a discalculia é um transtorno de aprendizagem que dificulta a realização de cálculos foto: reprodução internet

É provável que você já conheça um transtorno de aprendizagem chamado dislexia. O problema, já abordado pelo Ibiá Saúde, ocorre quando, no momento da alfabetização, é diagnosticada na criança uma dificuldade no reconhecimento de letras, leitura e escrita. A grande divulgação faz com que pais e professores já se atentem aos casos e ofereçam às crianças técnicas de aprendizado adequadas. Existe, porém, algo bastante similar, mas que afeta o trato e a compreensão dos números. É a chamada discalculia, muito menos conhecida e que compromete o desenvolvimento escolar das crianças.

Fernanda Hartmann, psicopedagoga

A discalculia é um tipo de transtorno de aprendizagem caracterizada por uma inabilidade de pensar, refletir, avaliar ou raciocinar processos que envolvam conceitos matemáticos. A psicopedagoga e especialista em Educação Especial e Educação Inclusiva Fernanda Hartmann, que atua no Instituto de Educação São José, comenta que alguma dificuldade pode ser percebida em crianças muito jovens, ainda na fase pré-escolar, gerando uma primeira desconfiança a respeito da discalculia. Mas, é no primeiro e no segundo ano do Ensino Fundamental, quando da alfabetização, que o transtorno fica claro.

“Pode ser percebido cedo, lá na Educação Infantil, quando a professora pede ao aluno de três anos que ele pegue duas bolinhas e ele segura três.

Mas, sabe-se que nesse momento ele está construindo esses comandos. Já no primeiro e no segundo ano, com seis ou sete anos de idade, quando o professor nota que a dificuldade permanece, é que o diagnóstico de discalculia se concretiza”, explica Fernanda. O aluno que tem discalculia pode aprender normalmente outras disciplinas e inclusive se destacar em português, história ou ciências enquanto tem dificuldade com os números.

A discalculia é um problema biológico, de origem genética. Isso significa que aspectos do ambiente não interferem. É um problema mais observado nos meninos, mas que também atinge ao sexo feminino. Estudos de imagem mostraram que o transtorno está ligado ao hemisfério esquerdo do cérebro, responsável por ações lógicas e vinculadas à razão. Quem tem discalculia não consegue visualizar um cálculo abstrato ou vincular o numeral a sua representação em quantidade. “Por isso, em sala de aula, precisará de atividades concretas. Nada abstrato”, diz Fernanda Hartmann.

transtorno exige do professor um trabalho diferenciado e pode tornar o aprendizado mais lento, mas não deve ser encarado como algo limitador

Cada um aprende ao seu tempo
A disculculia não é algo que possa ser curado ou corrigido. Quando uma criança recebe esse diagnóstico, é preciso saber encará-lo e lidar com as mudanças que o transtorno exigirá na rotina, primeiro como estudante e depois como profissional. “A discalculia segue por toda a vida com essa pessoa. E ela aprende a lidar com a dificuldade, assimilando esse conhecimento ao seu tempo. Na escola, com um trabalho adequado, técnicas diferenciadas, em algum momento, ela aprende. Quando adulto, não será alguém capaz de fazer cálculos mentalmente, mas se cercará de meios para superar isso”, explica a psicopedagoga.

Isso não pode ser encarado como empecilho para o aprendizado ou atuação profissional. “Não é por ter discalculia que está impedido de exercer uma profissão da área de exatas. Quer ser engenheiro? Ok. Para fazer cálculos poderá fazer uso da calculadora. Algo não muito diferente da realidade de todos nós”, diz Fernanda.

Aceitação não é acomodação
Escola e família têm que atuar juntos quando do diagnóstico de discalculia, assim como da dislexia. É preciso compreender e aceitar que a criança terá, naquela disciplina cujo transtorno se manifesta, um ritmo mais lento. Essa aceitação, porém, não deve significar acomodação. “Os pais precisam entender, em qualquer caso de inclusão, que a criança tem o tempo dela. E precisa que lhe seja oferecido o melhor em recursos de aprendizagem para alcançar o seu máximo”, diz Fernanda Hartmann.

A comparação com outras crianças, da classe ou da família, nunca faz bem. Estímulos em casa, reforço escolar com atividades específicas e a participação da família é benéfico a esse desenvolvimento.

Deixe seu comentário