Cidade também registrou ondas de calor atípicas para a época

Emater registrou apenas 45mm de chuva no município. Situação traz consequências para a agricultura e a pecuária

Choveu pouco na cidade em julho. O levantamento do escritório municipal da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado (Emater) indicou que, desde 2005, não se registrava nível de chuvas tão baixo no município para o período. Os 45mm verificados no mês passado são quase insignificantes quando comparados aos 228mm do mesmo período do ano anterior, por exemplo. A média dos últimos dez anos (2006 a 2016) é de 233mm/mês.

Fungo “pinta preta” tem, com o calor, o clima propício para sua proliferação, exigindo a aplicação de fungicida
foto: Agrofit

A Emater alerta para as consequências da seca na pecuária, visto que a falta de água faz reduzir a disponibilidade das pastagens que alimentam os animais. “A restrição hídrica traz esse problema, fazendo com que essas pessoas tenham que recorrer aos alimentos estocados”, explica o técnico agropecuário da Emater Montenegro, Valmir Michels. O alimento estocado (silagem) é o pasto conservado em preparação para períodos em que se espera a baixa do alimento, o que, historicamente, não seria o caso de julho.

Aliado à falta de chuva, o mês também apresentou temperaturas altas. Apesar da massa de ar polar que cobriu o Estado no início da segunda quinzena e trouxe um frio pontual para a cidade, julho foi marcado pelo calor fora de época. Para os agricultores, isso significa proliferação de fungos e custo extra com recursos para salvar a produção. “É importante frisar, nesta situação, que se tenha cuidado ao decidir aplicar fungicidas. O produtor deve atentar para o período de carência que o alimento deve esperar entre a aplicação do produto contra o fungo até que ele esteja apto para ser consumido”, salienta Valmir. Este prazo varia de acordo com o fungicida aplicado.

Um dos fungos mais temidos, principalmente na produção do citros, é o que transmite a chamada pinta preta. O técnico agropecuário alerta que o clima quente é propício para a propagação da doença fúngica que ataca folhas, ramos e frutos cítricos, deixando-os manchados e podendo ocasionar queda prematura, no caso dos frutos. Os citros acabam perdendo valor para a venda in natura, gerando prejuízo ao produtor. Valmir declara, no entanto, que, até o momento, não há registro da ação significativa da pinta preta na região durante o último mês.

Bloqueios atmosféricos são os culpados
O meteorologista Rogério Rezende, da estação porto-alegrense do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), atribui o calor e a falta de chuva à presença de bloqueios atmosféricos formados por um sistema de alta pressão no centro do país. Estes bloqueios impedem os avanços de frentes frias para o sul, impossibilitando a chuva e a queda na temperatura por aqui.

“Esses bloqueios atmosféricos não são fora do comum. Mas eles sofrem, normalmente, nessa época, a influência dos fenômenos ‘El Niño’ e ‘La Niña’, que alteram sua formação. Neste mês de julho, no entanto, estes fenômenos têm apresentado um status de neutralidade, impedindo os avanços das frentes frias”, explica o meteorologista.

O “El Niño” e o “La Niña” são eventos climáticos ocasionados por alterações de temperatura nas águas do Oceano Pacífico, que provocam efeitos em várias partes do mundo. “Como este mês a temperatura daquela região não estava nem mais quente nem mais fria, não houve influência sobre o sistema de alta pressão e os bloqueios atmosféricos”, conclui Rogério.

Calor inesperado traz mudanças nas culturas
Com o clima desse jeito, alguns frutos de verão acabam nascendo no inverno. Foi o que aconteceu na propriedade do aposentado Dirceu Machado, onde um pé de butiá deu cacho em pleno mês de julho. “Eu fiquei surpreso”, conta Dirceu. “A fruta dá no verão, então não é comum. Mas agora eu vou cuidar do cacho pra ver se ele vinga”, explica.

Na propriedade do aposentado Dirceu Machado, o pé de butiá deu cacho fora de época, para surpresa do dono

Com foco nesse tipo de alterações, o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas divulgou um estudo sobre possíveis mudanças na configuração da produção agrícola do país. O painel colocou em foco a forma como as mudanças, como a falta de chuva em julho ou as ondas de calor no inverno, poderiam, por exemplo, aumentar as localidades e o tempo de produção da cana-de-açúcar ou diminuir as áreas de plantação de soja.

O técnico agropecuário da Emater Valmir Michels ressalta, no entanto, que são necessárias mais pesquisas sobre o tema. “É preciso que se tenha um trabalho mais aprofundado nesse sentido para que se possa prever concretamente o tamanho dessas mudanças”, ressalta.

Falta de água encarece luz
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) já anunciou que as contas de luz ficarão mais caras em agosto. A razão é justamente a seca nos principais reservatórios de água das usinas hidrelétricas do país, que faz com que seja necessário o acionamento de mais usinas termelétricas, com custo maior.

No anúncio, a Aneel informou que a energia terá o adicional da taxa extra da bandeira vermelha, a maior existente. A taxa significa um acréscimo de R$ 3,00 para cada 100KW/h de energia consumidos. Durante o mês de julho, a luz era cobrada com a bandeira amarela, que implicava mum acréscimo de R$ 2,00 para a mesma quantidade consumida.

Essa seca ocorre nas principais usinas hidrelétricas do país, no Sudeste e no Centro-Oeste, que atendem a cerca de 70% de todo o sistema brasileiro e que estão com a situação climática parecida com a da região. Buscando cumprir a demanda, entram as termelétricas, que obtêm energia a partir da queima de combustíveis como o óleo e o gás natural. Além da atual bandeira vermelha e da amarela, as contas de luz contam com a bandeira verde, em que não há acréscimo na tarifa.

Vem chuva aí
De acordo com a meteorologista do portal Climatempo, Josélia Pegorim, Montenegro pode esperar um início de agosto mais chuvoso. A previsão é que, na quarta-feira, o município receba 17mm de chuva. Na quinta, espera-se chuva também, em menor quantidade, apenas 2mm. O tempo deve firmar posteriormente e, na próxima semana, a chuva volta a aparecer em quantia mais considerável. Para o mês de agosto então, quando historicamente chove menos que em julho, a previsão é positiva. Em relação ao calor, espera-se o mesmo padrão pelos próximos dias, com temperaturas baixas durante a noite e mais altas durante o dia.

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