Em última reunião realizada com Executivo, Legislativo e Funai, indígenas haviam declarado desejo de ficar em Montenegro

Impasse. Choque Cultural e baixa infraestrutura são motivadores citados para a realocação

O objetivo de ouvir todas as partes e entrar em um acordo mútuo, com encaminhamento positivo para ambos os envolvidos, não foi alcançado em reunião realizada na Estação da Cultura na tarde dessa quinta-feira, 5. Mais uma vez a permanência dos indígenas no bairro Centenário segue incerta.

Com a presença de representantes do Executivo, Legislativo, moradores do bairro Centenário, indígenas e Fundação Nacional do Índio (Funai), o encontro que tinha como propósito buscar uma solução para o impasse da permanência ou não dos indígenas Kaingangs em Montenegro, não teve grandes avanços. O clima pacífico, logo se tornou um embate entre os presentes, sendo o Executivo, Legislativo e moradores a favor da mudança, e os indígenas contrários.

Dentre os problemas com a localização da aldeia foi citado o choque cultural entre a comunidade e a falta de infraestutura (terreno úmido, sem saneamento básico, água e luz, etc.). “O que se quer é que se tenha um local adequado aonde eles possam conviver com a sua cultura muito melhor do que estão vivendo ali, e também não uma coisa desumana onde o local tenha esgoto a céu aberto”, explica o presidente da Câmara de Vereadores de Montenegro, Juarez da Silva. O vereador, que acompanha o caso desde o início junto aos moradores, também relatou problemas culturais, como fogueiras realizadas pelos indígenas e que nada é feito a respeito.

Além disso, o prefeito Gustavo Zanatta, comentou sobre relatos de ligações irregulares na energia elétrica e na água e avanços de desmatamento com construções de novas casas. Em matéria divulgada pelo Jornal Ibiá, na edição dessa quarta-feira, 11, o cacique Eliseu Claudino, afirmou que a comunidade indígena realizou a ligação irregular de energia, mas negou na reunião que houve desmatamento no local.

Eliseu ainda relatou o desmatamento que está ocorrendo na cidade, como no terreno atrás do Hospital Montenegro. “Não são os indígenas que estão destruindo, vocês sabem quem está destruindo, e nós indígenas estamos batalhando para deixar viva a nossa mãe, porque a mãe dá sustento. Nós indígenas estamos lutando pela nossa mãe terra ”, fala.

Sobre a água, o cacique relembrou que foi dito pela Secretária da Educação, Ciglia da Silveira, que a pasta estaria pagando a conta. Em resposta, Zanatta indagou que se a água fosse cortada, “iriam puxar a água da mãe (terra) da onde?”. De acordo com o prefeito, o Executivo paga quase R$ 1 mil na conta de água, mas no momento não pode cortar, pois a obra da EMEI Centenário segue em atividade.

Outra indagação do prefeito Zanatta foi sobre a promessa dos indígenas de não aumentarem o número de famílias. Apesar que negarem o crescimento da comunidade, foi constatado na ocasião que mais oito famílias chegaram desde então, completando as 33 atuais.

Indígenas querem ficar
Os indígenas declararam na reunião que irão ficar na cidade. “Todos nós sabemos que os índios não são invasores, invasores são aqueles que vieram e tomaram a terra dos índios. Os indígenas não vão sair de Montenegro. Montenegro é terra tradicional indígena. […]”, afirmou o cacique.

Presente na reunião, o coordenador regional da Funai, Aécio Magalhães, explicou que após ir até a aldeia identificou o grande número de famílias e baixa infraestrutura do local. “Pelo que eu pude verificar eles não têm a pretensão de sair, mas há um esforço muito grande da Funai para que eles retornem para as suas terras indígenas. Somente lá que eles podem viver a sua cultura, porque às vezes essa cultura entra em choque com a cultura do branco, da comunidade do entorno, que às vezes não aceita alguns comportamentos que pra eles são muito comuns dentro das aldeias”, diz.

Aécio ainda ressaltou que no Rio Grande do Sul há 57 áreas indígenas demarcadas, e que apesar do desejo dos Kaingangs de ficar, o órgão tentará um local adequado e formalizado para eles se instalarem. O cacique exclamou que iria entrar em contato com o Ministério Público Federal, pois a comunidade não deseja voltar para as suas terras demarcadas, e afirmou que se fosse necessário entraria em contato com mais caciques da região para mobilização e garantia dos seus direitos.

Sobre a proposta da aldeia ser realocada para área do Estado no bairro Zootecnia, realizada pelo ex-prefeito, Kadu Müller, os indígenas falaram que eram positivos a troca, porém Zanatta ressaltou que a proposição não se mantém no governo atual. “Há pessoas mobilizadas no Zootecnia que não aceitam a ida deles para o bairro”, disse. Como encaminhamento da reunião ficou decidido que um encontro com o governo Estadual, Municipal e Funai deve ocorrer para que se entre em acordo sobre o assunto.

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