Osmar Estock ao lado da esposa Simone e dos filhos Alícia, Pyetra, Gabriel e Luana. Fotos: arquivo pessoal da família

SEM O MARIDO, mulher busca força nos filhos para superar dores físicas e emocionais

Um grave acidente de trânsito registrado na ERS-124, no sentido Pareci Novo/ São Sebastião do Caí, na madrugada do dia 10 de novembro do ano passado, resultou na morte do montenegrino Osmar Estock, de 43 anos, e deixou ferida sua esposa, Simone de Lima Estock, 40 anos. Osmar faleceu no dia seguinte ao desastre deixando a mulher e quatro filhos menores. Dois meses após a tragédia, Simone relata como tem sido a fase de recuperação e de adaptação à ausência do esposo.

Com o braço direito ainda engessado após passar por duas cirurgias, Simone não vê a hora de voltar ao trabalho para ocupar a mente. Por outro lado, sabe que terá de reservar um tempo especial para dar atenção às filhas Alícia de 16, Pyetra de 10, e aos gêmeos Luana e Gabriel, de 6 anos. Até o ano passado era o pai quem passava a maior parte do tempo com as crianças, enquanto Simone atendia suas clientes no salão instalado junto à residência da família. Agora, ela terá de se virar sozinha para dar conta de ambas tarefas: a de profissional e dona de casa.

As dores provocadas pelo impacto da colisão da minivan Mitsubishi Space Wagon em uma árvore ainda são intensas. Porém, não tão latentes quanto a dor pela perda do companheiro. “Nunca tinha perdido alguém assim tão próximo. Eu vivi 21 anos com ele, mais tempo que com meus pais. É complicado. A gente estava sempre junto”, conta. Contudo, Simone substituiu a revolta em relação à morte do marido, pelo sentimento de gratidão por ter sobrevivido e poder estar ao lado dos filhos. “Tenho que ser forte. Meu consolo é que estou aqui pra cuidar deles”.

Filhos estes que foram o principal projeto do casal. Antes do nascimento da mais velha, Alícia, Simone e Osmar estruturaram suas vidas, compraram terreno e foram montando o lar que hoje ficou de herança. “Preocupação financeira não tenho, ele nos deixou bem. Tínhamos seguro e vamos receber benefício do INSS”, relata.

Já a execução de novos planos foi bruscamente interrompida com a partida do pai de família. No final de 2019, eles queriam trocar de carro e Simone faria uma cirurgia estética na barriga, para ficar ainda mais bela para o companheiro. “Agora vivemos um dia de cada vez. Não tem como planejar o futuro. O mais difícil é não ter a pessoa para te ajudar. Vai ter que ser sozinha mesmo”, desabafa a cabeleireira.

As próximas fotografias em família terão um lugar ocupado apenas pela lembrança do pai que partiu de forma inesperada

Sobre o dia do acidente, a cabeleireira diz que pouco se lembra. “Não sei nem como conseguiram tirar ele lá de dentro. Eu estava em estado de choque. Lembro que perguntaram se as crianças estavam junto, mas não lembro do Osmar no carro. Não vi nada”, acrescenta. Pelo estado em que ficou o veículo, Simone acha que poderia ter sofrido ferimentos piores. “Até não me machuquei. O motor parou nos meus pés. Tive lesão por dentro da perna, surgiu um coágulo”, explica.

Há poucos dias ela e seu pai foram até o depósito de veículos onde está a minivan Mitsubishi Space Wagon. “O carro está completamente destruído”, emociona-se ao lembrar. As lágrimas também tomam conta do rosto de Simone quando fala sobre a saudade que os filhos sentem do pai. “Esses dias a Luana disse pra eu mandar uma foto para o pai. Eu digo que o pai não vai voltar mais, que virou uma estrelinha. Já o Gabriel sabe que o pai não vai voltar, acho que por isso ele é mais revoltado.”

Mãe e filhos passam por acompanhamento psicológico. Simone conta que, nas primeiras semanas após o acidente, a medicação que tomava para dor auxiliava a dormir. Mesmo assim, todas as madrugadas, no mesmo horário da tragédia, ela acordava sentindo-se abalada. “É difícil. Vamos ter que aprender a viver com essa dor. É complicado”, desabafa. Força e determinação fazem com que ela não tome medicação antidepressiva e tenha como melhor remédio o apoio da família e amigos. “Todo mundo ajuda.”

A morte de Osmar gerou grande comoção em Montenegro. Membros do time A Saidera, do qual ele era integrante, organizaram uma despedida de homenagens ao amigo. Depois disso, os jogadores e suas esposas se aproximaram ainda mais de Simone e das crianças. “Todas as semanas fazem jantas, sempre que dá a gente vai. Esse apoio é muito importante”, complementa. “Essa dor vai durar muito tempo, mas um dia tem que melhorar. Muita gente passa pela mesma situação. É nisso que a gente tem que pensar”.

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