É luz, é gasolina, é comida. Vários itens têm encarecido ao longo desses últimos meses; apertando os orçamentos e forçando famílias a se reinventarem na tentativa de diminuir o impacto das altas. A prévia da inflação oficial do País para setembro – do IPCA – traz um acumulado de 10,05% de alta nos preços a partir do mesmo período de 2020. O indicador medido pelo IBGE, no entanto, considera famílias em geral e traz pesos diferentes dentre os itens de consumo das residências brasileiras. Esses, que nem sempre refletem a nossa realidade local. Na prática – nós fomos conferir – muita coisa subiu mais do que esses 10,05%.

A gasolina custava R$ 4,36, em setembro de 2019. Estava R$ 4,45 no mesmo mês de 2020. Hoje, está em R$ 6,18 nos postos da cidade. A alta é de 42%
A gasolina tem sido um dos símbolos da alta dos preços. Em 2020, nos primeiros meses de pandemia, ela chegou a registrar uma considerável queda de valor. Isso, quando a produção de petróleo ainda não havia sido reduzida e, pelas medidas de isolamento, muita gente deixou de circular e consumir o combustível. Porém, em 2021, a lógica inverteu.

As principais economias do mundo retomaram as atividades e passaram a demandar mais quantias de gasolina ao passo que a produção, à nível mundial, ainda não acompanha o mesmo passo. Na lei da oferta e da procura, isso faz subir a cotação do petróleo internacional que é base, também por aqui, para definir os preços. Impacta diretamente nas bombas e, com isso, muita gente já vem tentando reduzir os deslocamentos de carro.

O Brasil, nessa história, ainda acaba sentindo um impacto extra com o câmbio devido à alta do dólar. O real está consideravelmente desvolarizado perante a moeda estrangeira; e isso é reflexo de vários fatores. Um dos principais que pode ser citado é a falta de capital estrangeiro entrando no País. Por quê? Demora na vacinação, conflitos políticos entre os poderes e incertezas quanto à política de reformas do governo brasileiro são alguns fatores que acabam afastando investidores; que preferem investir em economias consideradas mais estáveis.

Na compra da comida, são encontradas as maiores altas
A compra dos alimentos também vem sendo fortemente afetada; um problema grave especialmente para as famílias de baixa renda. Vários itens subiram nesses últimos anos; e consumidores vem se apropriando de muita pesquisa de preços e também de substituições no cardápio para tentar minimizar o impacto no orçamento. Recente pesquisa do DataFolha, aliás, mostra que 75% dos moradores do Sul do País reduziram o consumo de alimentos nesse ano. No ranking, a carne de boi foi a mais citada; por 58% dos ouvidos.

Essa inflação dos alimentos é motivada por diversos fatores. A alta no óleo e na carne, por exemplo, também ganhou força com o aumento do dólar, que tornou mais competitivos os produtos brasileiros fora do País, estimulando as exportações em detrimento do mercado interno. Durante 2020, também, mais pessoas em casa e com o auxílio emergencial aumentaram a demanda por itens como o arroz, forçando os preços pra cima. Em mercadorias como o feijão e o leite, ainda entra o impacto da estiagem. Somado a isso, alta da luz e do combustível também implicam em mais custo pra produção, distribuição e revenda da comida; encarecendo as compras ainda mais. Veja:

2019 2020 2021 VAR.
Óleo de Soja 900 ml  R$     3,12  R$     5,91  R$       7,34 135,51%
Arroz 5kg  R$     9,99  R$   19,23  R$     17,66 76,74%
Carne Moída 2ª Kg  R$   13,99  R$   19,32  R$     23,99 71,48%
Coxa/Sobre Frango Kg  R$     5,51  R$     6,37  R$       9,32 69,36%
Café 500 g  R$     8,43  R$     8,54  R$     13,99 65,95%
Feijão 1Kg  R$     3,87  R$     5,99  R$       6,36 64,62%
Leite 1l  R$     2,22  R$     3,38  R$       3,32 49,74%
Queijo Kg  R$   19,99  R$   29,99  R$     28,99 45,02%
Pão Francês Kg  R$     6,99  R$     7,99  R$       9,99 42,92%
Batata Inglesa Kg  R$     2,34  R$     1,82  R$       2,99 27,78%
Ovos Dz  R$     3,80  R$     3,55  R$       4,80 26,34%
Erva-Mate Kg  R$     7,99  R$     8,66  R$       9,49 18,77%

Preços médios levantados junto a encartes publicados no Jornal Ibiá

No gás de cozinha, alta é de 47% em dois anos
Em alta, o gás de cozinha sente os mesmos efeitos do que vem forçando o encarecimento da gasolina e demais derivados do petróleo. O preço caro força altas nos valores dos restaurantes e, nas residências, vem forçando famílias a buscarem alternativas mais em conta. Há quem recorra ao fogão à lenha e quem prioriza a panela de pressão. Pra poupar, são dicas importantes o cuidado com a manutenção do fogão e também técnicas para facilitar o cozimento; como cortar os alimentos em pedaços menores.

