FOTO: AGÊNCIA/BRASÍLIA

Apesar de avanços, ainda são vários os desafios a serem enfrentados

Mulher objetiva comemorar as conquistas femininas ao longo dos últimos séculos. Porém, também é data de refletir e alertar sobre as desigualdades que, ainda hoje, são enfrentadas pelo gênero. Mesmo com avanços, há espaços onde a mulher não é tratada com igualdade. Notavelmente, o mercado de trabalho e o mundo dos negócios estão entre eles. Mulheres seguem recebendo salários menores e, em muitos casos, não têm as mesmas oportunidades que colegas do sexo oposto. No cerne deste problema, ainda está uma construção social machista do que é considerado trabalho e tarefa de mulher; e do que é considerado de homem.

“A gente tem, desde muito cedo, isso. Como assim, uma mulher trabalhando num canteiro de obras? Como assim uma mulher engenheira? Isso acaba refletindo nas possibilidades de essas mulheres entrarem no mercado de trabalho”, comenta a especialista em Direito das Mulheres, Sabrina Donatti. Ela cita como exemplo um reflexo da pandemia de coronavírus. “Nós perdemos muitos postos de trabalho durante este período que, agora, estão sendo retomados. Só que quem está conseguindo preencher muitas dessas novas vagas são homens, exatamente por essa diferenciação sexual do trabalho.” Ela aponta que atividades mais relacionadas ao sexo masculino, como as da construção civil, estão tendo recuperação mais rápida do que as mais relacionadas ao sexo feminino, como as de serviços e vendas.

Mãe, desde 2013, Sabrina produz conteúdos sobre maternidade para a internet. No ano passado, diversificou sua linha editorial para falar de outros desafios das mulheres: na política, no trabalho e em outros meios. Analisando o que ocorre, ela aponta que a pandemia pesou mais especialmente a Elas; justamente por boa parte da sociedade ainda atrelar somente à mulher a responsabilidade pelos cuidados da casa e dos filhos – tarefas que as esperam bem depois do “bater do ponto” onde elas trabalham. “Elas tiveram essa dupla, tripla jornada de trabalho. A maioria das mulheres cuidou de alguém na pandemia”, comenta a especialista. Estudo do IBGE divulgado ano passado – com dados de 2019, ainda pré-coronavírus – mostrou que Elas dedicam, em média, 21,4 horas semanais aos cuidados de pessoas ou afazeres domésticos. Eles, quase a metade: apenas 11 horas semanais.

Letícia Silva dos Santos. FOTO: ARQUIVO/PESSOAL

Na avaliação da psicóloga Letícia Silva dos Santos, coordenadora do Coletivo de Empreendedoras Negras de Montenegro, essa mentalidade tem mudado nas gerações mais jovens. “Mas é uma jornada longa. Mulheres da minha geração precisam se reinventar para adentrar no mundo dos negócios e equilibrar essas responsabilidades”, comenta. “E a sociedade ainda precisa evoluir no sentido de fornecer apoio social a essas mulheres. Um homem não pode achar que vai ‘ajudar’ na casa ou com os filhos. A casa e os filhos também são dele e ele precisa se comprometer com a mesma dedicação e responsabilidade que a mulher. Esta não pode ser uma luta individual da mulher.”

 

Mercado “pune” a mulher pela maternidade
Especialista em Direito das Mulheres, Sabrina Donatti atrela a desigualdade de oportunidades da mulher no mercado de trabalho a uma certa punição pela maternidade. “A gente vê que as mulheres, dependendo da idade, já são vistas pela empresa como alguém que vai tirar licença maternidade ou que terá que cuidar de alguém”, aponta. “Isso já começa desde a entrevista de emprego, onde, mesmo que não se possa fazer esse tipo de pergunta, acontece de perguntarem se a mulher tem a intenção de engravidar”.

