Os jovens mortos no incêndio dormiam no porão da casa da família de Maicon de Oliveira Gomes

Dois meses depois do óbito, corpo encontrado no bairro Ferroviário ainda não foi sepultado

A perda de um familiar é uma das piores dores enfrentadas pelo ser humano. Passar os últimos instantes ao lado do corpo de quem se ama é comum na civilização ocidental, que vê nesse gesto, a forma de dar adeus. Porém, quando esse rito por algum motivo não ocorre, para o familiar, é como se seu ente querido estivesse simplesmente perdido por aí, vagando, e a qualquer momento pudesse retornar para casa. Assim tem sido para a família da jovem Morgana dos Reis da Silva, desde o incêndio ocorrido no bairro Ferroviário no dia 26 de fevereiro deste ano. Mesmo com o desaparecimento da garota de 14 anos e a versão de testemunhas, que afirmam tê-la visto no local do sinistro naquele dia, ainda não há a confirmação oficial sobre a morte dela.

A irmã Cassiana dos Reis, de 23 anos, forneceu seu material genético para análise comparativa de DNA com o corpo encontrado na residência queimada. O exame foi feito pelo Instituto Geral de Perícias – RS (IGP), e apontou 100% de parentesco pela parte materna. Contudo, um novo teste terá de ser realizado, desta vez somente com material genético de Valdeci Faustino da Silva, pai da garota. Para atestar a paternidade, o exame tem que apresentar resultado igual a 100%. Devido a problemas de saúde, Valdeci não pode se deslocar até Porto Alegre, por isso será agendada a vinda de peritos a Montenegro para recolher o material.

O resultado do primeiro teste de DNA, realizado com a filha dele, ficou pronto e foi encaminhado pelo IGP para a 1ª Delegacia de Polícia de Montenegro, via e-mail, no dia 11 deste mês. Contudo, a família só foi informada sobre o andamento do caso nessa quarta-feira, 24. Conforme o setor de Investigação da 1ª DP, Valdeci, até então, não vinha atendendo as ligações feitas pela Polícia.

Cassiana aguarda ansiosa pelo desfecho dessa história, que parece estar longe de acabar. “Já se passaram dois meses. Não sabemos se ela morreu asfixiada ou queimada. A Polícia não diz nem se ela foi encontrada no quarto ou em outro lugar da casa”, desabafa.

A certeza de que o corpo é o da irmã vem desde o relato da família de Maicon de Oliveira Gomes, de 22 anos, com quem Morgana estaria tendo um relacionamento. Ele também morreu durante o sinistro. “A irmã dele disse que viu ela na casa”, relata Cassiana. Contudo, é preciso esperar pela confirmação oficial. Enquanto isso, o corpo segue no IGP. “Queremos ter logo essa confirmação para poder enterrar ela e ter um pouco de sossego”, diz.

Morgana tinha cinco irmãos, mas somente Cassiana era filha do mesmo pai e mãe. A mãe das garotas faleceu em 2012 e Morgana passou a morar com o pai. Dias antes do incêndio, a jovem disse ao pai que iria até a Praça dos Ferroviários com algumas amigas e não retornou mais para casa. Quando soube do fato ocorrido no dia 26 de fevereiro, o pai da menina associou o desaparecimento dela com o cadáver encontrado no local do incêndio. Além disso, a descrição dos familiares do jovem, sobre a moça que viram, levaram ele a crer que realmente se tratava de sua filha.

Relembre o caso
O casal de jovens morreu vítima de incêndio por volta das 5h da terça-feira, 26 de fevereiro. O fato ocorreu na Rua Independência, no bairro Ferroviário, em Montenegro. Uma das vítimas é Maicon de Oliveira Gomes, de 22 anos. Ele morava no local e estava acompanhado de uma jovem, apontada como sua suposta namorada. A causa do sinistro ainda é um mistério, assim como a identidade da garota.

Maicon colocou a própria vida em risco para socorrer sua mãe e irmãos que estavam na parte superior do imóvel em chamas. Ao todo, sete pessoas que estavam na casa se salvaram. O rapaz acordou com a residência já em labaredas e ainda teve tempo de alertar os demais familiares sobre o sinistro. Ele chamou todos e voltou para buscar a namorada, então o fogo o cercou na única porta existente no porão, onde passavam a noite.

Familiares ouvidos pela reportagem falaram de Maicon comovidos, descrevendo-o como uma pessoa boa. O depoimento a respeito de seu caráter foi corroborado por um cunhado. “Ele era uma destas pessoas que ajuda todo mundo”, afirmou Luiz André da Silva, namorado da irmã mais nova da vítima.

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