O novo livro “História das casas: Um resgate histórico dos jesuítas no sul do Brasil” será lançado neste sábado

Como parte da programação de aniversário do município, será lançado no sábado (5) o 16º volume da série “História das casas: Um resgate histórico dos jesuítas no sul do Brasil”, que é focado em Montenegro. O evento ocorre às 14h30 na Estação da Cultura e contará com um bate-papo com o autor da coleção: o padre Inácio Spohr.

O volume resgata os primeiros anos de colonização do município e do Vale do Caí, em meados do século 19, enfatizando a importância dos missionários jesuítas no progresso da cidade. Publicadas pela Editora Padre Reus, as 110 páginas da obra usam a Paróquia São João Batista como pano de fundo para narrar acontecimentos marcantes da história da região em uma época em que Montenegro ainda era chamado de “Freguesia de São João do Monte Negro”.

“Trata-se do período jesuítico. Isto é, de 1871 a 1895”, explica o autor. O padre conta que, para constituir a obra, debruçou-se sobre diários, cartas e relatórios da época que foram escritos pelos jesuítas que trabalhavam na paróquia. Os documentos existem em um arquivo provincial junto ao Colégio Anchieta, em Porto Alegre. Muitos estão escritos em alemão ou latim. “É a partir deste material que eu elaborei as crônicas, data por data, sem a pretensão de fazer uma análise ou uma crítica. Trata-se de fazer a ‘fotografia’ de um acontecimento”.

Ao longo da obra, é evidenciada a relação dos padres e irmãos jesuítas na comunidade da época, em um trabalho que ia além do âmbito religioso, sendo também relacionado com as escolas precárias da região e a falta de médicos e hospitais. É também tratada a dificuldade na relação deles – alemães – com a cultura portuguesa local.

Em um rico contexto histórico de como nasceu o município, a publicação detalha a vida nas colônias e vilas que formaram Montenegro, cercadas de mata virgem, com estradas de difícil acesso e contando com uma agricultura artesanal. Ela traz registros de epidemias de varíola, tifo e gripes – que vitimaram muitas pessoas -, indicações de secas, enchentes, invasão de gafanhotos e alguns incidentes com grupos em meio à Revolução Federalista.

Coleção iniciada em 2014
O livro que foca em Montenegro é o 16º de uma coleção que começou a ser lançada em 2014, em meio às comemorações do bicentenário de restauração da Companhia de Jesus – dos jesuítas. Ao todo, a obra já contempla as cidades gaúchas de São Pedro da Serra, Salvador do Sul, Cerro Largo, Alto Feliz, Tupandi, Novo Hamburgo, Pareci Novo, São José do Hortêncio, Dois Irmãos, São Sebastião do Caí e Ivoti; também Itapiranga, em Santa Cararina.

Trechos da obra

Padre Inácio Spohr, autor. foto: Acervo Pessoal

Autor da coleção, o padre Inácio Spohr adiantou ao Jornal Ibiá algumas passagens de seu livro, que dão um gostinho da obra e demonstram como era a vida dos padres na Freguesia de São João do Monte Negro. Ele frisa, no entanto, que o livro a ser lançado no sábado traz muitos outros apontamentos interessantes.

* Os jesuítas começaram a atender essa localidade em 1867. Ela ficou paróquia em 1871. A freguesia de Montenegro abrangia as comunidades de Maratá, Brochier, Harmonia, Tupandi, Bom Princípio, Poço das Antas, Peixoto… O bispo Dom Sebastião Dias Laranjeira que pediu aos jesuítas para que tomassem a si o cuidado da paróquia, uma vez que havia grande falta de sacerdotes seculares. Estes jesuítas trabalhavam na paróquia de São José do Hortêncio.

Naquela época, de 1848 a 1910, o Estado do Rio Grande do Sul formava uma só diocese, cuja sede ficava na capital, Porto Alegre. Os jesuítas que atenderam a paróquia de Montenegro eram alemães e mal sabiam falar português. Ora, grande parte da população de Montenegro era lusa (portuguesa). Isto causou um sério problema de pastoral. Foi muito difícil aos jesuítas entenderem a religiosidade lusa, tão diferente da alemã. Não é de estranhar que os jesuítas se queixassem da falta de frequência dos paroquianos nas missas e confissões, por exemplo. Na zona rural, onde moravam os alemães, a participação das pessoas nas igrejas era bem maior.

* Devido a isso, os vigários escreveram diversas vezes aos superiores pedindo o envio de sacerdotes que falassem português. A entrega da paróquia ao clero diocesano (secular, luso) aconteceu em fevereiro de 1895. Antes disso, porém, os jesuítas percorreram a cavalo diversas capelas ou comunidades que, com o tempo, se tornaram paróquias. Os jesuítas foram construindo capelas e igrejas em muitos lugares. O P. Francisco Schleipen foi não somente vigário (pároco), mas também engenheiro (construtor). Ele construiu várias igrejas, casas paroquiais e escolas. A igreja matriz de Montenegro foi uma delas.

* Em Montenegro os sermões eram feitos em duas línguas: alemão e português, o que raramente acontecia em outras paróquias dirigidas pelos jesuítas naquele período. Os vigários deviam fornecer anualmente dados ao bispado, isto é, as obras pias referentes ao número de batismos, crismas, confissões, comunhões, casamentos, sermões, encomendações. Se o número se tornasse muito pequeno, mostrava que algo estava errado. Por isso, os sermões, a catequese, as missões, procuravam instruir o povo na verdadeira fé.

* Em vista da formação cristã, os padres abriram escolas paroquiais. Era preciso construir escolas, ter professores e ter meios de sustento. Tornou-se difícil encontrar professores leigos. Outra dificuldade foi conseguir que os pais enviassem os filhos à escola e que ajudassem a pagar o “salário” para eles. Com relação ao sustento, o governo devia propriamente prover os vigários com  uma côngrua (mensalidade). Mas isto não acontecia. Assim, as comunidades católicas tiveram de contribuir para a alimentação e outras necessidades dos vigários e auxiliares (um padre e um irmão, encarregado da cozinha). Muitas vezes, a falta de alimentos se fez presente na vida cotidiana dos mesmos. Mas o zelo apostólico foi maior que os eventuais obstáculos.

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