Sabrina Donatti, especialista em Direito das Mulheres. FOTO: ARQUIVO/PESSOAL

Por lei, a licença maternidade concedida à mãe é de quatro meses. Ela também tem direito de tempo pra amamentação até a criança ter seis meses; e de dispensa para consultas médicas. Mas no retorno da licença, Sabrina aponta, nem sempre a profissional encontra a melhor das recepções. “Algumas vezes, a mulher até já perdeu o seu lugar de trabalho e aí colocam ela como um encaixe, como se não fosse programado que ela voltaria depois de tantos meses”, comenta. A especialista diz que, nesse cenário de discriminação, começam práticas para dificultar a rotina da mãe; como demandas extras de viagens a trabalho ou pedidos para ficar depois do horário no serviço. Saídas em função do filho também não são bem vistas.

“Sempre que a mulher precisa se ausentar, que precisa levar o filho ao médico, é um problema. Já se isso acontece com um homem, é diferente. As pessoas acham grandioso que um homem vá levar o filho pro médico, como se ele estivesse fazendo algo sensacional”, critica Sabrina. “Esse tipo de situação acontece muito e isso vai fazendo com que a mulher não cresça no seu trabalho ou que acabe repensando se quer continuar trabalhando.”

A especialista aponta que, além de uma mudança cultural, dentro das empresas, é preciso pensar em políticas públicas que garantam que a mulher possa trabalhar com tranquilidade. São o acesso a creches com horários estendidos, a transporte público e a saúde de qualidade, por exemplo. Para Sabrina, também é possível repensar a própria “licença maternidade” que já atrela o cuidado do filho à mãe; ao passo que o pai apenas recebe a chamada “licença parental”, que dura só cinco dias. “Seria muito importante que tivesse essa possibilidade (maior)”, opina.

A diferença salarial é uma realidade
Empreendedora e com passagem por cargos de chefia em organizações de grande porte, a montenegrina Maria Elisabete Griebeler participou como coautora, recentemente, do livro “Mulheres nas Finanças”; obra que trata dos desafios e das oportunidades de profissionais da área. Com carreira de destaque, Elisabete lembra que, ao longo de sua trajetória, sempre investiu muito tempo em qualificação e novos conhecimentos. Porém, traz consigo que, por ser mulher, precisou de mais do que os colegas homens para provar a sua competência e a qualidade de suas ideias. “Já teve casos em que eu fiquei, às vezes, dois anos para conseguir comprovar algo que estava acontecendo na empresa. Eu ia de um jeito, ia de outro; e percebia que para os homens era mais fácil. Isso quando não acontecia de algum homem pegar a ideia e acabar levando e passando”, relata.

Maria Elisabete Griebeler. FOTO: ARQUIVO/PESSOAL

A necessidade de se provar constantemente pode explicar o maior espaço de mulheres nas universidades. Segundo o IBGE, com dados de 2019, na população com 25 anos ou mais, 19,4% das mulheres têm curso superior completo, enquanto, entre os homens, esse percentual é de 15,1%. “Mesmo assim, elas estudam mais e ganham menos. O salário médio das mulheres, geralmente, é mais baixo em todos os países. Se a gente continuar nesse ritmo, vamos levar mais 250 anos pra alcançar uma paridade econômica com os homens”, alerta Elisabete. Ainda de acordo com o estudo do IBGE, a remuneração média das mulheres em 2019, no Brasil, foi de R$ 1.985,00; cerca de 22% menor que a média dos homens, que foi de R$ 2.555,00.

Atualmente, a legislação proíbe que, em uma mesma função, haja diferenciação salarial.“Mas a gente acaba tendo, em algumas empresas, justificativas como ‘ah, ele está há mais tempo conosco ou ele tem o tal perfil que a gente gostaria’, o que vai fazer com que o homem ganhe mais”, comenta Sabrina Donatti. “Colocam na carteira de trabalho como um trabalho diferente mesmo que, na prática, muitas vezes ele e a mulher ocupem o mesmo cargo ou cargos muitos próximos”, esclarece.

