Vários estabelecimentos já dão lugar a prédios vagos e placas de anúncios de aluguel pelas ruas de Montenegro

Empresários querem minimizar prejuízos após terem queimado sobras para sobreviver ao ano passado

“Eu, de ontem pra hoje, não dormi direito, só chorando. Dói muito. A gente vem peleando. Graças a Deus, tava dando tudo certo. Agora despencou tudo de uma vez”. O relato é do comerciante Aloísio Fabiano Menezes que, nesse fim de semana decretou oficialmente o fim das atividades em sua loja no Centro, após quatro anos. Natural do Ceará, ele vive em Montenegro com a família há quase uma década.

Começou vendendo artigos diversos como ambulante em um carrinho de rua. Com seu suor, cresceu, se estabeleceu. Mas não conseguiu sobreviver à crise econômica gerada pela pandemia. “Pode me virar de cabeça pra baixo hoje e não cai uma moeda do meu bolso”, lamenta. Já sem seu sustento, na segunda-feira, ele conseguiu um bico como servente de pedreiro para ajudar nas contas da casa que agora, em grande parte, dependem do salário mínimo que recebe a esposa como cuidadora e também da filha. “Pensa numa coisa que parece que parte o cara no meio. Eu tô morrendo de vergonha”.

Sintoma das restrições impostas para conter a nova variante do coronavírus e as altas taxas de ocupação hospitalar e óbitos, empreendedores da cidade têm visto como única alternativa dar fim às atividades de suas empresas. Da semana passada pra cá, três anunciaram a decisão em razão da pandemia, segundo apurou a reportagem. Circulam, pelo menos, outros três comunicados de fechamento, dos quais os proprietários não puderam ser contatados ou alegaram outros motivos externos para a decisão.

Dentre os empresários ouvidos pelo Jornal Ibiá, é comum o argumento de que as sobras no orçamento das organizações foram queimadas na tentativa de sobreviver ao fechamento e às restrições de circulação no ano passado. Agora, com a bandeira preta e o pior momento da crise na área da Saúde, esse valor para emergências não existe mais; e os socorros governamentais estão demorando a chegar.

“Chega um ponto em que tu manter aberto acaba só aumentando o tamanho do buraco”, pontua a empresária Soeli Boaventura, dona de rede de lojas de vestuário com sede em Ivoti e que está tendo que diminuir a operação e deixando de atuar em Montenegro de vez. “A loja já vinha há meses apresentando um resultado negativo. Os custos eram muito altos, então decidimos pelo encerramento para reduzir o prejuízo que ela estava causando.” As cinco funcionárias do estabelecimento foram desligadas nessa segunda-feira, 15. “Não tinha o que fazer”, diz a empresária.

Menezes também demitiu. Precisou colocar pra rua as suas duas funcionárias. Em situação semelhante à sua colega de setor, relata que, em 2020, se desdobrou com vendas pelo WhatsApp ou com acesso reduzido a seu estabelecimento. “Eu tentei segurar, mas fui sufocado”, lembra. Mas mais uma vez sem trabalhar e sem conseguir renegociar o aluguel – a despesa é uma das que mais pesa aos empresários no momento atual – o comerciante diz ter ficado sem alternativa. “A mercadoria eu tenho, mas não tenho pra quem vender. Não tem quem compre”, relata, planejando voltar ao comércio ambulante quando a pandemia permitir. “Eu ainda vou vir sorrir muito na Ramiro com o meu carrinho vendendo meus panos de prato, meus tapetes. Se Deus e Nossa Senhora quiser”.

Pequenos empreendimentos são os que mais sentem o impacto da crise econômica

“Socorros” demoram muito
O Ministério da Economia, por mais de uma vez, sinalizou que retomará o programa que permite que empresas suspendam contrato de trabalho com seus funcionários para que estes sigam empregados, mas recebendo auxílio do governo. Seria uma forma de desafogar as empresas que, sem funcionar ou com movimento reduzido, não conseguem pagar seus colaboradores. Mas ainda falta o programa ser liberado. Da mesma forma, foi promulgada na segunda-feira a PEC que viabiliza a retomada dos pagamentos do auxílio emergencial, ainda que com valor reduzido, que deve ficar entre R$ 175,00 e R$ 375,00. Também, ainda não foi efetivado.

A nível estadual, o único socorro dado aos empreendedores foi a prorrogação dos vencimentos do ICMS, o imposto sobre a circulação de mercadorias. Já no Município, destaca o secretário municipal de Indústria e Comércio, Waldir Kleber, houve a prorrogação da cota única do IPTU e também do vencimento do imposto sobre serviços que é cobrado dos profissionais liberais, mas que ainda depende de aval da Câmara.

No Gabinete de Crise de Montenegro no combate à pandemia, Kleber é presidente do comitê que trata da área econômica. “Como as determinações sobre Distanciamento Social são do Governo Estadual, sem cogestão, pouco pode ser feito a nível municipal. Foi sugerido ainda apoiar a vacinação em massa e a distribuição de medicamentos do tratamento precoce para quem quiser usar”, disse. “Teremos nova reunião assim que for superada a fase de bandeira preta.”

No ano passado, durante período de flexibilizações e baixa de novos casos de Covid, a Prefeitura chegou a lançar um Plano de Retomada Econômica de Montenegro. O principal atrativo era o subsídio de 90% para consultoria do Sebrae onde era feito um diagnóstico de negócio das empresas interessadas para resolver problemas em áreas como custo, estoque, inadimplência e atendimento. Segundo o técnico regional da entidade no Vale do Caí, Leonardo da Conceição, a oferta existiu até o fim do ano passado. “Atualmente, o Sebrae RS está desenvolvendo um novo Programa para as micro e pequenas empresas, tendo em vista o cenário que estamos vivenciando”, adiantou.

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