Encontrar endereços no interior do município pode ser uma tarefa desafiadora

INICIATIVA qualifica ainda mais o trabalho da Patrulha Maria da Penha

Ideias simples podem gerar grandes resultados. Se a iniciativa estiver associada à área da Segurança Pública, o resultado pode ser a diferença entre viver ou morrer. Pensando em facilitar a localização das vítimas de violência doméstica, com medida protetiva de afastamento do agressor, atendidas pela Patrulha Maria da Penha – do 5º Batalhão da Brigada Militar (BPM) de Montenegro – o soldado Fábio de Oliveira viu no Google Maps uma importante ferramenta de trabalho. Oliveira criou um sistema de georreferenciamento para localização das 217 mulheres atendidas pela Patrulha, em Montenegro.

Encontrar o endereço das mais de duas centenas de “Marias” já foi um desafio para os policiais da Patrulha Maria da Penha. A situação se tornava ainda mais complica quando a moradia era no interior do Município. Mas foi na dificuldade que Oliveira viu a solução para o problema.

Em 2020, ele e um colega não conseguiam achar o endereço de uma moradora de Linha Catarina, no interior de Montenegro. A mulher enviou sua localização para o celular do policial. O gesto abriu caminho para a criação do cadastro de endereços no próprio Google Maps. “A próxima guarnição que fosse lá também não iria achar, por que era muito distante. Então, naquele dia criei uma listagem de locais”, acrescenta Fábio.

Oliveira é o “administrador”. Através de seu próprio celular, ele registra e salva, além do endereço, dados como nome completo de vítima e agressor, número do celular e imagem da casa onde mora a mulher em atendimento. “Só tem acesso quem receber o link. Outra pessoa que acessar o Google Mapas não vai ver as localizações”, assegura o policial. “Se estou na rua Fernando Ferrari e quero ir até Linha Catarina, entro no mapa, clico no ícone do local e obtenho a rota mais perto para chegar ao ponto desejado. Igual ao mapa normal, mas esse é só para os patrulheiros”, exemplifica o PM.

O Google Maps agiliza o deslocamento policial até a casa da vítima com medida protetiva de afastamento

O soldado também adotou o uso de cores para facilitar a compreensão sobre o tipo de situação de cada “Maria”. As que estão recebendo acompanhamento da Patrulha são identificadas no mapa por ícones roxos; o preto serve para mostrar as que estão em situação de vulnerabilidade; laranja representa as que voltaram a se relacionar com o agressor; verde significa que abriram mão do atendimento; e em amarelo, aquelas que não foram encontradas ou mudaram de cidade.

“A intenção era colocar também fotos da vítima e do agressor, porque se ocorresse um feminicídio, a gente teria os dados e a imagem dele para uma possível busca. Mas para evitar constrangimentos à vítima, por enquanto, isso não está sendo feito. Estamos gerenciando essa questão para melhorar ainda mais essa ferramenta. Quem sabe num futuro próximo se consiga”, idealiza o patrulheiro.

Enquanto faz planos para melhorar o sistema, Oliveira também comemora o resultado obtido através da ideia, -que parece ser pioneira entre as patrulhas no Estado – em usar o Maps para facilitar o trabalho dos colegas. “Fiquei muito feliz. Quando comecei a criar, pensei que não ia dar certo, que não conseguiria cadastrar todas as mulheres, ou até que os colegas não iam abraçar essa causa. Mas todos acharam muito legal, porque facilitou os atendimentos”.

Em dois anos, Patrulha Maria da Penha atendeu mais de 200 mulheres
A Patrulha Maria da Penha começou suas atividades, em Montenegro, em junho de 2019, mas foi oficialmente lançada no Seminário Mais Garantias II, realizado na Estação da Cultura em 28 de agosto daquele ano. Nesses dois anos, 252 mulheres vítimas já foram atendidas; 994 visitas de acompanhamento e auxílio às vítimas foram feitas; e 9 agressores foram presos por descumprimento de medidas protetivas de urgência.

Atualmente 242 vítimas estão sendo acompanhadas pela PMP, dessas, 217 só em Montenegro. “Conseguimos atender todas as medidas protetivas que chegam do judiciário, respeitando muito a individualidade de cada mulher que necessita desse atendimento. Se ela acha que não há necessidade e que irá causar algum constrangimento, a gente informa ao judiciário e ai não dá continuidade”, relata a coordenadora da patrulha, soldado Aline Paim.

A frequente presença dos patrulheiros inibe as tentativas de perturbação por parte do agressor

Contudo, a recusa em receber atendimento tem sido pequena, revela Aline. “Estamos tendo muito sucesso com nossa patrulha e a ideia é só melhorar e qualificarmos cada vez mais nosso efetivo para prestar atendimento as nossas mulheres”, informa a soldado.

A Patrulha é composta por 10 patrulheiros, habilitados para a função e também pelos chamados “agregados”, soldados que se dispõem a auxiliar. Cada guarnição conta com no mínimo uma policial feminina. No dia 12 de agosto, foi concluído processo de capacitação de mais 16 patrulheiros que irão reforçar o trabalho que vem sendo feito pela Patrulha, em Montenegro e na região.

