Na briga pela presidência, é difícil distinguir a informação verdadeira da falsa, o que acaba induzindo eleitor a erro

A redução do tempo para as campanhas e a proibição da doação de dinheiro por empresas obrigaram os candidatos, nas eleições deste ano, a lançar mão de novos artifícios para se aproximar dos eleitores. Neste contexto, as redes sociais, especialmente o Facebook e o Whatsapp, assumiram um novo status como ferramenta de comunicação. Porém, sem o filtro e a checagem dos meios tradicionais, a disseminação de notícias falsas tornou-se uma verdadeira praga, difícil de combater.

Tanto que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) lançou uma página na internet para ajudar a esclarecer a população acerca das fake news que vêm sendo difundidas nos sites e aplicativos. No entendimento da Justiça Eleitoral, a divulgação de informações corretas, apuradas com rigor e seriedade, é a melhor maneira de enfrentar e combater a desinformação.

Pelo link “Esclarecimentos sobre informações falsas” na página do TSE (www.tse.jus.br), qualquer pessoa pode ter acesso a informações que desconstroem boatos ou veiculações que buscam confundir os eleitores. Diante das inúmeras afirmações que tentam macular a seriedade do processo eleitoral nacional, nessa página, o TSE apresenta links para esclarecimentos oriundos de agências de checagem de conteúdo, alertando para os riscos da desinformação e clamando pelo compartilhamento consciente e responsável de mensagens nas redes sociais.

O Tribunal Superior Eleitoral também tem encaminhado todos os relatos de irregularidades que chegam ao seu conhecimento para verificação por parte dos órgãos de investigação, especialmente o Ministério Público Eleitoral e a Polícia Federal. A finalidade é garantir a verificação de eventuais ilícitos e a responsabilização de quem difunde conteúdo inverídico.

Para o ex-presidente do TSE e integrante do Supremo Tribunal Federal, Luiz Fux, as fake news têm potencial para distorcer a formação de escolhas nas eleições. Por isso, segundo ele, o jornalismo político-eleitoral deve ser livre para identificar divergências e imprecisões dos discursos públicos e para investigar condutas questionáveis.

Especialistas no assunto afirmam que o papel exercido pela tecnologia é ambíguo: por um lado, pode auxiliar no combate aos conteúdos enganosos, mas também favorece a disseminação desses materiais. Nesse contexto, o professor Martin Emmer, da Universidade de Freie (Alemanha), afirma que o objetivo das notícias falsas não é exatamente convencer as pessoas, como se pode imaginar a princípio, mas mobilizar o público. Citando o exemplo das eleições americanas, Emmer afirma que as fake News não fizeram os eleitores de Hillary Clinton votar em Donald Trump, mas mobilizaram o eleitorado republicano, que compareceu de forma maciça às urnas e, assim, obteve a vitória.

Estimulando o espírito crítico
O remédio? Conscientização, regulação e transparência. A ex-presidente do STF, ministra Ellen Gracie, entende que é preciso que o cidadão seja conscientizado para desenvolver senso crítico capaz de torná-lo apto a escolher corretamente as informações que utiliza para formar o seu juízo político.

Thiago Tavares, da ONG Safernet, defende que essa orientação inicie já nas escolas. Segundo ele, também é preciso repensar a forma como os conteúdos são remunerados nas redes sociais. Hoje, o número de cliques que uma postagem recebe é um critério de remuneração, o que contribui para a disseminação de notícias falsas. Assim como o ministro Fux, Tavares considera o jornalismo o principal recurso contra as fake news.

Desconfie mais
Os eleitores de Jair Bolsonaro e de Fernando Haddad concordam sobre os efeitos negativos das fake news e sobre o remédio para a “doença”: checar as informações antes de compartilhar. A escritora Maria Beatriz Reis Schuster, autora de “Universo Magmáhtico” e “Magmahtismos”, considera a pesquisa a única ferramenta capaz de dissipar as dúvidas. “Eu pesquiso tudo, tanto a favor quanto contra o candidato que eu apoio, quando me deparo com as postagens. Jamais curto ou comento nada sem antes buscar pela veracidade do tema e por argumentações a favor ou contra”, ensina.

O guarda municipal Ararê Zavarise de Moura diz o mesmo. “A melhor forma ainda é a pesquisa, em fontes seguras, ainda que hoje não se tenha mais segurança nas fontes, pois grandes portais também têm divulgado fake news”, observa. Ele ressalta que muitas notícias falsas estão embutidas em verdades, misturadas a boatos e textos que permitem dupla interpretação. “Isso leva o leitor, muitas vezes, a acreditar no fato e, só após análise mais profunda, ver que se trata de fake”, ressalta. Para ele, a melhor forma de não ser enganado é dar crédito à dúvida.

