Com a mudança, governo prevê queda no valor do gás de cozinha ao consumidor

Governo quer liberar nova medida e prevê queda no preço do botijão GLP

Os consumidores de gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha, poderão encher parcialmente o botijão. A informação foi dada pelo diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Décio Odoni, em cerimônia de lançamento do programa Novo Mercado de Gás.
Odoni argumenta que atualmente não é possível comprar um botijão parcialmente cheio, o que equivaleria, ao motorista ser obrigado a encher o tanque do carro. “Isso impacta particularmente as famílias de baixa renda, que chegam ao final do mês sem recursos para comprar um botijão completo”, destaca.

As novas regras para o GLP devem ser discutidas pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) em uma reunião prevista para o final de agosto. “Nós acreditamos que não só a redução do preço do GLP deverá ocorrer em curto e médio prazo, mas também novos processos para esse mercado, que foi citado pelo diretor-geral da Agência Nacional de Petróleo, de a pessoa poder fracionar, encher o botijão de gás com aquilo que lhe é conveniente”, disse o ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque.

Além do fracionamento do gás de cozinha, o governo quer permitir o enchimento do mesmo botijão por diferentes marcas, o que é proibido hoje. “Mesmo em condições seguras, não é permitido o engarrafamento de botijões de uma marca distinta da estampada no vasilhame. A troca dos botijões entre as distribuidoras gera custos adicionais de logística”, revelou Odoni.

Outra mudança pode ser a opção de o consumidor levar o botijão de gás vazio diretamente para locais de enchimento, sem precisar devolver o vasilhame e pagar pelo volume residual que permanece no recipiente ao final do uso.

Nas revendas de gás, medida gera questionamentos de valor e segurança
Nas revendas, há muitas dúvidas. O sócio gerente da Liquigás Montenegrina, João Carlos de Brito, teme que implementação gere confusão. “Não sei se vai dar muito certo. A gente sempre quer que funcione, mas não sei. Como vai ser isso de valor? Vamos buscar, por exemplo, dez botijões para colocar apenas R$ 10,00 em cada? Quanto aos botijões sem marca que eles querem deixar, antigamente tinha isso e ninguém fazia manutenção. Não pode provar de quem que é aquele gás se tem algo de errado”, opina.

O gerente explica que seu maior medo é o mercado ilegal no ramo. “Com essa medida querem abrir o mercado, mas já tem encrencas nos mercados que são ilegais. O nosso medo mesmo é essa situação se agravar”, pontua ele.

Já Kaue Vargas, gerente da empresa Kary Gás, comenta que não pode mensurar o tamanho do impacto financeiro por uma questão de mercado, já que a ideia ainda é inicial. Em sua visão, em termos de estrutura, o “abastecimento” do gás nos botijões é muito complexo, e a manutenção é essencial.
“Os botijões de gás passam por manutenções de qualidade do produto e a limpeza por dentro deles é muito delicada, assim como o enchimento dos botijões. Como é um processo complexo, se não tiver o devido cuidado pode colocar em risco a segurança dos clientes”, salienta o gerente.

Donas de casa têm dúvidas sobre a nova medida
“Mais barato sim, mas e a segurança?” Apesar de achar uma boa ideia analisando pelo lado financeiro, Roseméri Matana de Almeida, 50, não concorda com a medida que pode ser tomada e destaca vários problemas que podem vir a ocorrer se a venda fracionada for permitida.

“Pelo dinheiro até valeria a pena, só que as pessoas que não têm como levar o botijão até o local (para encher). Vão ter um profissional pra ir até em casa realizar esse tipo de recarga? Porque se acaba o gás enquanto tá fazendo alguma comida, por exemplo, quem não tem o dinheiro de um botijão completo vai ter que se deslocar até a revenda pra obter o parcial?”, analisa.

Com medida implementada, consumidores do gás de cozinha poderão encher parcialmente o botijão, sem serem obrigados a comprá-lo cheio, como ocorre hoje em dia

Outra preocupação de Roseméri é a dúvida quanto ao valor que será “recarregado” no botijão e resíduos que podem trazer riscos. “Como a gente vai ter certeza que tem R$ 15,00 ou R$ 40,00 de gás? Outra coisa, o botijão vai estar realmente vazio e sem resíduos? Eu não acho legal”, opina.

Raquel Pauline Martins Scheid, 44, concorda com Resiméri nas questões, inclusive nas dúvidas. “Seria bom para as pessoas que não têm condições financeiras de pagar um gás cheio. No entanto, mais complicado ter que ir à revenda para fazer a recarga”, salienta ela.

Raquel afirma que não compraria dessa maneira por questões de segurança e que não acredita que o preço irá diminuir. “Acho mais prático e seguro comprar o botijão cheio e lacrado, mesmo sabendo que até assim pode haver fraudes. Não acredito que vai baixar, mas talvez otimize a busca pelo menor preço”, sugere.

Raquel se preocupa também com a recarga dos botijões e funcionamento das revendas. “Sempre permaneceria a dúvida se é medido por peso ou milímetros cúbicos, como nos postos de gasolina. Além disso, os depósitos teriam que se ajustar para conseguir atender a demanda”, finaliza.

Segundo o governo, medidas podem derrubar preço em até 40%
A Petrobras detém o controle tanto da produção e distribuição do gás natural no país, apesar deste monopólio ter sido quebrado na legislação em 1997. O objetivo do governo com essa nova política é concretizar a abertura para novas empresas. “É uma quebra de dois monopólios, basicamente. O monopólio de produção e exploração de gás natural, como recurso básico, e também dos monopólios estaduais na distribuição”, salientou o ministro da Economia, Paulo Guedes.

“Tem gente muito boa que estima em até 40% em dois anos a queda do preço do gás natural no Brasil. Nós temos certeza que o preço vai cair, porque nós vamos aumentar brutalmente a oferta, com um choque de investimentos no setor. Então, que o preço vai cair, vai, agora se vai cair 20%, 30%, 40% ou mais, não sabemos”, explica.

Segundo o ministro, o alto custo tem um forte impacto na indústria. No caso particular do gás, o que se viu foi a configuração de um mercado concentrado, tanto na oferta quanto na comercialização, resultando no elevado preço. “Isso afeta diretamente os custos das empresas nacionais frente aos seus competidores estrangeiros. Vale salientar que o gás natural impacta de forma significativa o segmento industrial, representando, em alguns casos, até 50% dos custos de produção”, conclui. Porém, o processo de desconcentração do mercado de gás ainda deve levar alguns anos para ocorrer.

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