FOTO: JAIME BUTTENBENDER

Pico em Montenegro ocorreu por volta das 12h, quando chegou aos 8,18 metros

A família Pinheiro foi uma das primeiras a sair de sua casa e será das últimas a voltar

Com apenas roupas e cobertas, a família de Susana Regina Pinheiro se abrigou no ginásio da EMEF Dr. Walter Belian ainda na quarta-feira, 8. Moradores da rua Otaviano Moojen, no Industrial, os Pinheiro são sempre os primeiros a serem removidos e os últimos a voltarem para casa devido à enchente. Junto com dois netos, mãe e esposo, a montenegrina teve de encarar mais uma cheia longe de casa, esperando pelo melhor.

Os móveis e todos os bens ficaram na casa própria, conquistada com o suor do trabalho. E para cuidar de tudo, o seu filho ficou no local. “Meu filho ficou lá cuidando as coisas, porque se não, com enchente, levam tudo. Já entram sem enchente, imagina com”, diz Susana. Mesmo quando a cheia é pequena, eles precisam de auxílio de caíco para sair. “Aquela que deu semana passada, já andamos de caíco”, comenta.

Desde 2006 na casa, Susana conta que a família começou a sair de casa nas enchentes após uma doença que ela passou. Além disso, o seu esposo teve cinco Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) e, com um ataque cardíaco em 2019, a situação se agravou. “O problema mesmo é que a gente tem que sair por causa da situação dele”, conta. Apesar de sair de casa, Susana agradece por todos estarem bem.

Até o final da tarde dessa quinta-feira, 9, já eram 18 pessoas abrigadas pela Prefeitura Municipal, e a estimativa da Defesa Civil é que chegue a 30. Os desabrigados recebem refeições e demais suportes das equipes de apoio. Segundo Elton José Santos da Silva, coordenador da Defesa Civil de Montenegro, a possibilidade é que as famílias voltem para as suas casas apenas no sábado, ou até mesmo passem o fim de semana no local.

Na Rua Dr. Flores, a água chegou até o Armazém da Pizza

De acordo com o Instituto de Meteorologia Climatempo, a previsão é de chuva para sábado e domingo em Montenegro, Pareci e Caí. Na Serra, onde há nascentes do Rio Caí, também terá chuva de sábado a segunda-feira, 13, porém a boa notícia é que a previsão não passa dos 15mm.

Rua Osvaldo Aranha, na manhã desta quinta-feira

Essa é uma enchente de grande porte, com o seu pico marcado em 8,18 metros ao meio dia dessa quinta-feira, 9. Após esse período, o Rio Caí começou a estabilizar e diminuir lentamente. Às 17h30 o nível estava em 8,11 metros. Apesar de não ser considerada uma enchente histórica, essa se assemelha a grandes enchentes em Montenegro. A última grande enchente ocorreu em 2013, quando o pico foi a 8,49 metros.

Dejacir Nunes conta que essa enchente se assemelha à de 2013, que chegou a 8,49 metros

 

“Uma vida enfrentando enchentes”
Assim como muitas famílias do bairro Industrial, Dejacir Nunes, de 57 anos, já levantou antecipadamente os móveis de sua casa. O pintor industrial, criado na rua Cristiano Mate, no Industrial, conta que está acostumado com a situação, e um dos grandes problemas enfrentados é com os móveis. “Levantamos sempre antes, mas tem casos de as coisas caírem e depois estragarem”, conta.

Dejacir Nunes, sua mãe e irmã moram há mais de 63 anos no local

Com seu caíco, Dejacir ajuda os vizinhos e dá o suporte necessário para a mãe e a irmã que moram na mesma casa. O montenegrino conta que a enchente desse ano se assemelha com a de 2013, e só perde para a que ocorreu em 2007, quando a água passou 15 cm da janela da casa da sua irmã. Dessa vez faltou pouco, mas algumas medidas de prevenção foram tomadas.

