Cidade das Artes corre risco de perder os cursos de licenciatura em Teatro, Música, Dança e Artes Visuais Foto: Arquivo do Jornal Ibiá

Manifestação da Universidade Estadual reforça planos de transferência da unidade montenegrina para outro município

Algumas unidades da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul estão passando por reestruturação, o que inclui o estudo de mudanças de cidades, medida que deverá refletir no campus de Montenegro. Além do município, a Região 2 abrange os cursos de Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Encantado, São Francisco de Paula e Vacarias. Em todos, há planos de alterações.

Um texto extenso, assinado pelo diretor regional, Rodrigo Koch, foi divulgado pela Uergs visando esclarecer sobre o processo de reformulação da instituição diante da crise econômica e política do Estado. Ele observa que os estudos se intensificaram no primeiro semestre de 2017 nas reuniões do Conselho Consultivo Regional. O diretor destaca que as reuniões são abertas, tanto a membros da comunidade acadêmica como ao público externo.

“Portanto, não tratamos nada em segredo ou com o intuito de trair algum órgão”, defende-se. “Os assuntos tratados nestas sessões são de amplo conhecimento da gestão e, talvez, não tenham sido divididos com toda comunidade universitária porque, por enquanto, não há nada de concreto, ou seja, são apenas tratativas, estudos e avaliações”, acrescenta.

Sobre a unidade de Montenegro, a ideia de mudança é motivada pelo aluguel pago à Fundação Municipal de Artes (Fundarte). A universidade utiliza as instalações da instituição para os cursos de licenciatura em Artes Visuais, Dança, Música e Teatro. Para isso, são pagos R$ 47.893,93 por mês. Koch lembra que a busca por alternativas não é recente e vai continuar. “Tal movimento já é feito há anos na Uergs e continuará sendo feito, pois é de conhecimento público que pagamos aluguel de quase R$ 50 mil para a Fundarte e há um consenso, na Região 2, que isto é uma situação que precisa mudar em prol da própria universidade”, afirma. “Sabemos que isto poderá implicar em mudança de região da unidade, mas é fato que há necessidade de solução para esta questão”, complementa.

Ele recorda que houve uma oferta do prédio da Escola Estadual de Educação Básica Neusa Mari Pacheco, em Canela, na Região Serrana, para transferência da unidade de Montenegro. A opção da universidade, no entanto, foi por buscar alternativas na Região Metropolitana ou nas proximidades para oferecer os cursos.

Mobilização em audiência pública na Assembleia
A possibilidade de transferência das graduações para outra cidade deverá ser tema de uma audiência pública promovida pela Assembleia Legislativa. A iniciativa foi levantada durante visita realizada pelo deputado Tarcísio Zimmermann (PT) à Uergs Montenegro, quando conversou com alunos e professores. Ele integra a Frente Parlamentar em Defesa da Uergs e entende que a união de lideranças na busca de alternativas para evitar a transferência é fundamental. O acadêmico Ezequiel Souza, que participou do encontro, acrescenta que, com o fim do recesso na Assembleia, o parlamentar formalizará o pedido da audiência pública.

Reestruturação abrange unidades de outros municípios
As mudanças em estudo pelo Conselho Consultivo Regional abrangem outras unidades da Uergs, como a de Caxias do Sul, que deverá mudar para Farroupilha. O diretor da Região II, Rodrigo Koch, observa que atualmente a universidade funciona junto ao Instituto Cristóvão de Mendoza. “Queremos melhorar a condição de professores, funcionários e alunos, dando a possibilidade, inclusive, de em médio ou longo prazo ampliar a oferta de cursos na região, com mais atividades de pesquisa e extensão, o que hoje não é possível no espaço onde estamos alocados”, diz ele.

Para a unidade de São Francisco de Paula, há duas alternativas em estudos nos municípios de Canela e Gramado. Segundo o diretor, são prédios mais espaçosos e mais bem servidos de transporte público. Ele observa que atualmente o campus de São Francisco é dividido em duas escolas públicas, à noite, para atender a 11 turmas de três cursos de graduação, além do mestrado. “Nestes municípios, vislumbramos também maiores possibilidades de parcerias e convênios”, afirma.

Koch garante que as mudanças não comprometem as atividades de pesquisa e extensão desenvolvidas em Caxias do Sul. “Também é importante frisar que os alunos que já estão em curso de suas graduações têm o direito de concluir seus estudos nas unidades atuais, e só serão transferidos para as possíveis ‘novas’ unidades se assim desejarem”, esclarece.

Mudança de prédio em Bento Gonçalves
Para a unidade de Bento Gonçalves, está em estudo a mudança do endereço atual para outro na mesma cidade, localizado ao lado de um terreno já doado à Uergs. “Portanto, estaríamos concentrando em um único local da cidade nossas instalações atuais e futuras”, afirma o diretor regional Rodrigo Koch. Ele lembra que, devido à falta de laboratórios nessa unidade, foi necessário o deslocamento de turmas para ter aulas em Novo Hamburgo.

“Não podemos ignorar ou descartar auxílio…”
Ao concluir sua manifestação, o diretor regional da Universidade, Rodrigo Koch, observa que todas as mudanças serão tomadas após estudos e com critérios técnicos. Ele acrescenta que as situações continuarão em análise neste segundo semestre, e abrangem todas as unidades da Região II. E afirma que não representam ônus à universidade, pelo contrário, deverão gerar economia em médio e longo prazos.

O diretor salienta que a Uergs não é responsabilidade dos municípios, mas do Estado, que nos últimos anos vem cortando, cada vez mais, o orçamento da instituição. “Diante deste quadro, que infelizmente está instalado, não podemos ignorar ou descartar auxílio das cidades que nos estendem as mãos, através da injeção de recursos diretos ou indiretos em nossa instituição”, afirma.

Ele destaca ainda a relação de harmonia com as instituições com as quais a Uergs divide as instalações, mas considera inadmissível que, após 16 anos, a universidade continue em condições precárias. “Por isso trabalhamos com a ideia de que as unidades não pertencem aos municípios e sim estão ali para contribuir no desenvolvimento das regiões”, resume.

Cursos em risco de extinção
A falta de professores e de infraestrutura coloca em risco alguns cursos da Uergs. Por essa razão, lembra o diretor Rodrigo Koch, nos últimos três anos não foram oferecidas vagas nos cursos de Administração: Rural e Agroindustrial, em São Francisco de Paula, e no de Ciências Agrárias, em Vacaria. “São cursos que, caso o cenário não mude, poderão e deverão ser extintos”, afirma.

Ele acrescenta que o curso de Administração: Rural e Agroindustrial, em Encantando, também está sob avaliação. “E poderá passar por processo semelhante, caso não encontremos viabilidade de convênios ou parcerias na região”, observa.

Fundarte
O diretor da Fundarte, André Luis Wagner, optou por não comentar a manifestação oficial da Uergs, alegando que não houve declarações novas. Em entrevista publicada no Jornal Ibiá, em junho, Wagner havia falado sobre o interesse da instituição pela permanência da universidade no município.

Em relação ao valor mensal pago à Fundação, ele ponderou que a Uergs utiliza a infraestrutura, o que vai além do espaço físico. “Em um prédio vazio os cursos não funcionam. São necessários instrumentos adequados. E funcionando precisa de porteiro, limpeza, recepção, bar e bibliotecária. Esses serviços, apesar de não estarem especificados no termo de sessão de uso, incorporam também, porque é um prédio aberto, à disposição, com todos esses serviços”, declarou na ocasião.

 

Deixe seu comentário