Ações como o projeto Educando para o Futuro ajudam na conscientização. A foto é de atividade realizada em 2018. Foto: Arquivo Ibiá

O caminho do Lixo foi o tema discutido no Programa Estúdio Ibiá, na Rádio Ibiá Web

O Brasil produz cada vez mais lixo – 1,52 milhão de toneladas por semana, o equivalente a quase sete navios de cruzeiro. A informação é do Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2020, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública (Abrelpe). Em 2010, foram gerados 66,69 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos. Já em 2019, o descarte aumentou para 79,06 milhões de toneladas (18,6% a mais).

Para discutir o assunto – e os possíveis melhores caminhos para os resíduos – o Ibiá, por meio do programa Estúdio Ibiá, da Rábio Ibiá Web, promoveu na última quarta-feira, 25, uma discussão que envolveu representantes da sociedade sobre o tema. O Executivo Municipal foi convidado a participar, porém nenhum representante se fez presente.

Para o presidente Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema), Rafael Altenhofen, é essencial que a população repense o seu consumo. “Eu preciso pegar um saco plástico? Eu preciso pegar um saco a mais? Eu preciso daquele produto com toda aquela embalagem se há uma similar? Será que eu não posso trocar por ela?”, diz.

O lixo e o seu descarte foi tema de bate-papo na Rádio Ibiá Web

Em termos de produção de lixo plástico, por exemplo, o Brasil já é o 4° maior produtor, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia. Segundo a pesquisa da Abelpe, por semana, os brasileiros produzem 1,52 milhão de toneladas. Para o primeiro secretário da Associação Comunitária do Bairro São Paulo, Victor de Oliveira, responsabilidades não estão sendo cumpridas por duas partes. “Por parte da população existe uma indiferença em relação ao lixo, tanto dentro de casa, quando não se repensa o seu lixo, quanto também do poder público, que muitas vezes é negligente nessa questão de educar e até mesmo punir”, expõe.

Para além da indiferença da população, o gestor da empresa Montepel e integrante do Núcleo Socioambiental da ACI, João Batista Dias, o Tita, ressalta o incentivo que a internet e os seus “famosos” fazem em relação ao consumo. “Tu fica no meio de monte de informação e às vezes o teu filho te pressionando porque quer um brinquedo novo que ele vai abrir, brincar cinco minutos e colocar do lado. E é sensacional a quantidade de embalagem que vem dentro de um brinquedo”, fala.

De acordo com Altenhofen, uma ação mais efetiva do poder público na área da limpeza e destinação correta do lixo pode incentivar a população a fazer o mesmo. “Se eu não trabalho a questão do resíduo desde pequeno na escola, ou não vejo uma prática adequada de planejamento pelo município na questão de resíduo ou na questão ambiental como um todo, para mim eu passo acreditar que isto é algo que não é importante. Então eu não incorporo naquele meu rol de valores”, explica.

O presidente do Condema ainda relata que não basta somente reciclar o resíduo ou depender de ações do Poder Público. “É importante sim que se cumpra a legislação, que se recicle adequadamente, que se dê o destino correto. Agora se nós não pensarmos lá na ponta, na origem e repensarmos a nossa relação com o consumo de nada vai adiantar também, porque nós vamos acabar exaurindo o recurso natural”, completa.

O descarte incorreto
De cada 72,7 milhões de toneladas de lixo coletados no país, 29,5 milhões são descartadas incorretamente e vão parar em aterros ou lixões que são prejudiciais ao meio ambiente, segundo a pesquisa Panorama dos Resíduos Sólidos. Como explica Tita, muitas vezes, quando separado incorretamente o material que era reciclável pode ficar inutilizável. “Hoje, tu misturar uma erva com papelão, com papel, eu não consigo reciclar mais ele. Então tu acaba inutilizando uma matéria prima em função dessa mistura que tu produz em casa”, diz.

Tanto para os catadores como para a coleta seletiva é extremamente necessário que a separação ocorra corretamente. “A gente precisa trabalhar um pouquinho dessa questão de conscientização, retornar um pouquinho ao que os nossos avós faziam e dar o destino melhor a cada tipo de resíduo. Porque opções a gente tem, a gente tem uma coleta seletiva, a gente tem outros projetos que recebem os resíduos para dar os seus destinos, o que falta muito é vontade de fazer, porque é uma mudança de cultura nas pessoas”, comenta.

Parcerias público-privadas
No município, iniciativas de instituições demonstram que através da conscientização da sociedade e de parcerias público-privadas é possível transformar o município em um local mais sustentável. Criado em 2018 pelo Núcleo Socioambiental da Associação Comercial, Industrial e de Serviços (ACI) de Montenegro e Pareci Novo, o Ecopila é uma “moeda” ecológica que busca incentivar a consciência ambiental da separação de lixo na comunidade.

“O lixo que é gerado no município se transforma num valor que só pode ser gasto no município com a moeda, e parte dele ainda retorna em projetos sociais. Ele tem toda uma questão socioambiental por trás disso, e ele funciona. Assim como o processo de educação, porque muitos dos “fornecedores” eu diria, desse projeto, são crianças, a grande maioria”, fala Tita, um dos criadores. Segundo o gestor, sempre é frisado com os jovens a importância da destinação em si.

