A DATA remete à morte de Zumbi dos Palmares, líder do Quilombo dos Palmares, que lutava contra a escravidão. Foto: reprodução internet

Tratar de temática tão pujante socialmente ainda é um processo no País, que precisa evoluir contra preconceitos

Neste 20 de novembro é comemorado o Dia da Consciência Negra no Brasil. Historicamente, a data remete à morte de Zumbi dos Palmares, último líder do Quilombo dos Palmares, que lutava contra a escravidão. A data foi instituída oficialmente pelo projeto Lei nº 10.639, no dia 9 de janeiro de 2003. No entanto, apenas em 2011 a presidente Dilma Roussef sancionou a Lei 12.519/2011 que cria a data, sem obrigatoriedade de feriado. A decisão por parar, em Estados que não aderiram a lei, é da Câmara de Vereadores.

“Acredito que daqui alguns anos, a discussão sobre as minorias, tanto negro como indígena e lgbt irá ganhar mais força, e me sinto orgulhoso de estar nesse período de transição social”, afirma Leonardo Sant’Anna. Foto: arquivo pessoal Leonardo Sant’Anna

De acordo com o montenegrino Leonardo Sant’Anna, o Dia da Consciência Negra no Brasil é conhecido principalmente como data de se falar sobre o negro. “Para um país em que discussões sobre cultura afro, religiões e até mesmo cotas raciais estão sendo colocadas em risco, me parece um dia de muita importância. Nas escolas, infelizmente não se encontra uma boa discussão sobre o assunto, já que nela apenas se reafirmam a história contada pelos olhos dos europeus”, destaca o jovem.

E além de uma importante oportunidade para tratar assuntos infelizmente pouco falados na sociedade, como o racismo, a data também é uma chance de se aprofundar historicamente na contribuição social e cultural do povo africano, negro. “Assim como o politicamente correto, que está na forma de um policiamento contra ideias obsoletas do século passado (que tendem a voltar), a representatividade vem ganhando espaço nas comunidades negras, o que do ponto de vista social, gera maior identidade e proporciona uma maior aceitação de sua cor e aparência. Agradeço por ter vivido para ver uma Miss Brasil negra ou um filme americano com um elenco negro. Acredito que daqui alguns anos, a discussão sobre as minorias, tanto negro como indígena e lgbt irá ganhar mais força, e me sinto orgulhoso de estar nesse período de transição social”, diz.

Leonardo reafirma o engajamento e resistência das gerações em lutar pelos direitos e espaço do negro, e salienta que, em Montenegro, de três a quatro grupos estão voltados para essa proposta. “Continuo sentindo falta do pessoal mais velho. Mas podemos refletir que nossa geração é a que mais se importa com a luta, mas não por ser mais “ligada”. E sim porque a geração passada continua apegada a valores de sobrevivência, em que focava na ideia de trabalhar pra conquistar. Então vejo com bons olhos as atividades da minha geração na cidade, e acredito que com o passar do tempo o pessoal mais velho virá a participar também”, conclui.

Paulo Juarez Gonçalves Filho e Rodrigo Franciel de Souza abriram barbearia com foco principal no público negro
Valorização da história negra
De acordo com Jean Paulo Honorato, 23 anos, integrante do AfroAtitude, apesar da relevância da data, é preciso trabalhar mais profundamente e incisivamente a valorização e história negra. “Abordar mais nas escolas, ter mais investimento público destinado ao assunto. É questão de ressarcimento histórico, reparação. Se for analisar, as festas de tradição alemã, como Oktoberfest, mobilizam muito, param uma cidade. O da consciência negra é mal e porcamente explorado”, reflete o jovem.

Jean ainda destaca que a visão em relação ao negro está sempre atrelada à escravidão. “E não somos mais escravos. É uma questão de mostrar, historicamente e socialmente toda a contribuição real do povo negro”, explica.

Com orgulho, cada um conquista seu espaço
Jovens negros empreendendo para jovens negros. É essa a principal proposta da barbearia Tapa do Moreno, localizada no bairro Rui Barbosa. Há seis meses, Rodrigo Franciel de Souza, 25 anos e Paulo Juarez Gonçalves Filho, 27 anos viram em suas profissões uma oportunidade para abrir um negócio próprio.

“A relevância do negócio é inspirar, motivar mesmo, outras pessoas negras de que, sim, elas podem ter seu próprio negócio. É um lugar de identidade, de identificação”, destaca Rodrigo.

“Há olhares diferentes, sem dúvida, com dois jovens negros administrando uma barbearia. Mas precisamos ser diferentes para o nosso público. Inclusive os nossos preços são mais baixos para atingir nosso cliente alvo, que é humilde. Mesmo com toda essa proposta, e também por causa do nome, muitos acham que é só para corte de cabelo negro, mas não é uma realidade, apesar de ser nosso maior público”, pontua Paulo.

Jean, que é cliente da barbearia e amigo de Paulo e Rodrigo destaca que o local é, também, um ponto de resistência. “É entrar aqui e sentir aconchego junto dos meus, sem olhares”, relata o empresário.

“E deu uma nova cara para o bairro, que é de classe média/alta. As pessoas já passam, cumprimentam. Quando fazemos um pagode aqui, os vizinhos já interagem”, completa Paulo, orgulhoso da criação.

Deixe seu comentário