Morgana, música, uergs, deficiência, visual, sonho
Morgana e seu fiel companheiro da vida, o pai, Seniro José Kremer

Morgana Kremer, deficiente visual, formou-se recentemente pela Uergs no curso de Licenciatura em Música

Nada é motivo para desistir quando a meta é vencer na vida. Essa é a linha de pensamento que impulsiona Morgana Kremer, 22 anos, frente aos obstáculos que têm enfrentado desde que veio ao mundo. A jovem nasceu com uma doença congênita que a deixou com percepção visual baixa. “Enxergo vultos e melhor em ambientes com bastante luminosidade”, afirma.

A dificuldade de enxergar nitidamente, porém, nunca foi motivo suficiente para impedi-la de realizar seus sonhos de criança e se formar em Música.

Ela foi integrante da última turma de formandos da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), em fevereiro. O curso, que normalmente tem duração de quatro anos, levou quatro anos e meio para ser concluído pela jovem. Isso porque ela perdeu o prazo de inscrição do Sistema de Seleção Unificado (Sisu) em 2012. Como as chamadas do sistema ainda não eram amplamente divulgadas na televisão, e o sinal de internet em Pareci Velho, interior de São Sebastião do Caí, não era bom, o sonho teve que ser adiado por um semestre. Mas nunca chegou a ser um problema. “Há sempre uma solução”, afirma, confiante.

Morgana resolveu prestar vestibular para uma universidade de São Leopoldo, foi aprovada e iniciou os estudos lá. Depois solicitou transferência para a instituição em Montenegro e começou o curso de habilitação em Música-Licenciatura.

Quando estudava em São Leopoldo, pela falta de transporte coletivo que fizesse o deslocamento até a cidade, o pai, Seniro José Kremer, 62 anos, sempre muito dedicado, levava a filha e ficava esperando durante quatro horas até o término da aula.

Hoje, ela protesta um pouco sobre a falta de autonomia para deslocamento de um local ao outro, mas ele não se importa em ser acompanhante da filha. Nunca.

“Preocupação existe sempre. A gente sempre pensa no futuro dos filhos. Para ela se locomover sozinha para trabalhar, por exemplo, acho que ainda não está na hora. Tem que descer na rodoviária e caminhar. Tudo isso sozinha. Muitas vezes não tem movimento de pessoas que podem auxiliar e prestar informações. Então estamos pensando em comprar um imóvel na cidade para ela não depender de transporte e poder se virar sozinha, mas tudo requer planejamento”, diz Seniro. Força de vontade, persistência e apoio familiar são tão importantes quanto as oportunidades.

Você consegue enxergar todos os seus próximos passos. Isso no sentido literal. Você sabe quando há o risco de pisar em falso e desvia de obstáculos dispostos pelas ruas sem muita dificuldade.

Mas essa história não é sobre a maioria das pessoas, que também possuem essa capacidade. É sobre a superação diária de quem não pode contar com tais privilégios.

Buscar soluções e adaptações é uma realidade social para pessoas com deficiência. Morgana tem uma patologia visual, mas não deixa de fazer nada por conta disso, apesar de estar em constante enfretamento com um modelo de sociedade que prioriza pessoas sem limitações. Esse modelo enxerga, fala e é ouvinte, e locomove-se com todos os membros. “A sociedade é construída de uma maneira excludente. Normalmente são os deficientes que devem se adaptar. Porém, o correto é que a sociedade se adapte às necessidades de todos os indivíduos que a compõe”, destaca.

Ela afirma que outra batalha travada diariamente, além das superações, é ter que lidar com o preconceito. Apesar da formação em Música, ainda não teve a oportunidade de atuar na área para a qual se preparou por quatro anos e meio. “Preconceito existe, e muitas vezes disfarçado sobre o pretexto de desafio. Muitas instituições de ensino e empresas, por exemplo, afirmam não terem materiais adaptados para acolher pessoas com limitações. Dizem que não estão preparados para o desafio.”

A relação com a música
A relação forte com a música, termo adotado pela própria Morgana, vem desde muito pequena. O ambiente familiar em que cresceu, com a mãe, pai e dois irmãos mais velhos, sempre foi musical. “Tinha um bar próximo à nossa casa que sempre tinha música”, relembra. A proximidade com a Fundarte, onde fez aula de piano, trouxe a afinidade e a paixão pela arte ainda mais à tona. “Fiz um teste de habilidades específicas, e como já tinha intimidade com a música, passei o processo sem grandes dificuldades”, recorda.

Desde que iniciou os estudos, ela afirma que precisou adaptar-se em alguns aspectos à faculdade, mas, em outros tantos, a Uergs não ficou para trás e adequou-se também. “O material e metodologia tiveram algumas alterações. Leitura ampliada ou com auxílio de uma luminária também. Algum conteúdo era disponibilizado antes das aulas para que eu pudesse ler, porque assim como os colegas, eu não teria a mesma facilidade em acompanhar a letra de uma música em tempo real”, destaca.

Atualmente, ela participa de um grupo de pesquisa na própria Uergs e já pensa em seu mestrado. “A ênfase de interesse é educação musical para deficientes visuais, que, inclusive, foi a minha tese de conclusão da graduação”, destaca.

A jovem iniciou recentemente as aulas de violoncelo, auxilia no coral Saber viver tocando piano, participa do grupo de canto adulto e em abril iniciará um curso de arranjo na Fundarte. “E ela também se formou há pouco no Inglês pelo Senac”, conta o pai.

A sociedade é visual
Você consegue enxergar todos os seus próximos passos. Isso no sentido literal. Você sabe quando há o risco de pisar em falso e desvia de obstáculos dispostos pelas ruas sem muita dificuldade.

Mas essa história não é sobre a maioria das pessoas, que também possuem essa capacidade. É sobre a superação diária de quem não pode contar com tais privilégios.

Buscar soluções e adaptações é uma realidade social para pessoas com deficiência. Morgana tem uma patologia visual, mas não deixa de fazer nada por conta disso, apesar de estar em constante enfretamento com um modelo de sociedade que prioriza pessoas sem limitações. Esse modelo enxerga, fala e é ouvinte, e locomove-se com todos os membros. “A sociedade é construída de uma maneira excludente. Normalmente são os deficientes que devem se adaptar. Porém, o correto é que a sociedade se adapte às necessidades de todos os indivíduos que a compõe”, destaca.

Ela afirma que outra batalha travada diariamente, além das superações, é ter que lidar com o preconceito. Apesar da formação em Música, ainda não teve a oportunidade de atuar na área para a qual se preparou por quatro anos e meio. “Preconceito existe, e muitas vezes disfarçado sobre o pretexto de desafio. Muitas instituições de ensino e empresas, por exemplo, afirmam não terem materiais adaptados para acolher pessoas com limitações. Dizem que não estão preparados para o desafio.”

Deixe seu comentário