Como a resposta do público foi interessante, 350 pessoas, organizadores pensam numa segunda edição do festival Foto: Agência Conecta/Divulgação

Marcos Piangers destaca que a capacidade de pensar será essencial para sobreviver no mercado de trabalho

Chuvosa e fria, a última sexta-feira, 18, ficou marcada também por um amplo debate acerca do que vem pela frente, seja para as empresas, seja para os profissionais. Foi no 1º Festival de Marketing, Comunicação e Vendas do Vale do Caí, que praticamente lotou Clube Riograndense com 350 participantes — jovens em sua maioria —, atingiu seus objetivos, diz Janice da Silva Cezar, integrante da QRTrês Produções e Eventos, responsável pela organização.

Segundo ela, a resposta do público foi muito boa, apesar de não haver uma cultura consolidada de ciclos de palestras no Vale do Caí. “Foi uma experência bem gratificante, por isso já estamos pensando em uma segunda edição do festival”, anuncia.

Os conteúdos, de uma maneira geral, somaram à bagagem dos espectadores, mas a principal explanação foi do jornalista, comunicador e especialista em inovação Marcos Piangers. Antes de o ex-integrante do programa Pretinho Básico da rádio Atlântida subir ao palco, ele concedeu uma entrevista exclusiva ao Jornal Ibiá. Acompanhe a seguir:

 

As transformações que o mundo experimenta, cada vez mais intensas e cada vez mais rápidas, nos deixam em dúvida quanto ao futuro. Muitas certezas viram pó de um instante para outro. Diante deste contexto, como você avalia que a tecnologia impacta nas relações pessoais e onde você imagina que iremos parar?

São enormes as transformações porque a tecnologia impacta fortemente nas relações e no comportamento humano. Quando a escrita foi inventada, ela trouxe uma ruptura brutal em nossa noção humana. Imagine que a partir daí não se precisou mais estar em um local para transmitir conhecimento. A escrita permitiu o rompimento da noção de espaço e da noção de tempo. Você pode morrer e seu conhecimento permanecer por dois mil, três mil anos. Isso possibilitou a capacidade de comunicação mundial, o começo das religiões monoteístas… então se vê que aconteceram diversas revoluções a partir da escrita.

… as mudanças sempre acompanham o homem ao longo da história. É neste sentido?
Certamente, porque depois, por exemplo, veio o século do carro, a possibilidade de se nós percorrermos grandes distâncias sozinhos. Os transportes foram revolucionados. E aí uma série de outras indústrias se criam em cima disso: turismo, lanches rápidos, estradas e por aí vai. A tecnologia impacta na forma como a gente enxerga a vida, o mundo, as relações… aí vêm o celular e a internet para quebrar todas as nossas noções de grupo, de afinidade, de amizade. Vem um Tinder da vida, as redes sociais e nos abrem muitas possibilidades de relacionamento.

E os relacionamentos hoje, como você os vê?
Aquela ideia que se tinha de ‘ah, vou me relacionar com a pessoa que tem mais ou menos a minha idade e mora na minha cidade’, não tem mais isso. Quebrou-se a noção de ‘ah, vou trabalhar na minha cidade, na empresa que meu pai fez’. Não tem mais isso. Você pode morar em Nova York, amanhã você vai para a Austrália e depois faz um estágio em Londres. O mundo ficou completamente quebrado. Todas as noções que a gente tinha foram impactadas pela tecnologia. E aí obviamente o uso de celular, de tantas telas, nos deixa mais cínicos, mais agressivos. A gente fala em redes sociais coisas que não falaria ao vivo. A gente fica viciado nesta tela porque tem tanta coisa nova, informação e coisas interessantes, que a gente para de se relacionar, inclusive socialmente com as pessoas que a gente gosta. Consequentemente, a gente fica mais deprimido, toma mais remédio; somos a geração que mais se suicida na história.

