As marcas da devastação puderam ser vistas com mais clareza nessa segunda-feira

QUATRO horas de trabalho e 10 mil litros de água para combater às chamas

Três bombeiros e um grande esforço foram necessários para conter o incêndio que atingiu área de aproximadamente três hectares de terra no Morro São João, em Montenegro, no domingo, dia 12. A suspeita dos bombeiros é de que o sinistro tenha sido provocado por ação humana. Passado o perigo da propagação das chamas, atrai a atenção o cenário de destruição ambiental.

Conforme o comandante do Corpo de Bombeiros de Montenegro, sargento Ângelo de Lima Justo, os bombeiros haviam acabado de retornar ao quartel, depois de atender outros dois casos de fogo em vegetação – um na ERS-124 e outro na Rua das Hortênsias, no Morro Bela Vista – quando tiveram de sair às pressas para atender a ocorrência ao lado da sede. O fogo teve início logo após o meio-dia.

O sargento lembra que, com a chegada do calor, incêndios como esse têm sido registrados com frequência no Morro. Nesse sinistro, ao que as marcas indicam, o fogo começou junto à pedreira utilizada por populares como área de banho. “Eles fumam, fazem churrasquinho, muitas vezes é esse tipo de coisa que causa os incêndios”, comenta o comandante dos Bombeiros. A área localizada logo atrás do quartel é particular – ela pertence a um empresário local -, mas os frequentadores não respeitam esse fato. Há até um “trilho”, uma passagem de acesso à rua Balduíno Rambo, que mostra o trajeto feito pelos banhistas.

A suspeita é que o fogo tenha começado junto a pedreira

Na ação de combate ao fogo, foram usados batedores e 10 mangueiras. O vento facilitou a propagação das chamas morro acima, o que tornou o trabalho ainda mais difícil. O comandante lamenta ver a destruição de árvores e do próprio solo que levará muito tempo até se recuperar. “Todos os anos a brotação nova é queimada, aqui só vai nascer brejo. E se chover, as valas que foram abertas pelo fogo vão abrir ainda mais”, avalia Ângelo.

O secretário municipal de Meio Ambiente, José Clebio Ribeiro, informa que o incêndio no Morro será pauta de reunião nesta quarta-feira, 15. Por enquanto, o gestor diz que não há o que comentar sobre o fato.

O biólogo e presidente do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema), Rafael Altenhofen, lembra que conforme o Código Municipal de Meio Ambiente de Montenegro (Lei n. 4.293/2005) é proibido uso do fogo ou queimadas nas florestas e demais formas de vegetação, exceto para controle ou erradicação de pragas, somente com autorização dos órgãos municipais, de meio ambiente ou agricultura. “Esse rigor se justifica pelo fato de que, além de causar sérios riscos físicos à saúde e integridade das pessoas e de suas moradias, as queimadas são uma ameaça à fauna e flora”, explica Rafael, que também é mestre em Manejo e Conservação da Vida Natural.

Depois da queimada
O biólogo Rafael Altenhofen aponta que, dependendo da periodicidade e da intensidade dos incêndios, a vegetação pode ser permanentemente afetada, na medida em que se perdem não apenas árvores – quando morrem – mas também populações inteiras de espécies, principalmente as mais frágeis – fazendo que com que, dependendo da situação, se leve décadas até se voltar a situação original antes da queimada.“Espécies animais podem ser duramente afetadas por tais incêndios, não apenas pelo fogo direto, mas também pelos efeitos indiretos, em casos em que são expulsas de seus ambientes e “empurradas” para áreas urbanas ou, o que é pior e menos perceptível muitas vezes: morrem de fome por não terem mais alimentos disponíveis”, explica o especialista.

Altenhofen acrescenta que os incêndios afetam também a cobertura e camada superior do solo, eliminando a matéria orgânica – o banco de sementes ali depositado – que proporcionaria uma recuperação mais rápida da vegetação. Assim, até mesmo a composição e estrutura desse solo são alterados, podendo abrir caminho para processos erosivos. “Além de retirarem o que resta da camada fértil do solo quando as chuvas chegarem, ainda reduzem a capacidade de absorção de água, contribuem com assoreamento (aterramento) de arroios e rios, além de aumentarem o risco de enxurradas e da falta de água nos meses mais secos”, explica o biólogo. “Outro aspecto a ser ressaltado é que o calor gerado por esses incêndios florestais afeta também aspectos geomorfológicos do morro, acelerando (por processos de dilatação térmica) a fragmentação de blocos de rochas que, dessa forma, podem rolar morro abaixo”, diz ainda.

Por que o fogo se propaga tão rápido?
“As faces do morro voltadas para Oeste e Nordeste naturalmente recebem menos umidade vinda do mar e também mais incidência solar (período da tarde) fazendo com que sua vegetação apresente características de menor porte e mais adaptada a ambientes secos – que é mais propícia a ser afetada por eventos de fogo”, analisa Rafael Altenhofen. Além disso, segundo ele, em certas áreas predominam nessa região, além de eucaliptos, também a presença de pinus e capim braquiária. As três espécies são exóticas e apresentam alto potencial de propagação de fogo. “A sorte que se teve, com os focos desse domingo, é que o capim braquiária ainda está verde em função das últimas chuvas – o que retardou seu alto potencial de risco se estivesse seco”, acrescenta.

O fogo atingiu vários pontos do Morro, inclusive o trecho junto à calçada dos Bombeiros

Como recuperar essa vegetação?
Rafael lembra que existem estudos técnicos, contratados por gestões municipais anteriores, indicando as espécies vegetais existentes no morro. Tais dados, de riqueza, de distribuição e composição da flora original devem nortear ações, tecnicamente coordenadas, de recuperação. “Não se trata simplesmente de plantar mudas, mas de zonear e oferecer condições para que a própria natureza se recomponha, com ferramentas e práticas que aceleram tais processos”, acrescenta.

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