Em time, Dione e Danieal cuidam da agroindústria e Célio cultiva a matéria-prima

Diversificar. Empreendedorismo sem se afastar da terra agrega opção de renda

O trabalho no campo, que já havia agregado tecnologia à produção, agora trilha nos caminhos do empreendedorismo. Neste horizonte, a agroindústria talvez seja o nicho mais promissor, ao oferecer às famílias rurais alternativa de renda sem se afastar das origens agrícolas. Alavancadas especialmente pela visão inovadora dos jovens, cresce ao colocar no mercado o sabor da colônia.

Uma agroindústria surge sempre que há necessidade de processar um alimento para comercializar. E isso pode ser feito por qualquer pessoa, desde que cumpra os requisitos do tripé Fiscal/ Ambiental/ Sanitário. Hoje Montenegro tem nove destes empreendimentos, e a Emater segue recebendo contato de agricultores interessados em abrir seu próprio negócio, alcançando inclusive independência na venda de seu produto.

É real afirmar que na linha de frente tem se destacado a ambição dos jovens, que já não pensam mais em deixar a terra. Ao contrário, refletem como torná-la mais lucrativa, e com segurança financeira. A nova geração chega com ideias inovadoras, mas não despreza o conhecimento repassado pelos ‘antigos’.

Talvez Dione Olga Fobricht Kettermann, 50 anos, não seja reconhecida assim. Mas quando se fala Dione do Café da Casa do Produtor, todos sabem de quem se trata, inclusive puxando por uma memória afetiva dos doces e salgados servidos três vezes por semana. Ela é apenas um dos exemplos de empreendedorismo que saiu do rural para o urbano.

A história começa na localidade de Lajeadinho, com a família de seu marido Célio Norberto Kettermann, que hoje está com 54 anos. Dione entra no capítulo do casamento, há 25 anos, quando larga seu trabalho de técnica em química na cidade para morar no interior e viver da agricultura. Os pomares de citros e, especialmente, a lavoura de milho passaram a ser matéria-prima de um trabalho adicional.

“A agroindústria começou com a necessidade de legalizar um trabalho que já fazia há algum tempo”, recorda. Os bolos e salgados já tinham fama nas mesas de eventos e festas pela cidade quando Dione foi convidada pela então administradora Rosecler Oliveira para levar sua gastronomia colonial à Casa do Produtor Rural.

Hoje, a Bolos Dione emprega seis pessoas na agroindústria em Lajeadinho e oito no café. Mas, certamente, a adesão mais promissora ao empreendimento é do filho Daniel Fobricht Kettermann, 17 anos. “Ele trabalha comigo e já tem Talão do Produtor. Meu marido continua na agricultura, e ele mesmo faz a farinha de milho que uso nos meus bolinhos”.

As agroindústrias familiares podem utilizar de linhas de crédito específicas dentro do Pronaf. Fotos: Arquivo Pessoal/ Dione Kettermann


Peaf é o alicerce do pequeno empresário rural

Os empreendedores estão organizados na Associação da Agricultura Familiar de Montenegro, através da qual inclusive fornecem a Merenda Escolar. Em tese, qualquer cidadão, mesmo não sendo agricultor, pode constituir uma agroindústria. Mas o chefe do Escritório da Emater, Everaldo Vinicio da Silva, foca nas agroindústrias familiares, que descreve como um “tipo diferenciado”

Isso por que precisam atender critérios específicos do Peaf (Programa Estadual de Agroindústria Familiar). “Este programa visa beneficiar os agricultores familiares que querem processar o excedente de sua produção para agregar valor na comercialização”, explica. Outro benefício é a legalização da venda de alimentos processados usando o Talão do Produtor.
Suas regras não permitem comprar ingredientes, mas sim investir em uma nova cultura em sua propriedade, que será base para abrir um negócio industrial/comercial.

“O agricultor deve produzir a matéria-prima a ser processada para se enquadrar no Peaf. A agroindústria familiar pode ser pensada tanto para processamento do excedente, quanto para a diversificação de renda”, destaca.

Grande vantagem da Agricultura Familiar é a boa
aceitação que os produtos têm na comunidade


Experiência deve ser considerada antes de investir

Primeiro ponto a ser questionado antes de investir é qual seu nível de intimidade com a matéria-prima e seu processamento. Everaldo usa como exemplo uma família que pretende começar a produzir queijos; que deve se perguntar: há quanto tempo lidam com gado de leite e já tem experiência em fazer queijo?

Desta forma inicia a construção do conceito de viabilidade de projeto. A próxima assistência da Emater é encaminhar esta família a um curso de Processamento de Alimentos, e um de Boas Práticas de Fabricação, que darão noção de operação diária. “Outro curso muito importante é o de Gestão de Agroindústria. Este traz aos agricultores noções mais financeiras”, assinala.
A qualificação reduz em muito os riscos, que são os mesmos da maioria dos investimentos, inclusive na Zona Urbana. A vantagem tranquilizadora é que produtos da Agricultura Familiar têm uma boa aceitação.

“Por isso, uma agroindústria com produtos diferenciados e de qualidade sempre tem seu lugar no mercado”, finaliza.

Qualificação e treinamento

Os Centros de Treinamentos da Emater espalhados pelo Estado oferecem todos os cursos base para abertura de agroindústria. Outra facilidade é que cooperativados do banco Sicredi têm desconto na inscrição (procurar nas agências); assim como agricultor de Montenegro tem abatimento subsidiado nos cursos ministrados no Cetam local (procurar a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural).

Constituição firmada no tripé
Fiscal – enquadramento no Peaf – pelo Talão de Produtor – ou constituição de microempresa individual (MEI);
Ambiental – Consulta ao órgão legal para saber se precisa de Licenciamento Ambiental, o que dependerá do tamanho e do grau poluidor;
Sanitário – Produtos de origem animal seguem regras de diferentes órgãos da federação que irão fiscalizar e autorizar a venda. De origem vegetal (exceto sucos e bebidas) seguem regras estipuladas pela Vigilância Sanitária e/ou Coordenadoria de Saúde.

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