Preço médio cobrado pelo GLP 13 Kgs na tele:

2019 2020 2021
 R$         75,00  R$   77,90  R$   110,00

 

Crise hídrica força alta nas contas de energia elétrica
Na comparação de setembro desse ano com o mesmo período do ano passado, a conta de luz subiu 27,36%. O Ibiá utilizou, para análise, uma tarifa residencial em Montenegro com o consumo mensal de 200 KW/hora por mês. Na tabela, setembro de 2020 tem valor menor que setembro de 2019 em função das bandeiras. Em 2020, a bandeira era verde; e, em 2019, vermelha, representando custo extra na tarifa.

A situação ficou crítica, hoje, em função da crise hídrica vivida pelo País; uma das maiores em 91 anos e que vem afetando as hidrelétricas. Com a necessidade de alternativas, como o acionamento das termelétricas, que são mais caras, foi criada nesse mês uma bandeira nova, que representa ainda mais custo extra pros consumidores: R$ 14,20 a cada 100 KW/hora consumido. Ela vai seguir vigente até abril do ano que vem.

Os valores da luz ao longo dos anos:

set/19 set/20 set/21
 R$       188,31  R$   182,83  R$   232,85

 

No aluguel, uma inflação de assustar
De praxe, os contratos de aluguel são reajustados em seu mês de aniversário; sempre que fecham um ano. O Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) é comumente usado para calcular os reajustes; tanto que é conhecido informalmente como a “inflação do aluguel”. E ele, ainda que tenha desacelerado nos últimos meses, vem acumulando resultados bem salgados. Em agosto, fechou com acumulado de 31,12% em doze meses. Quer dizer que, quem tem aluguel balizado pelo indicador que fechou um ano em agosto, teve a aplicação do índice no contrato. Pegue um kitnet no Centro montenegrino com um custo de R$ 650,00 por mês; e ele já sobe R$ 202,28 no “aniversário”. É alta bem acima de qualquer reposição salarial.

O que tem se visto bastante, nessa situação, é inquilinos e proprietários partindo pra negociação; seja pela não aplicação integral do reajuste ou, inclusive, a troca dele por algum outro índice de inflação, como o IPCA e o INPC. Ambos estão menores que o IGP-M porque medem a inflação considerando itens e grupos diferentes. O “do aluguel” pega, por exemplo, preços internacionais de produtos no atacado; matérias-primas como petróleo e minério de ferro; além de custos ligados à construção civil. São itens que, no acumulado do ano, subiram bastante.

Nos remédios, também
O reajuste é anual, dado como atualização para recomposição de custos, e está valendo. A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos aprovou altas de 6,79%, 8,44% e 10,08% para os remédios nesse ano. Varia a depender da classe de cada medicamento.

A água sobe cerca de 6% ao ano
O valor da tarifa de água é calculado e atualizado anualmente. A Corsan propõe a tarifa usando uma cesta de indicadores que visam assegurar o equilíbrio econômico-financeiro da estatal. Eles são regulados pela Agergs. Veja a tabela, com dados da companhia.

Taxa do serviço básico
set/19 set/20 set/21
 R$     26,60  R$ 28,18 (+5,94%)  R$ 30,14 (+6,96%)
Preço base – 1 mil litros
 R$       5,61  R$ 5,94 (+5,88%)  R$ 6,35 (+6,90%)

 

Já o salário…

MEMÓRIA GLOBO/DIVULGAÇÃO

Ao passo que itens essenciais encareceram tanto, o salário, infelizmente, não acompanhou. De 2019 para 2021, ele foi reajustado em 10,22%; percentual abaixo da maioria dos itens analisados por essa edição da coluna.

A definição do valor do salário, atualmente, já não tem uma fórmula de cálculo definida. Porém, ela é regrada indiretamente pela Constituição, objetivando a preservação do poder de compra dos trabalhadores de menor salário.

De 2020 pra 2021, essa “preservação” deu-se com a atualização pela inflação medida no INPC, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor. Esse indicador é calculado pelo IBGE com base nos rendimentos e o consumo de famílias que recebem entre 1 e 5 salários mínimos; e é diferente do IPCA, índice de inflação oficial do País, que mede os preços usando um grupo mais amplo (de até 40 salários). Segundo o IBGE, com os dados oficiais fechados em agosto, a evolução do IPCA, em doze meses, é acumulada em 8,99%. Já a do INPC, em 9,85%. Pra fechar as contas de casa, porém, os percentuais parecem bem maiores.

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