Na aldeia, crianças de cocar e pintura corporal simbolizam cultura indígena

Aldeia KaiNgang mantém viva a cultura indígena e a busca por seus direitos

19 de abril é o dia dos que tiveram extrema importância na formação do povo brasileiro. Dia deles que perderam muito do que tinham para os colonizadores. Deles que estão na luta para, no futuro, quem sabe, reconquistar apenas um pouco do que lhe foi tomado. Na próxima segunda-feira, 19 de abril, é celebrado o Dia do Índio.

Não se trata de comemoração, mas sim, da manutenção de uma luta por direitos e contra o preconceito. Aqui em Montenegro, a aldeia Kaingang se instalou há quatro anos e, desde então, está na batalha para, além de viver unicamente da venda de seus artesanatos, ter um espaço destinado às famílias da tribo.

Com 21 famílias instaladas e cerca de 70 indígenas contando com as crianças, a aldeia busca preservar a cultura, mesmo com tantas dificuldades impostas. Antes da pandemia, integrantes da tribo costumavam se apresentar em escolas e também espaços públicos, a fim de ressaltar suas danças, trajes, língua e costumes. Contudo, neste ano, não foi possível que esse povo realizasse suas tradicionais apresentações. Foi pensando nisso que os indígenas resolveram realizar uma tarde inteira de interação lá mesmo, na aldeia, no último dia 13. Com danças, trajes, comidas típicas e discursos, a aldeia inteira parou para avisar a comunidade: sua cultura vive e vai ser preservada!

Brincadeira na natureza é distração das crianças

Estudo e preconceito andam lado a lado
O professor Dorvalino Cardoso foi responsável por uma palestra na atividade dos indígenas. Formado em educação indígena, ele explica a dificuldade que sente em dar aulas na língua portuguesa e que ensina em Kaingang para mostrar que existem diferentes povos que querem e precisam de estudo. “Eu tenho muita dificuldade em alfabetizar em português. Temos que levar em consideração as crianças que falam outras línguas. Segundo algumas pesquisas, no Brasil existem 248 povos com línguas diferentes”, ressalta.

Na cultura dos Kaingang, a primeira língua que as crianças aprendem é a da aldeia. Isso se repete com as crenças e costumes. O Cacique Eliseu Claudino exemplifica, dizendo que, quando crianças, aprendem a confecção de cestos, o artesanato, a busca por alimento. Tudo isso com ajuda do professor da aldeia. Quando maiores, muitas vezes vão para escolas municipais nas cidades em que se alojam e é aí que comea o preconceito. Milvania da Rosa Claudino, filha de 18 anos do Cacique, estuda no colégio AJ Renner há cerca de três anos. “Muda bastante e tudo. O ensinamento, os colegas. Minha filha recebeu muito preconceito, muitas vezes a ouvi dizer que não queria mais”, relembra o pai.

Na aldeia, os ensinamentos da cultura como busca e preparo de alimentos são passados aos mais novos desde cedo

Eliseu conta que como o ambiente muda completamente, o pensamento de desistência era frequente. A tecnologia é um dos motivos. “Algumas colegas ajudaram ela porque muitas delas faziam as atividades tudo no celular e ela não tem. Eu não tenho condições de dar pra ela”, afirma. Agora, durante a pandemia, o Cacique conta que a escola mesmo se responsabiliza de levar as atividades até a menina. De qualquer maneira, Milvania não desistiu e nem pretende. Eliseu projeta que assim que as aulas presenciais voltarem, os mais jovens da aldeia também queiram seguir o caminho dos estudos. “Se uma pessoa quer emprego, tem que ter estudo”, pontua o Cacique.

“Para relembrar e preservar nossa cultura que existiu aqui”
Darci Nascimento, 57, um dos indígenas da aldeia, explica que sua cultura não pode ser esquecida e que as crianças são fundamentais neste processo. “A cultura que o meu pai e meu avô me ensinaram eu também quero ensinar. A cultura de antigamente. As crianças querem aprender. A nossa cultura parece escondida. Não vamos deixar morrer, igual nossos avós fizeram. Como os brancos ensinam os filhos, a gente também quer comparecer com a nossa cultura”, afirma. Mas, em contraponto, Darci conta que tem sido mais difícil do que antigamente manter a cultura original. “Nossos avós levavam a gente no mato, pegar alimento, frutas. Faziam coisas na natureza. Aqui a gente não tem muito mato perto. A gente quer levar as crianças no mato e fazer isso”, relata.

O Cacique relembra tempos passados e a importância do entendimento de que os índios não chegaram em Montenegro de repente. “Não caímos de paraquedas aqui. Nossos antepassados passavam aqui. Por isso chegamos. Para relembrar e preservar nossa cultura que existiu aqui”, pontua. Eliseu salienta que para ele, os jovens de fora da aldeia “acham que não existe mais índio” e que isso não pode mais ocorrer.

Já Darci Sales, 55, comenta sobre o contato das crianças da aldeia com as de fora, na escola, por exemplo, e a diferença notada após. “Eles vêm diferentes pra aldeia. Eles se acostumam com coisas de fora daqui. Costumes e até alimentos. Meu filho não conhecia refrigerante que agora a gente toma às vezes meio-dia. Agora, conhece tanto que se não tem, ele chora, ele quer”, lembra. Eliseu ainda relembra que desde que chegaram a Montenegro, muita coisa mudou. “As nossas crianças andavam por aqui peladas, somos índios. Só que recebemos muito preconceito e por isso que agora usamos essas roupas aqui”, ressalta. Esse ponto interfere diretamente no processo da preservação da cultura indígena e justamente por isso, os adultos da aldeia prezam pelos ensinamentos próprios.

“Ninguém reconhece os nossos direitos”

Dorvalino Cardoso explica que a luta dos índios pelos seus direitos é, e infelizmente precisa ser, constante. Ele sabe que as perdas são incalculáveis. “Lutamos pelos nossos direitos porque já perdemos bastante com a colonização que é um processo tão triste”, lamenta. Ele conta que além da tarefa que educar, ainda há o entrave de ter que ensinar as crianças indígenas a conquistar seus direitos legais. “Eu tenho que ensinar isso muitas vezes com conflitos. O meu trabalho é descolonizar e esta luta tem muita dificuldade. Descolonizar o que está colonizado não é aceito e nem fácil”, desabafa.

O professor também lembra que o desenvolvimento do mundo ocorre dia a dia e que, muitas das vezes, os indígenas não conseguem acompanhar. Outro ponto a ser discutido ainda é a legislação atual. “Ela sempre está em confronto com a nossa realidade. Ninguém reconhece os nossos direitos”, afirma. O ponto principal para o povo é claro para Dorvalino: o resgate do que os pertencia. “Ninguém está devolvendo o que a gente perdeu, a gente está reconquistando o que ainda dá, não ganhando de volta. Estamos revitalizando. Muitas coisas não vamos conseguir pegar de volta, mas o que resta, vamos aproveitar”, finaliza.

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