Pomares de citros ainda sentem os castigos da seca no período 2019/2020.

Natureza. Período mais severo da estiagem será entre dezembro e fevereiro

Caso se confirme todos os prognósticos elaborados até aqui, no próximo mês a Região Sul do Brasil ingressa na segunda estiagem severa seguida. O Verão que inicia em 21 de dezembro é antecipado por uma Primavera de chuvas irrisórias, que já afeta substancialmente o desenvolvimento culturas agrícolas como a soja. O meteorologista do Instituto Climatempo João Castro declara que há motivos de preocupação.

A expectativa de meses de ‘chuva escassa’ surgiu em setembro, quando foi confirmada – com dados técnicos – a presença do fenômeno La Niña, que é o resfriamento anormal das águas do Oceano Pacífico na costa do Peru. Isso traz impacto no clima mundial, sobretudo no ciclo de chuvas. No caso do Brasil o efeito é de estiagem, ao menos até o final de fevereiro, nas regiões Sul e Centro-oeste. “Isso nos traz um indicativo bastante importante e forte de que, de fato, teremos um ano de estiagem no Rio Grande do Sul”, declara Castro.

Inclusive, apesar de apontar os efeitos em outros estados brasileiros, o meteorologista salienta que o estado gaúcho, como um todo, deve ser o mais castigado com este regime de chuva irregular. E justamente aquilo que mais será esperado, quando vier, impõe outra característica prejudicial, que é o estresse hídrico. Castro confirma o cenário de temporais com muita chuva concentrada em poucas horas e em regiões restritas. O solo fica encharcado, o que afeta as raízes das plantas, para depois, ao retornar o sol forte e persistente, secar novamente. Mais uma vez, esta é uma das desigualdades que marcam a passagem da ‘La Niña’.

Janeiro terá um quarto da chuva

A projeção para Montenegro dá uma ideia do que está reservado para o Vale do Caí. Segundo João Castro, para todo o mês de janeiro a expectativa é de 45 milímetros (mm) de chuva. “Sendo que a média climatológica normal é de 170 milímetros para janeiro”, informa. Mas a escassez já inicia no próximo mês, com precipitação na ordem de 54 mm, em contraste com a média de 140 mm dos 30 dias que fecham o ano.

O que é totalmente incerto é a forma como esta quantidade de chuva será distribuída ao longo dos dias. “Somente em março existe a expectativa de ‘começar’ uma retomada de chuvas mais próximo do que é a normalidade”, projeta.

Castro já vê dificuldades no cultivo de soja plantada em outubro, que terá período de floração reprodutiva em janeiro, momento em que pede mais água. Segundo ele, em tono de 12 milímetros por dia; sendo que em 31 dias deve chover apenas os 45 mm. “É como se fosse comida. Você vai ter para dar para a soja por apenas quatro dias”, ilustra.

Adaptação frente às mudanças climáticas

Questionados quando à responsabilidade do ser humano, ao promover desmatamento e queimadas, o meteorologista João Castro preferiu não apontar culpados. Ele reforçou que a ‘La Niña’ e o ‘El Niño’ são fenômenos naturais e globais. Mas o técnico comentou os sistemas de plantio ainda usados hoje, como a retirada total de ervas e capim, deixando a terra ‘pelada’.

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Ele explica que sem cobertura vegetal, ainda que seja mato cortado e seco, a terra não é capaz de reter água, especialmente porque evapora com muito mais rapidez. Uma sugestão é alterar lotes plantados, deixando pastagem entre um período de cultivo e outros para que o solo descanse. É este mesmo capim que será cortado e deixado no lugar, para adubar e para servir de “esponja” à umidade. “Este é o plantio direto. Muito usado já na região do Serrado”, explica.

Castro orientou ainda que os agricultores consumam informação qualificada, lembrando que desde abril já se falava desta segunda seca entre 2020 e 2021. E finaliza sugerindo resiliência, pois as mudanças climáticas agora são reais e não serão revertidas em curto prazo. “A melhor estratégia é se adaptar e estar preparado para isso”, defende o meteorologista.

Pomares ainda estão frágeis
O escritório da Emater-Ascar/RS trabalha com o mesmo prognósticos de precipitação abaixo das normais climatológicas, entre dezembro e fevereiro. Ao Ibiá, a engenheira agrônoma Luisa Leupolt Campos afirmou que os agricultores já começaram a observar efeitos, nas lavouras e açudes. “Contudo, perdas ainda não ocorreram e é muito cedo para quantificarmos possíveis quedas de produtividade”, avalia.

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Da mesma forma, nos pomares de citros não há como estimar ainda perdas significativas para a safra de 2020-2021. O fruto ainda está em formação e, com as chuvas dos últimos meses, as plantas conseguiram se recuperar na maioria das propriedades. “O que salientamos é que, dessa vez, devido à estiagem de 2019-2020, o solo e as culturas estão mais frágeis”. Outra preocupação está voltada às reservas de água, que, na sua maioria, ainda não se restabeleceram. E quem consegue irrigar as culturas e reservar água, com certeza tem menores chances de perdas.

Para cultivos anuais, como hortaliças e milho, alguns preferiram antecipar o plantio na tentativa da escassez não prejudicar as plantas nos períodos importantes, como florescimento e enchimento de grãos.

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