Alberto Galeno, 30 anos; Wilfredo Jose Lopez Fajardo, 41; e Andy Javier Chacoi, 37. Trio de venezuelanos chegou domingo e ainda está se habituando à cidade. Eles se dizem muito gratos pela chance que estão tendo

Contratação integra a força tarefa logística humanitária para melhor atender os imigrantes

O venezuelano Andy Javier Chacoi, de 37 anos, vive no Brasil há um ano e meio. Estava em Boa Vista, capital de Roraima, até a última semana, em um abrigo para refugiados. Domingo, ele chegou a Montenegro, com outros quinze conterrâneos e a perspectiva de uma nova vida com a qual vem sonhando há bem mais tempo. “Eu sou muito grato à JBS, que nos deu a oportunidade de trabalhar em uma empresa”, resume. Uma das principais organizações da cidade, a JBS está recebendo, ao todo, 500 trabalhadores venezuelanos para atuar em algumas de suas unidades pelo País.

A iniciativa integra a “Operação Acolhida”, uma força tarefa logística humanitária liderada pelas Forças Arma das, composta por agências da ONU, órgãos federais e organizações da sociedade civil. Visa dar atendimento aos imigrantes e refugiados da Venezuela que ingressaram no Brasil pela fronteira com Roraima. Isso, fazendo controle, dando acolhimento e, na etapa que está envolvendo participação da JBS, promovendo a interiorização para outras partes do País com inclusão socioeconômica.

O frigorífico de Montenegro está entre os que receberão o grupo. Serão 120 trabalhadores, alguns acompanhados de suas famílias, que virão pra cá. Estimativa obtida pela Prefeitura prevê a chegada, com os familiares, de 400 venezuelanos que construirão suas vidas no Município. Parte chegou no domingo, como Andy, mas o grupo deve ficar completo apenas no fim de julho. Virão mais 44 ainda neste mês; e mais 60 no próximo.

CORRENTE DO BEM
“A companhia oferece rá capacitação profissional para o ingresso nas unidades como operadores de produção e, durante os primeiros 30 dias, oferecerá, com apoio de ONGs locais, assistência para acomodação e alimentação para os novos funcionários e suas famílias”, informou a JBS. Por aqui, o apoio aos dezesseis que já chegaram vem sendo oferecido pelo Rotary Clube Montenegro.

“O Rotary é internacional e possui cadeira na ONU. O clube de serviço de Montenegro foi contatado pelo RH da JBS para, dentro do trabalho humanitário, fazermos uma campanha para arrecadar agasalhos, móveis, roupas de cama e mesa, utensílios de cozinha, cobertores e agasalho infantil”, explica Beatriz Disconzi, presidente da entidade. “Nosso grande parceiro, Supermercado Imec e Desco, e a comunidade montenegrina estão atendendo e se unindo ao nosso trabalho.” De acordo com agências da ONU, o número de venezuelanos que deixaram seu país natal, com dificuldades, ultrapassa 4 milhões de pessoas.

O Brasil é um dos destinos principais. A entidade destaca que o fluxo se intensificou em 2017, em meio a forte crise econômica e política que se instaurou na Venezuela. Muitos deixaram suas vidas para escapar da violência, da insegurança e da falta de alimentos, remédios e itens essenciais. Vieram em busca de oportunidades e melhores condições. “A vida era muito dura, muito dura”, lembra Andy. “Nós não tínhamos o que comer mais. E não é nada fácil vir para outro País, deixar toda uma vida lá, mas nós temos que nos adaptar para que a nossa vida siga”, pontua.

“INTERIORIZADOS”
O programa de interiorização, que está trazendo as famílias para Montenegro, já empregadas, prevê descentralizar parte voluntária dos imigrantes de Roraima para o resto do País. “Na estratégia coordenada pelo Governo Federal, apenas os migrantes e refugiados venezuelanos regularizados no Brasil, imunizados, avaliados clinicamente e com termo de voluntariedade assinado podem participar das ações”, explica a direção do programa. Desde o início do projeto, em 2018, até março deste ano, mais de 50 mil pessoas foram “interiorizadas” para mais de 670 cidades brasileiras.

Por aqui, enquanto buscam lugar para morar de forma mais fixa, o grupo está vivendo temporariamente num hotel, custeado pela JBS. Em nota, o Ministério da Cidadania, que também integra a estratégia, com os processos de aprovação de transferência entre estados, informou que o grupo seguirá recebendo apoio social por até três meses. Pontuou que, mesmo dentro do programa, a contratação é convencional, com prazo indeterminado. “A permanência da pessoa no emprego vai depender da sua performance no trabalho”, traz.

