Seu Francisco mostra o boletim de atendimento deixado pela equipe do Samu. Ele lamenta a forma como o genro faleceu e acredita que poderia ter sobrevivido se tivesse diagnóstico adequado

ATO está sendo apurado pelo órgão gestor do serviço, mas ainda não há respostas ao pedido de esclarecimento

A família de Valmir Rogério de Oliveira, de 53 anos, está revoltada com a forma como ele veio a óbito. Na semana passada, o cidadão passou mal e precisou de socorro. O Samu foi chamado, prestou atendimento, mas não removeu Valmir para o hospital. Pouco depois da saída da equipe da casa, o paciente teve uma crise, foi levado para atendimento no posto da Secretaria de Saúde, mas não resistiu. Para o sogro da vítima, o aposentado Francisco Souza, 79 anos, os atendentes do Samu foram negligentes ao não identificar os sintomas que resultaram na morte de Valmir.

Segundo Francisco, o genro chegou em frente a sua casa, na Rua das Amoreiras, no bairro Senai, em Montenegro, por volta das 7h do dia 10, com aparência abatida. Rogério nem entrou, disse que não se sentia bem e que iria retornar para casa. Logo que o genro saiu, Francisco foi atrás. Quando entrou na casa, viu que ele desmaiado e pediu ajuda. O Samu foi chamado e quando a equipe chegou à residência, Rogério começava a se recuperar do desmaio. Depois de verificar pressão, glicose e fazer outros testes que normalmente são realizados, os profissionais teriam dito que não adiantaria levar o homem para o hospital, pois demoraria muito até ser atendido. A recomendação foi para que Valmir procurasse um posto de saúde, mas não houve tempo.

Após a equipe entregar o boletim de atendimento para a família e deixar a casa, o paciente teve uma nova crise, isso em questão de minutos. “Quando eles entraram na ambulância, meu genro teve outra crise. Eu corri pra chamar, mas já estavam dobrando ali na esquina. Nisso pedi socorro para os vizinhos. Veio um pessoal aqui e me ajudou a levar ele na Secretaria da Saúde”, conta Francisco.

Para o aposentado, o Valmir já chegou sem vida no posto médico. “Ele tava desmaiado. O médico ficou com ele na sala e pediu pra gente sair uns minutos. Logo ele nos chamou e disse que o Rogério estava morto. Se ele tivesse sido socorrido um pouco antes, pode ser que não tivesse acontecido isso”, desabafa.

O atestado de óbito apresenta como causas da morte um quadro de hipertensão e diabetes. Valmir Rogério também havia passado por uma recente pneumonia e se tratava em casa. Ele vivia com a filha de seu Francisco há 20 anos e deixou dois filhos deste matrimônio, uma menina de 13 e um jovem de 15 anos. A mãe de ambos também possui problemas de saúde e está sendo cuidada pelos pais.

Um comentário feito durante o atendimento do Samu também desagradou a família. Para Francisco, faltou respeito com a neta que estava presente. “Perguntaram se ele tomava remédio para diabetes e disseram que teria de tomar para o resto da vida. Se ele não fizesse o tratamento direito, poderia ter uma perna ou braço amputado e ficar brocha (impotente)”, conta.

Boletim de atendimento emitido pelo Samu traz informações do estado do paciente pouco antes dele falecer

Indignada com a falta do diagnóstico da crise que levou o homem à morte e com o comentário feito, a família voltou à Secretaria da Saúde, no dia seguinte ao óbito, e pediu que providências sejam tomadas. O objetivo é evitar que outras famílias passem pela mesma situação. “Vamos esperar a resposta da secretária para ver o que vamos fazer”, diz Francisco.

A secretária municipal de Saúde, Cristina Reinheimer, enfatiza que o serviço do Samu é custeado pelo Município, Estado e União. O município é responsável por parte do recurso, mas a gestão é terceirizada e de responsabilidade do Hospital Montenegro, a quem cabe, inclusive, a contratação, gerenciamento, escala e pagamento dos profissionais contratados.

A reclamação da família foi comunicada ao responsável pelo Hospital Montenegro, com uma solicitação de providências. Contudo, a Secretaria destaca que o Samu possui responsável técnico da área médica e responsável técnico na área de enfermagem, os quais são encarregados junto à equipe pelos atendimentos e funcionamentos do setor.

A reportagem conversou com a coordenadora do Samu, mas a mesma achou mais coerente que o próprio médico responsável por aquela equipe se manifestasse sobre o caso. A equipe foi até a unidade local, duas vezes, deixou recado e contatos de telefone e e-mail, mas, até o fechamento da matéria, não recebeu retorno.

A direção do Hospital Montenegro também foi contatada e informou que está verificando a situação e dará retorno sobre o caso em breve.

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