Grupo luta por uma rede de políticas públicas que combata o preconceito

Um montenegrino que divulgou, através do Twitter, uma saída de carro, juntamente com mais quatro amigos, com o propósito de arremessar limões em travestis que trabalham à beira da RSC-287. Uma jovem que sofreu ameaça de violência física do padrasto e foi expulsa da casa em que morava por ser homossexual. Recentemente, esses dois casos de LGBTfobia repercutiram em Montenegro. Mas, infelizmente, esses não foram fatos isolados.

Diariamente, questões de gênero e orientação sexual têm sido utilizadas como argumento para agressões e violência. Não é de se espantar que, nesse contexto, o Brasil seja o país que mais mata travestis e transexuais por ano. Segundo dados do Grupo Gay da Bahia (GGB), em 2016 foram 347 casos de homicídios contra a população LGBT notificados. É onde também há 13 casos de feminicídio (assassinato de mulheres) por dia, de acordo com informações do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Há diversos casos que não são denunciados ou levados a público, o que pode elevar ainda mais os números. E para combater o preconceito e a intolerância, grupos de acolhimento e debates têm cumprido um importante papel social, procurando, através da informação e do conhecimento, criar um mundo respeitoso e includente.

Ezequiel Souza

Em Montenegro, o Coletivo Iris LGBTT tem contribuído efetivamente para essa mudança – também o Vênus Maria. De acordo com Ezequiel Souza, participante e um dos idealizadores do grupo Iris LGBTT, que não possui liderança, sendo horizontal, seu nascimento deu-se através de um grupo no WhatsApp e de uma página no Facebook, isso há mais de um ano.

“O objetivo é instituir um grupo de apoio e de construção de uma rede de atendimento e de políticas. Precisamos instigar o debate, romper o tabu, afirmar que é normal ser diferente. Temos o compromisso de pensar e articular políticas públicas em nosso município que deem conta de combater o preconceito e criar rede de atendimento a vítimas, assim como discutir questões relacionadas à inclusão trans no mercado de trabalho formal e outros temas relevantes”, explica.

A luta do Coletivo LGBTT, de acordo com ele, se assemelha muito com a do Coletivo Vênus Maria, que combate o machismo, o patriarcado, defendendo a autonomia.

“Os atos recentes em Montenegro demonstram a importância deste e outros debates na linha dos direitos humanos. Não dá pra deixar passar uma violência, seja ela física ou psicológica. Isso rompe com inúmeros direitos constitucionais. Mais preocupante ainda é ver a naturalização da violência, pessoas curtindo e compartilhando um ato de humilhação. Nós não vamos tolerar a opressão”, enfatiza.

Encontro será na praça Rui Barbosa neste sábado
Seguindo a proposta de encontros e debates públicos, o Coletivo Iris LGBTT realizará, amanhã, um ato na praça Rui Barbosa. Ezequiel explica que o objetivo é levantar o debate e dialogar com a comunidade, esclarecendo dúvidas e provocando reflexão. O horário é das 9h às 12h.

“É um ato em solidariedade a vítimas de LGBTTfobia e em construção de uma cultura de igualdade. Estaremos na praça apresentando cartazes e cores”, diz.

O convite é extensivo tanto ao evento quanto ao grupo. “Todas e todos podem participar. Eu diria até que devem. Seja pai, mãe ou filho, seja homoafetivo ou não. Estamos dispostos a acolher, orientar, formar através de rodas de conversa, leituras e filmes. Dispostos a resgatar a história e mostrar que a homoafetividade está presente na construção da humanidade e não é algo de agora”, termina.

Monique Almeida

Um espaço de mudanças
Monique Almeida, 26 anos, integrante do Coletivo afirma que sua importância é pela visibilidade aos casos de intolerância e violência, como os que ocorreram recentemente no município. “Com o grupo, torna-se possível encontrar espaço para ajudar e modificar esse pensamento preconceituoso. O movimento pode nos auxiliar a encontrar esses focos e deixar mais claro como podemos agir”, conclui.

Ezequiel declara que já viu muitas pessoas homoafetivas esconderem sua identidade, em decorrência da opressão social, mas que não se trata de uma escolha nem de opção sexual.

“Ninguém escolhe ter que reprimir sentimentos, esconder o amor e o desejo, ou ser vítima de piadas e adjetivos ofensivos. Ninguém é orientado a ser homoafetivo, bem pelo contrário, somos orientados a ser o que o corpo identifica ao nascimento. Mas e quando não há identificação com esse padrão estipulado? Temos uma identidade sexual que nos garante ser livre. Há uma imposição social sobre nosso corpo, nós apenas defendemos a liberdade”.

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