Preocupação é que, sem a mata, parte do barranco irá abaixo na próxima chuva, causando novo assoreamento do Arroio da Cria

Ação foi realizada para viabilizar o desassoreamento do corpo hídrico

O desassoreamento promovido pela Prefeitura de Montenegro no Arroio da Cria, do bairro Aeroclube, divide a opinião da comunidade. De um lado, moradores das proximidades agradecem a intervenção, pois a retirada da areia do corpo hídrico atende a uma demanda de anos pelo fim das enchentes no local. De outro, muitos criticam a forma como o serviço foi feito, com o desmatamento de um largo trecho de mata às margens do arroio.

Vice-presidente do Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente (Comdema), Rafael Altenhofen define a ação como uma “maldade”. Ele explica que, de acordo com a legislação ambiental, tudo o que é vegetação ciliar (nas margens de rios e arroios) é considerado Área de Preservação Permanente. Nesse caso, só poderia sofrer intervenções em casos de baixo impacto, de utilidade pública ou de interesse social. As três condições, para ele, são “questionáveis” para o caso do Arroio da Cria.

O especialista aponta que, de qualquer forma, a atuação para desassorear o corpo hídrico seria viável em três alternativas: manualmente (com pessoas entrando lá e retirando a areia); com dragas flutuantes (como já foi feito no passado por ali) ou, como foi usado dessa vez, com a retrosescavadeira.

“Mas nesse caso, a intervenção na mata ciliar só deveria ser feita visando viabilizar o acesso do equipamento ao arroio. O equipamento entraria e iria removendo de dentro para fora”, salienta. Não seria necessária a retirada de toda a mata. “O único motivo para fazer uma coisa dessas é maldade”, reitera Altenhofen.

“Quando tu mexe no corpo hídrico dessa forma, retira todas as raízes e a vegetação, tu aumenta em até dez vezes a velocidade de escoamento da água. Então, aumenta o processo erosivo. O barranco, quando inundar, a água vai levar a metade”, prevê.

Nas redes sociais, a Prefeitura divulgou o serviço realizado com uma imagem do prefeito Kadu Müller acompanhando as intervenções, que ocorreram durante toda a semana. A questão da mata foi bastante questionada nos comentários. Em nota à reportagem, a secretaria de Meio Ambiente explicou que, antes de tudo, foi feito um estudo pela bióloga do Município, que quantificou a vegetação afetada para a posterior reposição florestal, de acordo com as resoluções da secretaria estadual.

O titular da pasta, Adriano Chagas, garantiu que o Município tem todas as licenças para a realização da atividade, estando em conformidade com a Legislação. Sobre a retirada de toda a mata ciliar – não apenas no necessário para abrir caminho ao equipamento – o secretário justificou que ela foi necessária “porque o desassoreamento é realizado com máquina pesada tipo escavadeira hidráulica, e a máquina tem que se movimentar na beira do arroio devido ao alcance da lança”.

Secretaria de Meio Ambiente informou que o Município tem todas as licenças para realizar o procedimento

PRIORIDADES
Para quem convivia com as cheias – consequência do arroio assoreado – a ação é sinônimo de mais segurança. Há nove anos, Maria Ivanir da Silva, 55 anos, teve sua residência invadida pelas águas do Cria. Tinha recém mudado para o bairro. “Era uma ação muito esperada”, afirma. “Medo dava quando vinha água. Assim não dá medo”. Há três anos que o corpo hídrico não era limpo, contou a moradora.

A professora Karin Kasper, 45, concorda com a vizinha. Está, porém, na esperança de alguma ação de reflorestamento. “Tem que dar os parabéns pela iniciativa da Prefeitura, mas tem que haver uma preocupação com o florestamento”, opina. Ela diz estar disposta até a ajudar, em uma ação comunitária, no plantio dentro do trecho desmatado.

Deixe seu comentário