mil assinaturas no site do Senado e teve sua proposta enviada para a relatoria do senador Cidinho Santos (PR) na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa?

Autor do documento, o empresário paulista Marcelo Alonso destaca no relatório que “são somente [o funk] um recrutamento organizado nas redes sociais por e para atender criminosos, estupradores e pedófilos, para a prática de crime contra a criança e o adolescente, venda e consumo de álcool e drogas, agenciamento, orgia, exploração sexual, estupro e droga”.

A estudante Manoela Petry, 23 anos, afirma ser completamente contra a criminalização do estilo. Ela, inclusive, gosta da energia passada pelo funk, considerando legítima cada palavra dita em suas letras.

“O funk nasceu e se mantém tratando da vida nas comunidades mais carentes e se, por vezes, fala de drogas e violência, é porque essa ainda é a realidade de muitos locais do Brasil. O que mais me irrita são as frases como ‘Funk não é cultura’, sendo que cultura é tudo aquilo que caracteriza uma sociedade, que faz parte do seu comportamento, sua rotina e costumes”, enfatiza.

Segundo Manoela, o estilo, assim como todos os outros gêneros musicais, é manifestação cultural válida e que expressa os sentimentos e tradições de determinadas comunidades. “O funk, como o conhecemos hoje, é uma mistura de ritmos do mundo todo, assim como a miscigenação brasileira. Ninguém é obrigado a gostar do ritmo ou das letras, porque isso sé pessoal e individual, embora mutável. O que se pede, e é incrível como ainda há quem pense o contrário, é respeito. Não é preciso conviver, mas deixá-lo livre para ser e fazer seu papel de crítica social, de entretenimento e de relatos de uma realidade ainda pouco em foco”, afirma.

Projeto não resolve os problemas sociais
Estudante de Filosofia, Eduardo Marques Ferreira não considera a criminalização do gênero solução do problema proposto no projeto “criminalização do funk”. “Em relação à criminalidade, será que a culpa é do ritmo musical? Ou será que é da negligência com a educação? Convenhamos que, ao invés de brigar com um estilo de música, devíamos estar mais preocupados com a educação que damos aos nossos jovens. Talvez o simples fato de educarmos corretamente as gerações futuras seja o suficiente para a diminuição dos índices criminais”, salienta.

VALESCA Popozuda é outra expoente do ritmo que ganhou o Brasil

Eduardo destaca que a maioria de letras dos funks contém linguagem imprópria e descrição de atos sexuais, e que embora a música brasileira também já tenha vivido tempos com canções de duplo sentido e sexuais em outros estilos, é no funk que essa sexualidade se destaca.

“O que deveria ter é um controle mais rígido, uma vez que essas músicas circulam por todos os ambientes e são impróprias para menores. Na proposta de criminalização, o funk é também citado como uma falsa cultura, quando, na verdade, sendo uma modalidade de arte, transborda o sentimento daqueles que a fazem, refletindo assim a imagem da nossa sociedade”, conclui.

A mudança precisa ocorrer na sociedade
De acordo com o músico montenegrino Silvio César Rasche, 44 anos, o problema não é o funk e, sim, a realidade em que essas pessoas, que compõem e cantam o estilo, vivem. “Não é proibindo um estilo musical que resolverá. Pra mim, o funk é uma manifestação cultural que tem seu lado positivo. Não podemos generalizar, pois há letras boas e gente boa também”, admite.

SÍLVIO Rasche acredita que o problema não é o funk, mas a realidade foto: arquivo pessoal

Sílvio aponta positivamente trechos de algumas composições como ¨Eu só quero é ser feliz. Andar tranquilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar. E ter a consciência que o pobre tem seu lugar”.

“Tem algo errado neste funk? Não, né? Então! O funk é um estilo musical, é uma cultura, o problema é que a maioria que ouve e compõe as letras vive no meio do tráfico e da violência e se manifesta dessa maneira. Por exemplo, o sertanejo, o caipira que trabalha na roça, planta, ouve os pássaros, cuida do gado, vai compor uma música falando sobre isso”, conclui.

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