Algumas das fake news que mais circularam até agora
1 – Haddad tem seguranças cubanos – Trajados de camisetas verde-oliva e bonés que estampavam a bandeira da ilha comunista, militares cubanos teriam pousado em Caxias do Sul para garantir a segurança do candidato petista. Bobagem! A foto apenas registrava simpatizantes petistas acompanhando o presidenciável em dia qualquer da campanha pelo país.

2 – Bolsonaro no Programa Silvio Santos – Um dia, no quadro Roda-roda do programa Silvio Santos, uma participante teve de responder a uma pergunta. Para adivinhar o nome do personagem oculto, foram inseridas três opções como resposta: “próximo presidente”, “vai salvar o Brasil” e “não é corrupto”. As dicas originais eram “foi do Exército”, “mudou o regime” e “15 de novembro”, referindo-se ao general João Batista Figueiredo.

3 – Bolsa Ditadura – Segundo uma mensagem, 20 mil pessoas haviam sido anistiadas após o término da ditadura. Assim surgiu a “Bolsa Ditadura”, que concederia, entre outros privilégios, a isenção do Imposto de Renda. Entre os supostos beneficiados, apareciam nomes como Fernando Henrique Cardoso, Caetano Veloso, Lula, Taiguara e Marieta Severo. A informação era totalmente falsa, simples invenção.

4 – Trouxinhas de maconha com o desenho de Lula – Uma apreensão de trouxinhas de maconha embalada com uma ilustração de Lula deu o que falar. Segundo a fake news, a imagem era a prova de uma conspiração política entre o PT e grupos de traficantes. O texto dizia: “Enquanto traficantes ameaçam nas favelas quem vai votar no Bolsonaro, eles fazem campanha em tabletes de maconha com foto de Lula Livre, com certeza com apoio do partido”. A droga foi encontrada pela PM de São Paulo em Batatais, mas não teve relação alguma com o partido. Imagens de famosos em embalagens de drogas, segundo a Polícia, não são incomuns. O papa Francisco e Neymar também já foram “homenageados”.

5 – Família Bolsonaro fez campanha contra nordestinos – Seria um suicídio para qualquer político que disputa a presidência atacar nordestinos. Mas muita gente acreditou que Flávio Bolsonaro, acompanhado do pai, teria usado uma camiseta com a inscrição “Movimento Nordestinos Voltem para Casa – O Rio Não é Lugar para Jegue”. Era montagem de photoshop.
6 – As tatuagens de Che Guevara e Lênin de Manuela – Ainda estão correndo as imagens mostrando tatuagens inexistentes de Manuela D’Ávila, vice de Haddad, de Che Guevara e Lênin. Photoshop também.

7 – Bolsonaro pediu um fuzil para atirar contra traficantes – Ao visitar o bairro Cidade de Deus, na zona oeste do Rio de Janeiro, Bolsonaro teria sido recebido a tiros, sendo convidado pelos policiais que o acompanhavam a se proteger dentro do veículo blindado. Lá dentro, o político teria requisitado um fuzil para lutar contra os atiradores ao lado dos militares; pedido que, embora tenha sido recusado, foi encarado com muito orgulho pelos oficiais. Pura invenção: Bolsonaro realmente realizou uma visita à Cidade de Deus, mas o passeio foi pacífico e não houve nenhum registro de troca de tiros.

8 – Bolsonaro, em 26 anos, nunca fez nada como deputado – Uma rápida olhada no site da Câmara dos Deputados mostra que o parlamentar já registrou 637 proposições; porém, apenas dois de seus projetos foram aprovados.

9 – Jean Wyllys foi convidado para Ministério de Educação de Haddad – É falso o tweet que alega que o deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ) foi convidado para ser ministro da Educação num possível governo Haddad. O boato usa a marca do site G1, que jamais publicou a matéria. É possível alterar elementos do código HTML das páginas de internet, mas as mudanças não são públicas, só aparecem no computador de quem fez a edição.

10 – O fim do Cristianismo – Não é verdade que Manuela D’Ávila (PcdoB), candidata a vice-presidente na chapa de Fernando Haddad (PT), afirmou que o Cristianismo vai desaparecer e que “nós somos mais populares do que Jesus Cristo neste momento”. A declaração que aparece em uma montagem postada no Facebook foi dada, na verdade, por John Lennon, referindo-se aos Beatles, no dia 4 de março de 1966.

** Nas eleições deste ano, as fake news têm sido muito mais comuns na disputa para a presidência da República do que no confronto para o governo do Estado. Segundo os analistas, a checagem de uma informação é mais fácil quando o fato ocorre mais perto do eleitor, o que diminui a eficiência da desinformação e pode ter inibido seu uso na corrida pelo Palácio Piratini.

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