Comandar pela palavra. Capitão Bessi alia formação militar à literatura no combate a criminalidade na região

Oscar Bessi Filho ingressou na Brigada Militar em 1990. Em 27 anos de carreira, fez academia de polícia na capital e hoje é o subcomandante do Batalhão e comandante da 1ª Companhia de Policiamento. Recentemente o capitão Bessi esteve licenciado das atividades na Brigada por razões de saúde. Ele estava com fungos e bactérias no pulmão, resultado das longas jornadas com até 18 horas de trabalho e, segundo os médicos da Brigada Militar, para a recuperação plena, é hora de desacelerar. De volta ao 5° BPM, o comandante conversou com nossa equipe sobre a carreira militar, família, literatura e os resultados positivos que o 5° BPM vem conquistando no policiamento ostensivo.

Comandante Bessi, com o romance policial escrito por ele e que deve ter um segundo volume, de acordo com o escritor.

Nascido em Porto Alegre, em 1970, aos oito anos mudou-se com a família para Montenegro após o pai aposentar-se da carreira militar na Brigada, já que os familiares são da região. Da infância à adolescência, cursou parte do Ensino Fundamental e o Médio na cidade. Foi nessa época que a professora de português, Izabél Nonemacher viu o potencial do aluno para as letras, o que anos mais tarde viria a ser tornar mais que um passa tempo para o jovem estudante, que optou inicialmente pela carreira militar.

Casado pela segunda vez, o capitão vive com a esposa, a vereadora Josi Paz, o filho João Ernesto, de quatro anos de idade. Os filhos do primeiro casamento também fazem parte do cotidiano do capitão. “O Gerônimo tem 14 anos é músico e mora conosco, assim como a Kant, de 18, que é filha do primeiro casamento da Josi. A minha mais velha, a Tuane, tem 24 anos e já mora sozinha”, conta o pai Bessi.

De “aspira” a Comandante e o reencontro com a escrita
No início da carreira, de aspirante a Tenente, o comandante passou pelo 11 BPM da capital. “Naquela época toda a zona norte pertencia a minha área. Tráfico, assalto, confrontos praticamente todo dia. Perdi colegas em ação e cheguei a fazer turnos de 36 horas na viatura”, relembra. Mas o capitão também coleciona histórias positivas. No fim doas anos 90, quando comandava o pelotão do 11 BPM, em uma época que não existia a EPTC na capital e a educação no trânsito era feita pela Brigada.

Foi neste tempo que o militar reencontrou com o estudante que tinha facilidade com as letras nas aulas da professora Izabél. O teatro de fantoches foi intitulado, Sinal Verde para a Vida. “Escrevi um teatro educativo que se tornou referência com mais de 700 apresentações em escolas, uma feira do livro de Porto Alegre e até hoje a única participação da Brigada no Festival de Bonecos de Canela”, diz com o orgulho de quem descobriu como unir a paixão pela escrita com o serviço policial.

O reconhecimento público como escritor veio após participações em concursos de poesia e a conquista de premiações que lhe renderam seis convites para patrono de feiras do livro e a presidência da associação gaúcha de escritores em 2016. “ Me inspiro na rotina de policial. Pra mim também é uma terapia escrever e poder formar cidadãos de bem com histórias com suspense e aventura para o público juvenil, e assim de maneira descontraída alertá-los sobre os riscos das drogas”, explica o escritor- capitão.

Desde 1998 já foram escritas 14 obras, entre romances, contos infanto-juvenil além de crônicas para jornais impressos. “Hoje escrevo bem menos em jornais. Como comandante é preciso ter zelo pela segurança pública e nem sempre convém emitir as opiniões, que fazem parte da rotina de quem escreve”, pondera Bessi.

Esse amadurecimento, quanto a produção intelectual e ao mesmo tempo figura da segurança pública, também se deu através de experiências um tanto quanto “espinhosas”. Por pressões políticas, Bessi foi transferido de Montenegro em 2010.

“Regressei para assumir como subcomandante quando o Coronel Buss assumiu o comando regional do Vale do Caí em 2016. E pelo meu bom relacionamento com os soldados e bagagem de polícia, acabei assumindo a 1° CIA também”, afirma.

Bessi alia o trabalho ostensivo na Brigada Miliar ao exercício da escrita, desenvolvido pelo amor à palavra

Combate ao tráfico
E é na dura realidade das ruas, de luta contra o crime organizado, que o comandante e a equipe da 1ª CIA de Policiamento tem obtido resultados animadores para a comunidade. Só em 2017 mais de 50 traficantes foram presos na região do 5º BPM. Em março houve queda do abigeato em 89%, além do desmantelamento de facções criminosas que comandavam o roubo de carro para clonagem de dentro dos presídios e ainda a contenção da quadrilha de furto de estepes, ações essas desenvolvidas em parceria com Polícia Civil e Polícia Rodoviária Federal. “A minha participação nisso é como incentivador. O mérito é dos soldados e sargentos que se esforçam, estudam o ‘modus operandi’ dos bandidos e transformam isso em segurança para a comunidade”, afirma Bessi.

Estrategista, Bessi também tem se dedicado a patrulha rural. Conhecedor da realidade do Estado, o comandante também fala sobre os alunos soldados, que em breve vão partir da cidade. “Não podemos nos iludir. Temos que trabalhar. Em breve colegas devem se aposentar e não sabemos se virão outros em seguida, mas temos que unir nossos esforços para manter o policiamento para a comunidade”, aponta. Na avaliação de quem tem quase três décadas de Brigada Militar, ele aponta questões ligadas a educação e ao comportamento como os que mais consomem tempo do trabalho ostensivo. “Som alto, briga de bar, rachas, tudo isso são 80% das nossas ocorrências. E quando surge algo mais grave como abigeato, por exemplo, nossos efetivos estão presos nessas ocorrências”, lamenta.
Para o futuro o comandante já vislumbra um caminho, não tão novo para ele, mas com efeitos garantidos na manutenção da segurança pública. “Quero me dedicar a escrever e assim, passar para o outro lado. Trabalhar com a humanização e evitar a formação de bandido…até lá não tenho planos de sair do 5º BPM”.

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