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FENÔMENO é principal justificativa para a criação da nova cédula

Assunto dos últimos dias, a nova cédula de R$ 200,00 anunciada pelo Banco Central começa a circular já neste mês. E a novidade, que pegou muito brasileiro de surpresa, vem repercutindo bastante. Há quem diga que a cédula pode facilitar a lavagem de dinheiro; quem critique que boa parte da população, prejudicada pela crise, não terá acesso a ela; e até quem já se preocupe com a dificuldade com o troco nas compras realizadas com a nota. Acredite! Até cédula falsificada do novo modelo – ainda nem divulgado – já circulou no Rio de Janeiro.

De acordo com o Banco Central, a decisão pelos R$ 200,00 está relacionada à maior demanda por dinheiro em espécie. Diante da pandemia do coronavírus, mais gente está guardando dinheiro em casa e menos cédulas estão disponíveis para circulação. É o chamado “entesouramento” e há prós e contras quanto a este fenômeno.

“Não só o Banco Central do Brasil, mas bancos centrais de outros países observaram o entesouramento desde que a pandemia começou. Isso não é um fenômeno típico do nosso país”, colocou a diretora de Administração do Banco Central, Carolina de Assis Barros, ao apresentar a cédula. “Em momentos de incerteza, as pessoas tendem a fazer saques e acumular reservas”.

Dados da entidade apontam que, em março, a quantidade de dinheiro vivo guardado junto da população era de cerca de R$ 216 bilhões. Hoje, o montante está em cerca de R$ 277 bilhões. Há, aí, também, impacto do saque em espécie do auxílio emergencial que, impulsionado por pessoas que não tem conta em banco ou que resolveram guardar parte do valor em casa, também está aumentando a demanda por mais cédulas em papel. Em tese, então, colocar a nota de R$ 200,00 para circular vai reduzir os custos de impressão.

A novidade, porém, vai contra outro movimento percebido durante a pandemia. Com as limitações de saque do próprio auxílio emergencial e as orientações sanitárias que tem levado muita gente a evitar pegar num dinheiro que passou de mão em mão, tem crescido a procura por meios de pagamento digitais, sem a circulação das cédulas em espécie.

O Banco Central mesmo, não de hoje, tem uma agenda de modernização do sistema financeiro. Questionada quanto à eventual contradição com a criação de uma nova cédula em papel, no entanto, a entidade respondeu que as ações não concorrem entre si. “É papel do Banco Central atender essa demanda por meio circulante”, justificou a diretora.

Histórico –
O entesouramento é um “problema” que não vem de hoje. É uma dor de cabeça histórica para o Banco Central, especialmente no que se refere às moedas, que muita gente guarda e não usa, seja por esquecimento ou dificuldade de manuseio. Pesquisa da entidade de 2017 (há três anos) mostrava que desde o começo do Plano Real, 25 bilhões de moedas tinham sido emitidas no Brasil e quase 35% destas estavam “entesouradas”, guardadas em cofrinhos, esquecidas em gavetas ou perdidas. Gerou até uma campanha para incentivar o brasileiro a devolvê-las para circulação, diminuindo o gasto com a produção de novas e facilitando o troco no Comércio. Claro! Vivemos hoje um outro fenômeno, reflexo da crise e da insegurança econômica.

Motivos –
Guardar dinheiro em casa divide opiniões, especialmente no momento atual, de inflação baixa e de tantas incertezas. Tirando a pandemia da equação, figura entre as justificativas de quem deixa a grana “debaixo do colchão”, a falta de confiança nas instituições financeiras, o acúmulo de dívidas (que leva a pessoa a deixar seu dinheiro bem longe dos bancos para não ser achada pelos credores), e até a preferência em administrar as cédulas em espécie, ao contrário das faturas. Já na realidade atual, têm contado bastante em favor da opção as restrições de circulação e o receio de um lockdown que possa vir a fechar bancos e lotéricas.

Dinheiro perdido? – Além do risco de roubo, incêndios ou inundações que poderiam por em risco um dinheiro guardado em casa, o principal argumento dos especialistas para não deixar grandes quantias “no colchão” é a perda de valor das cédulas. Em linhas gerais, com a inflação, o que um dinheiro guardado compraria num ano já não é suficiente para comprar o mesmo no ano seguinte, com o dono lentamente perdendo o seu poder de compra. A indicação, nessa linha, seria investir, mesmo que em aplicações mais conservadoras, como a caderneta de Poupança.

Mas em meio a crise gerada pela pandemia do coronavírus, esse argumento perde um pouco de força. A paralisação parcial da economia acarretou em inflação baixa, inclusiva com queda de preço em alguns itens (o índice oficial tende a terminar o ano em menos de 2%). Por outro lado – e fortemente para tentar impulsionar o crédito – a taxa Selic foi cortada ao menor índice histórico (2% na semana), o que torna os investimentos nela baseados, como a Poupança, menos atrativos. Hoje, um dinheiro aplicado na Poupança rende 0,11% ao mês (1,4% ao ano). Pesados os “contras”, ainda é melhor do que nada, apesar de que o “ganho real”, com a diferença entre o rendimento e a inflação oficial, deva ficar negativo. E sempre há outras linhas mais rentáveis, mas com suas próprias particularidades e riscos.

Com ou sem garantias –
– Dinheiro guardado no banco (e não em casa) facilita o acesso a linhas de crédito e empréstimos para quando houver um aperto. As instituições, afinal, terão um histórico bancário para facilitar um acordo do tipo. E para quem tem receio de que o banco possa vir a falência com o dinheiro, o sistema financeiro oferece garantias para a situação, a principal delas do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

“Entesoure”! – Até certa medida, é saudável e importante guardar algum dinheiro em casa. Manter um cofrinho com aquele troco da padaria e outras sobras pode, no decorrer de um tempo, formar uma boa reserva para alguma compra ou, quem sabe, até para as férias. Especialistas indicam também que, em alguma quantidade, é importante ter dinheiro ao alcance para emergências como a compra de um remédio, por exemplo, na ausência de cartões de crédito ou de débito.

Falando nisso… – Ano passado, um montenegrino chamou atenção da Receita Federal ao ter declarado no Imposto de Renda R$ 12 milhões em espécie guardados em sua casa. Acabou que foi só um erro de declaração, mas o caso ficou conhecido como “Operação Tio Patinhas”. Personagem da Disney, o Patinhas tinha um cofre enorme com dinheiro em sua própria casa.

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