 

Rua Torbjorn Weibull, próximo à Tanac

“Quando está enchendo a gente já vai no mercado e faz as compras, é geralmente três dias só”, diz. Além disso, o carro de Dejacir e de moradores do entorno tiveram de ser estacionados mais para o início da rua. “Da outra vez eu deixei o carro no vizinho, era mais fundo; eu cheguei a perder a placa do carro e quase apagou”. No seu quintal a água quase chegou aos 2m, mas mesmo com as dificuldades nesta época, a família se alegra por estar reunida.

Décio deixou embarcações prontas à espera da cheia

Subiu rápido, mas famílias se prepararam
Ainda na tarde de quarta-feira, 8, residentes das áreas de enchente em Montenegro se preparavam para a cheia que vinha. Morador da rua Álvaro de Moraes, na beira do Rio Caí, há mais de 15 anos, Décio Dallegrave, 80, já está adaptado às cheias. Com lancha e dois caícos prontos para serem usados, ele aproveitava a tarde para tomar seu vinho no pátio de casa enquanto observava o rio. “A gente está preparado para isso. Não temos muito problema. Dá sujeira e lixo depois, mas aí nos resta esperar passar e limpar, cada um a sua parte por aqui”, pontua. Ele e o filho Gilson Dallegrave, 57, contam que a água nunca chegou a entrar em casa, que tem uma boa altura, mesmo na maior enchente em que vivenciaram, em 2007.

Marlete passou a quarta-feira, erguendo as coisas do porão e limpando o caíco

Já Marlete de Oliveira, 45, moradora da rua Otaviano Moogen, no Industrial, passou a tarde de quarta-feira se preparando para as cheias. A casa, que fica no alto, tem objetos embaixo. Ela passou o dia erguendo os pertences. “A gente já não tem muita coisa, é melhor cuidar do que temos”, pontua. Marlete cresceu ali no bairro e aprendeu a monitorar as cheias. A família adquiriu um caíco e construiu outro por conta, assim, um serve para Marlete e o marido, e outro para o filho que mora ao lado.

 

Campo do G.E. Municipal ficou completamente debaixo da água

Famílias desabrigadas e ruas bloqueadas na região
Além de Montenegro, outros municípios também sofrem com as inundações. Em Pareci Novo, o pico da enchente ocorreu no fim da noite de quarta-feira, quando o rio ultrapassou um pouco os 14 metros. Lá, além do alagamento da várzea e da água no Centro, que atingiu parte da Praça Municipal Miguel Arraes, a enchente atingiu algumas casas. Três famílias precisaram sair de suas residências e foram para abrigos cedidos pela prefeitura.

Em Pareci Novo, o Rio Caí inundou toda a área de várzea, além de parte do Centro. O pico da enchente ocorreu na noite de quarta-feira e o rio começou a ceder por volta das 6h da manhã de quinta. A imagem mostra a Praça

A ERS-124 foi bloqueada no Matiel, e a previsão é de que talvez seja liberada nesta sexta-feira.
São Sebastião do Caí foi um dos lugares mais afetados pelas cheias do Rio Caí e teve cerca de 150 pessoas desabrigadas. A expectativa de mais chuva para sábado fez a prefeitura optar em manter essas pessoas nos abrigos municipais, pelo menos durante o fim de semana. Segundo a Defesa Civil, entre desabrigados, pessoas que ficaram com casas isoladas, mas que não saíram de suas propriedades, e outras que tiveram de ir para residências de parentes e amigos, 1,7 mil pessoas foram afetadas de alguma forma pela cheia.

Em Triunfo são os rios Jacuí e Taquari que causam preocupação. As águas atingiram 6 metros na altura em que eles se encontram, às 18h30min dessa quinta-feira, mas continuavam subindo. Duas famílias foram alocadas em abrigos municipais.
Confira como foi a cheia na região:

Colaboraram com a cobertura: Andressa Kaliberda; Clarice Almeida; Isadora Ferreira; Marielle Gautério; Mateus Friedrich

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