Janice Cezar, Marcos Piangers e Diovani Machado . Foto: Agência Conecta/Divulgação

São as consequências da tecnologia…
Claro, mas em função do excesso. Sempre digo que a tecnologia é imparável. Não adianta tentar segurá-la, porque ela vai seguir evoluindo. Mas você não precisa usá-la o tempo todo. Carro, você tem que usar o tempo todo? Não. Pode caminhar, pode andar de bicicleta, que é até mais saudável para você e a sociedade, porque polui menos, mata menos, tem menos acidente. Podemos fazer essa opção, mas que bom que a tecnologia andou, que existe carro e avião, porque quando precisar, você vai correr para ela. Não sou contra a tecnologia. Só sou a favor de refletir mais sobre como a gente usa a tecnologia.

Fala-se tanto em inovação que até virou clichê, mas qual seria a orientação, principalmente para os mais jovens, para seguirem essa tendência?
A gente olha para a mudança digital que aconteceu e fica impactado por ela ter acontecido durante o nosso tempo de vida. Mas essa gurizada, quando nasceu, já tinha celular, tinha Ipad, internet, então é tudo natural. Minhas filhas olham para isso e dizem ‘óbvio que o mundo sempre foi assim’, mas não foi. A gente [refere-se a ele e o repórter] ainda viu essa transição, mas existe uma diferença muito grande entre a gente olhar para esse público [do festival] e ver um gestor e ver a gurizada. A gurizada vai estar comprometida com trabalhos que tenham um propósito, uma missão, um impacto social, que tenham uma ideia de aprendizado, de autonomia. Essa força de trabalho nova tem vontade de ser autônoma, cara. De poder trabalhar nos horários que achar melhor, nos dias e nas distâncias que achar melhor. Para que ir para a escola? Para que ir para a empresa? Por que chegar às 9h se eu produzo melhor de tarde? Por que tenho que visitar o cliente se posso vender por telefone?

… o jovem está ainda mais contestador, você acha?
Então há uma série de questionamentos quanto às ineficiências do mundo analógico que essa geração digital apresenta. O cara que é um gestor mais antigão fica impactado. A grande dica para a inovação é, primeiro, a noção de que tudo está mudando, que o comportamento geracional está mudando, que o comportamento do consumidor está mudando. Está mudando completamente a forma de a gente consumir publicidade e a nossa relação com as marcas. Então, tem que investir, de verdade, tempo, dinheiro, recursos, atenção, numa área de inovação, uma área que vai pensar o futuro do seu negócio. Sabe o que vai acontecer no futuro? Toda a classe de trabalho que pode ser automatizada, será automatizada. Todos os processos terão cada vez mais algoritmos, robôs, inteligência artificial, e aí vai sobrar gente no mercado. Essas pessoas terão que ser muito criativas para inventar o seu emprego ou ser o diferencial de uma empresa, criando inovação, porque a máquina, o algoritmo, não vai criar inovação. Essa outra classe, que em teoria vai estar desempregada, precisa ser muito criativa, treinar muito a imaginação, treinar muito a capacidade de inovar, de pensar novas soluções. Se essa geração está mudando rápido, a próxima vai mudar mais rápido ainda. Qualquer empresa que queira sobreviver, vai ter que investir tempo, dinheiro e atenção numa área focada nisso.

Mas como fica a criatividade e a inovação em meio a essa robotização dos humanos?
Durante a minha palestra, falo sobre a tecnologia e a forma como ela transforma a nossa vida, mas principalmente destaco a importância de, diante disto tudo, nos mantermos humanos. Quanto mais a gente usa a tecnologia, mais a gente parece robô. Mais a gente faz as mesmas coisas todos os dias. Isso nos tira um pouco a capacidade de imaginar, a nossa capacidade criativa. E se a gente perde isso, a gente perde o nosso principal diferencial com relação às máquinas, que é a criação. O foco, portanto, é cuidarmos para não perder nunca isto de vista.

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