Também parte das ações, em Boa Vista, 14 abrigos acolhem milhares de refugiados migrantes da Venezuela. Interiorização “desafoga” o sistema

Governo Municipal se diz “preocupado”
Nessa semana, o Governo Zanatta divulgou nota se dizendo “preocupado” com a chegada dos Venezuelanos. A publicação, feita nas redes sociais, provocou criticas de que a Administração estaria sendo preconceituosa e colocando a comunidade contra os imigrantes. “O prefeito Gustavo Zanatta determinou à Secretaria Municipal de Habitação, Desenvolvimento Social e Cidadania o acompanhamento permanente do caso. Ele lembra que a Prefeitura não pode impedir as empresas de contratarem imigrantes e que isso já ocorreu antes, com haitianos e senegaleses. Por outro lado, observa que o Município deve receber uma compensação para garantir a eles a estrutura mínima de Saúde e Educação, a que têm direito como qualquer outro brasileiro”, traz o material.

De acordo com Otávio Friedrich, internacionalista e pós-graduando em Relações Internacionais Contemporâneas pela Ufrgs, a manifestação causou preocupação. Ele explica que não há necessidade de consulta ou de auxílio aos municípios pela vinda de imigrantes; e que o posicionamento demonstra desconhecimento da legislação nacional e internacional sobre migração. O acadêmico aponta o sucesso do programa de interiorização, que segundo resultados divulgados pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), tem sido efetivo para garantia de emprego, renda e educação às famílias.

Para Friedrich, o governo municipal “desconhece ou ignora a sua própria história e a de sua população, construída pelas mãos de migrantes portugueses, espanhóis, escravos africanos, alemães e italianos, que têm, todos, em diferentes posições sociais e históricas, a oportunidade de (re)construírem suas vidas em solo brasileiro. É nossa obrigação proporcionar a mesma oportunidade a nossos irmãos latino-americanos.”

Estratégia
Ao Ibiá, a equipe da secretaria da Prefeitura argumentou que o teor da publicação não foi preconceituoso; e que a preocupação citada se refere a buscar detalhes sobre a chegada do grupo que terá atendimento nas escolas, postos de saúde e, eventualmente, também na rede de assistência social do Município. “Pra nós, como gestão, é importante estar preparado com os serviços que vamos ofertar pros venezuelanos. E a gente precisa pensar em estratégias, também. Eles estão aqui e nós vamos acolher e acompanhar eles no que for necessário”, pontua a diretora de Assistência Social do Município, Carliane Pinheiro. “Estamos montando um comitê, com os serviços do Cras, do Cadastro Único, do Creas, com as assistentes sociais; e vamos dialogar com a empresa e com a ONU. Será um trabalho conjunto que vai dar apoio a essas famílias que estão chegando.”

Na avaliação do secretário de Habitação, Luís Fernando Ferreira, houve, sim, falha de o Município não ter sido avisado com antecedência das tratativas para que houvesse melhor preparo. O comunicado do recebimento das famílias foi dado em 15 de junho; e uma nova reunião deve ocorrer na próxima semana para que a Administração levante mais detalhes. “A nossa preocupação é, justamente, com a causa social. Hoje, essas pessoas estão trabalhando, empregadas, e fazem parte de um processo natural de contratação da empresa. Mas o que estamos pensando, com o comitê, é em algo preventivo. Daqui a pouco, essas pessoas poderão vir a estar desempregadas, sem roupa, com fome”, coloca.

A compensação, citada por Zanatta, já foi paga a outros municípios que participaram do processo de interiorização e no auxílio às famílias. Segundo o Ministério da Cidadania, a Prefeitura precisa pleitear o auxílio apresentando um diagnóstico de situação, mas só no caso de demanda de imigrantes precisando abrigamento ou se a cidade tiver interesse em receber grupo para promover, a parte da iniciativa da JBS, a sua inclusão socioeconômica. “Nos dois casos, o Ministério da Cidadania avalia a solicitação e, dependendo de disponibilidade orçamentária, pode apoiar a organização de ações socioassistenciais para os imigrantes que se encontrem em situação de vulnerabilidade”, colocou o órgão à reportagem.

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