Engenheiro Jackson Brilhante garante benefício na velocidade e no percentual de germinação. Fotos: Fernando Dias/Seapdr

Avanço. Projeto do Estado potencializa a cultura florestal com utilização de bactérias

A árvore de Acácia Negra assumiu importância econômica no agronegócio gaúcho, alicerçando inclusive a economia do Vale do Caí ao lado de outros cultivos. Isso levou a Secretaria da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Seapdr) a investigar formas de potencializar essa cultura florestal, sendo que uma das linhas de pesquisa conduzidas é testada em Montenegro. Ela consiste na utilização de bactérias que se associam à raiz da planta e ajudam na fixação biológica de nitrogênio, dispensando o uso de fertilizantes químicos.

“Chamados Inoculantes, eles já são de uso amplo no cultivo da soja. A ideia é popularizar o uso para a Acácia Negra, que é um parente distante, sendo também uma leguminosa”, explica o pesquisador do Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária (DDPA), Bruno Brito Lisboa. Seu colega pesquisador, engenheiro Jackson Brilhante, explica que a aplicação é realizada na semente, durante a produção das mudas.

As bactérias são capazes de estabelecer relação simbiótica benéfica ao desenvolvimento da planta. “Esse processo é caracterizado pela formação de estruturas especializadas nas raízes, chamadas Nódulos, no quais ocorre processo de fixação biológica de nitrogênio atmosférico”, explica. A fixação acontece em compostos orgânicos que são utilizados pelas plantas, eliminando ou diminuindo a necessidade de adubos nitrogenados.

Inoculantes são aplicados na semente e se associam às raízes, dispensando o uso de fertilizantes químicos

Benefícios em produção
Além do benefício de reduzir fertilizantes, o processo tem aumentado a velocidade e o percentual de germinação de sementes de Acácia Negra. Isso proporciona maior uniformidade dos lotes de mudas e reduz o custo de produção, pois diminui a necessidade de ressemeaduras.

“O ganho proporcionado pela aplicação da bactéria varia de acordo com o tipo de substrato utilizado e o manejo empregado pelo produtor”, explica.
Jackson revela que, em alguns casos, a inoculação das bactérias aumentou em 16% a germinação das sementes. “É um resultado interessante, porque o uso do Inoculante não é exatamente para este fim. É um efeito associado muito positivo”. Inclusive, o sistema está em estudo avançado com produtores de mudas no Vale do Caí.

Estes resultados – ao lado de experimentos de laboratório – serão apresentados em 2020 na reunião técnica da Rede de Laboratórios para Recomendação, Padronização e Difusão da Tecnologia de Inoculante Microbiológicos de Interesse Agrícola (Relare). Ela avalia a eficiência das bactérias para diferentes culturas, que, se forem pertinentes, são recomendadas ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Desta forma, a bactéria estará apta para produção de Inoculante em escala comercial, tornando-se de acesso a todos os agricultores e viveiristas.

Importância do trabalho gaúcho
O Departamento de Diagnóstico e Pesquisa Agropecuária mantém a maior coleção no Brasil desse tipo de bactéria, os Rizóbios. Ele é o laboratório oficial do Ministério da Agricultura para a indústria de Inoculantes de soja. A caracterização de uma bactéria específica para as sementes de Acácia Negra foi realizada ainda na década de 80. Mas os pesquisadores da Secretaria continuam selecionando estirpes de Rizóbios que sejam mais eficientes na fixação do nitrogênio.

Bactérias também são usadas para crescimento sem compostos químicos
Outra linha de pesquisa do Departamento avalia a utilização de bactérias para promover o crescimento da planta. Hoje, a produção de mudas de Acácia Negra também pode ser feita por meio do enraizamento de estacas obtidas de plantas matrizes, condição em que é necessário utilizar hormônios vegetais sintéticos para aumentar a taxa de enraizamento.

Então, como alternativa, os pesquisadores avaliam o emprego de outras bactérias benéficas, conhecidas como promotoras de crescimento vegetal. “Estas, quando aplicadas nas estacas, têm a capacidade de aumentar o enraizamento, porém sem a necessidade do uso de hormônio vegetal” explica Jackson.

O engenheiro florestal garante que, além desta ser uma alternativa de menor custo, evita o uso de produtos químicos que podem ser tóxicos ao produtor e ao Meio Ambiente.

Produção de florestas de Acácia Negra envolve cerca de 40 mil famílias no Rio Grande do Sul

Propriedades são laboratórios
O resultado despertou o interesse de produtores do Vale do Caí. Uma das propriedades em Montenegro, com média de produção de 3 milhões de mudas anuais, tem a meta aumentá-la para 4 milhões em 2019.

A produção a partir de sementes tratadas com Inoculantes ocupa alguns lotes para observar a diferença com o manejo tradicional. Em Pareci Novo a propriedade tem produção média de 4 milhões de mudas por ano, projetando alcançar 6 milhões em 2019 devido ao aumento na procura por Acácia-negra. E hoje suas mudas com Inoculante já respondem por 90% a 95% da produção.

A Acácia Negra
A Acácia Negra é uma árvore exótica originária da Austrália, que encontrou no Rio Grande do Sul ambiente propício ao seu desenvolvimento. A produção de florestas dessa espécie plantadas no estado ocupa área de 90 mil hectares e envolve, atualmente, cerca de 40 mil famílias. A Acácia-negra é empregada na produção de carvão vegetal, e da sua casca é extraída uma substância chamada tanino, utilizada em curtumes e em estações de tratamento de água.

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