Mais incentivo para efetuar a denúncia
“Maria” de 36 anos foi casada por 20 anos com o pai de seus cinco filhos – o mais velho de 19 e o menor, de 4 anos. No ano passado ela descobriu que havia sido traída e pediu a separação. O ex-marido deixou a casa onde moravam sem dar sinais de que causaria transtornos. Mas a situação mudou quando ele soube que sua ex-esposa havia começado um novo relacionamento afetivo.

“Começou a me perseguir, vinha aqui em casa, se escondia no pátio para me assustar”, conta a moradora de uma localidade do interior de Montenegro. Para se vingar da mulher que não queria mais nada com ele, o homem chegou a publicar fotos íntimas do ex-casal em seu statos, no WhatsApp. “A gente não sabe o que passa na cabeça de uma pessoa que faz o que ele fez”, diz “Maria”.

Foi somente diante de um ato violento que ela criou coragem para denunciar o pai de seus filhos. “Um dia, meu namorado veio me buscar para sair. Quando estacionou na frente de casa, meu ex chegou e quebrou todo o carro dele, e começou a me ameaçar”, lembra a vítima. Naquele mesmo dia, ela foi à delegacia de polícia e registrou ocorrência, na qual solicitou medida protetiva de afastamento. “Registrei no sábado, e no domingo já entraram em contato para avisar que a juíza tinha assinado e eu já estava com a medida garantida”, recorda.

Mas ter a medida de afastamento não era motivo suficiente para “Maria” se sentir segura. Por algum tempo, o ex-marido continuou rondado a casa. “Eu não saia mais sozinha. Estava sempre com a casa fechada”, acrescenta. Ele só se afastou de fato ao saber que a Patrulha Maria da Penha passou a fazer freqüentes visitas para sua ex-companheira. “Os vizinhos falaram pra ele que a polícia vem seguido aqui, e que não tem horário certo pra passar, ai ele deu uma parada”, diz.

“Hoje estou mais segura. O atendimento do pessoal é excelente. É muito importante esse trabalho deles, faz toda a diferença. Se não fosse a patrulha, com certeza ele ia continuar passando aqui, mesmo com medida protetiva”, conclui a mulher.

“É bom ver que, de alguma forma, estamos ajudando essas mulheres”, diz patrulheira
A soldado Daniela Araújo Ceratti tornou-se patrulheira há dois anos. A coordenadora da Patrulha, Aline Paim, viu nela o perfil comunicativo, empático e acolhedor que são necessários à função. Ela se habilitou e hoje concilia a atividade a suas outras rotinas de policiamento. “Para ser patrulheiro é preciso ter um perfil mais acolhedor, não julgar a mulher, aconselhar e mostrar que estamos presentes e podemos auxiliá-las”, comenta Daniela. “É bom ver que, de alguma forma, estamos ajudando essas mulheres”, acrescenta.

Acompanhada pelo soldado Gilmar dos Anjos, e às vezes por outros colegas, Daniela leva, até as vítimas, mais do que a tranqüilidade do afastamento do agressor. Graças a uma parceria com a Central Única das Favelas (Cufa), os patrulheiros também têm doado – para aquelas que passam por dificuldades financeiras – cestas básicas de alimentos e material de limpeza.

Os soldados Daniela e dos Anjos levam mais que apoio às vítimas de violência

Para Daniela, a dificuldade de manter as despesas da casa é um dos motivos que levam muitas mulheres a sofrerem caladas. “Infelizmente, o que acontece na maioria dos casos é pela questão financeira. Às vezes, o marido não deixa a mulher trabalhar, talvez até para que ela tenha mesmo essa dependência. A mulher se vê sem opção, com filho pequeno e só o homem para manter a casa financeiramente”, ilustra.

Já para outros casos, nem adianta tentar formular uma explicação. A patrulheira recorda um caso atípico, que lhe mostrou que a violência doméstica pode ocorrer em qualquer fase da vida. “Me chamou a atenção uma senhora de 71 anos que a gente acompanhou. O marido, de 74 anos, empurrava e batia nela. Era o segundo esposo, fazia uns oito anos que estavam juntos. Ela nunca tinha contado para ninguém tinha vergonha”, lembra a soldado.

Cansada de sofrer, inclusive ameaças de morte, num domingo de manhã a vítima acordou cedo e foi à delegacia. “Ela não sabia que poderia chamar a Brigada Militar”, conta Daniela. “Chamaram a filha dela na delegacia. O oficial de justiça foi na casa e notificou o senhor para que saísse.Ela me disse que a vida melhorou muito acha, que se continuasse com ele, poderia ter sido morta”, acrescenta. Depois da separação, ao limpar o quarto, a mulher encontrou uma tesoura embaixo da cama onde dormia com o ex-companheiro.

Sobre a Patrulha Maria da Penha
A Patrulha Maria da Penha atende mulheres vítimas de violência doméstica, com medida protetiva de afastamento do agressor, expedida pelo juizado. Os patrulheiros realizam visitas periódicas às casas dessas mulheres para assegurar que o agressor se mantenha longe e deixe de importunar a ex-companheira.

Essas mulheres contam ainda com monitoramento realizado através de um grupo de WhatsApp. Mas, em caso de emergência elas são orientadas a ligar diretamente para o número 190, para que uma viatura seja imediatamente deslocada para atendê-las.

Deixe seu comentário