A coleta do Ecopila ocorre todas as quintas-feiras junto à praça Rui Barbosa, na rua Capitão Cruz. Basta levar os resíduos recicláveis no local, das 7h ao meio-dia, que será feito a troca pela moeda social.

Além disso, o Educando para o Futuro é outro projeto que trabalha com a conscientização. Criado há cerca de quatro anos, a iniciativa estimula a mudança prática de atitudes e a formação de novos hábitos com relação ao meio ambiente. Ao ser desenvolvido junto às escolas, o Educando para o Futuro é um eficiente instrumento para formação da consciência ambiental de crianças e adolescentes, que são multiplicadores da ação junto às famílias e comunidade em que vivem. “[…]A gente precisa montar essa base nas crianças para que elas sejam nosso fator de mudança tanto dentro de casa como de futuro”, concluí Tita.

Associação Comunitária do Bairro São Paulo é atenta a questão do lixo. Foto: Arquivo Pessoal

Um bom exemplo da comunidade
Iniciativas da população também podem fazer a diferença para o meio ambiente. Na Associação Comunitária do Bairro São Paulo, uma das grandes preocupações e foco é na destinação correta do lixo e limpeza de espaços públicos. “A Associação, desde que assumiu, o nosso papel na comunidade, a gente buscou cuidar dos espaços públicos que tínhamos no bairro e sempre buscar novas soluções para o bairro”, fala Victor.

As praças sempre foram um local de destaque no bairro. Ainda em 2019, a comunidade realizou a revitalização da Praça das Poesias, e em novembro de 2020 foi na Praça dos Pinheiros, no Altos do Cantegril. “A gente cuidou para sempre manter um capricho nesses espaços, mas não é tão fácil como a gente esperava que fosse”, desabafa.

Segundo Victor, nos espaços já foram constatados muitos problemas com o lixo. Mesmo com lixeiras, ele relata que constantemente há resíduos espalhados pelo local. “Nós temos muita gente que aproveita as praças lá do bairro. Se eu to aqui aproveitando eu também tenho que cuidar”, declara.

O Ecopila transforma lixo em moeda

O integrante da Associação salienta que nas praças também foi incluso a reutilização de materiais, como é o caso dos pneus. “A gente usou os pneus e muita coisa que a própria comunidade trouxe. E a gente sempre procurou deixar um lugar com essa ligação muito forte com a natureza”, diz.

Cooperativa de Reciclagem
Há alguns meses a Cooperativa de Reciclagem que funcionava a cerca de 8 quilômetros do Centro, na localidade de Potreiro Grande, está fechada. Inaugurada em 2015, o investimento teve como principal objetivo a formação do grupo de cooperados que fazia a separação dos recicláveis recebidos e os revendiam, garantindo renda.

De acordo com Tita, que acompanhou todo o processo, a Cooperativa nunca funcionou a pleno. “O resíduo que chegava para eles chega nessa situação que a gente conhece: misturado. Então eles não conseguem fazer dinheiro com aquilo”, explica. Dos materiais que chegavam ao local, apenas 12% era aproveitado. Fralda, papel higiênico e restos de comida eram alguns dos resíduos que se misturavam ao lixo reciclável.

Cooperativa de Reciclagem está fechada há meses em Montenegro. Foto: Arquivo Ibiá

Através da Assessoria de Comunicação, a Secretaria Municipal de Meio Ambiente informou ao Jornal Ibiá que o local está fechado por não atender à Licença de Operação e por não ter autorização formal. “Além disso, foram identificadas inconsistências na formação da COOPERLIMP, a cooperativa que aglutinava os trabalhadores e atuava no local. Por isso, foi revogada a licença de operação. Desde o início da gestão, foram realizadas vistorias diárias e, por vários dias, os trabalhadores optavam por outras atividades, como a colheita de frutas cítricas. Muitas vezes, não apareciam e os caminhões eram avisados para não descarregarem, uma prática que ocorria há vários anos. A Administração comunicou o Ministério Público sobre estes fatos e sobre a revogação da licença”, diz a nota. O material que ia até o local é triado em Tupandi e, a partir do dia 28, será triado em Capela de Santana, junto ao transbordo.

De acordo com a SMMA, para garantir a subsistência desses trabalhadores é preciso investir na conscientização da população, e desse modo, não seria possível indicar uma data para o retorno do serviço. “Portanto, será necessário, primeiro, avançar nas campanhas de conscientização que levem à formação de um comportamento mais cidadão de todos os montenegrinos. Construir uma nova cultura leva tempo e seria leviano, neste momento, comprometer-se com prazos. Os técnicos da SMMA já visitaram a cooperativa de Novo Hamburgo e vêm trocando informações. Contudo, o processo é complexo e envolve, por exemplo, levar a estação de transbordo do lixo para aquele local, o que requer estudos detalhados de viabilidade financeira e de impactos”, completa. A Secretaria relatou que está trabalhando na distribuição de informativos que visam a conscientização da comunidade.

Ação de conscientização
Neste domingo, 29, a Montepel em conjunto com parceiros, irá realizar uma ação de conscientização na beira do Rio Caí. O “Lixo no chão eu não tolero” será aberto à população, e terá como ponto de saída o Caça e Pesca, às 16h.

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