Maria Elisabete já conviveu com o problema. “Eu senti muitas vezes a questão salarial, de desigualdade, mesmo ocupando cargos que outros homens tinham; e, muitas vezes, a gente não quer ficar em embate e acaba relevando”, expõe. A profissional lembra de quando trabalhou em uma empresa onde era a única mulher no mesmo cargo que outros homens. O cargo dava direito a um carro da empresa; e apenas o dela era um veículo inferior aos demais. “O homem que me falou disso tentou explicar de tudo quanto é jeito o porquê de eu ter um carro inferior e eu, pra não polemizar, acabei aceitando, mas era nítido”, conta. “Não era a questão do carro, porque aquele carro me atendia perfeitamente, mas pela situação.”

União para superar desafios
Segundo o IBGE, a proporção de mulheres com CNPJ, donas de seus próprios negócios, aumentou 59% entre 2012 e 2019. Para a especialista em Direito das Mulheres, Sabrina Donatti, o mundo do empreendedorismo também impõe desafios. “Por vezes, as pessoas têm dificuldade em reconhecer que aquilo é um trabalho da mulher, que não é só um hobbie; e dentro de casa, essa mulher continua sendo responsável por fazer tudo. Então, acaba sendo muito mais difícil para ela crescer em função desses tabus”, comenta.

Para Letícia Silva dos Santos, coordenadora do Coletivo de Empreendedoras Negras de Montenegro, dentre os principais desafios da mulher no mundo dos negócios está a busca pelo respeito e a necessidade constante de se provar. “Com certa frequência, precisamos comprovar qualidade técnica, currículo. Somos muito cobradas a termos sucesso imediato e as pessoas esquecem que, para sempre, vão haver demandas e cobranças familiares”, coloca.

Além de ser mulher, ser negra impõe desafios extras. “As mulheres negras têm a tradição do empreendedorismo desde os tempos da escravidão. Como é sabido por toda a sociedade, uma das práticas usadas no Brasil no período da política do embranquecimento foi cercear acesso ao trabalho formal às pessoas negras. Então, isso impôs o empreendedorismo. Só que crescer no mudo dos negócios precisa de dedicação intensa, investimento financeiro, e abdicar de muitas coisas na vida pessoal; e as mulheres sempre foram cobradas a fazer tudo ao mesmo tempo, a dar conta de tudo e ‘serem fortes’. Nós temos, como resultado, além do desgaste intrínseco a demanda de trabalho, um avanço nas complicações relacionadas à saúde mental”, expõe Letícia.

É neste contexto que o Coletivo de Empreendedoras Negras de Montenegro surgiu para ajudar com iniciativas que fomentam a formalização, o acesso à capacitação e a promoção de negócios liderados por mulheres; numa parceria entre as participantes. E ele não está sozinho no Município. Com um objetivo parecido, a Confraria das Empreendedoras de Montenegro também auxilia mulheres donas de seus próprios negócios a superarem barreiras e se desenvolverem.

“A Confraria vem muito nesse sentido de ajudar elas a firmarem propósito, a pensarem no cliente, pensarem em estratégias, na importância do marketing digital”, comenta a design de interiores Marcia Farias, que é coordenadora do grupo. “Nós estamos sempre tentando ajudar elas a se fortalecerem, porque sozinho, tu não chega a lugar nenhum. A Confraria é uma rede de parcerias, uma rede de contatos e uma rede que se divulga e se valoriza”, define.

Houve avanços

Marilene Maron. FOTO: ARQUIVO/IBIÁ

A contadora Marilene Maron, presidente da Associação dos Contabilistas de Montenegro, também reconhece que há resistência no mercado de trabalho em relação às mulheres; especialmente nos cargos de liderança. “No entanto, nem por isso, o grupo feminino se intimida”, pondera. “Características naturais da personalidade feminina contribuem para o reconhecimento do chamado ‘sexo frágil’, dentre elas, a persistência, o coração, a paciência, o otimismo, a sensibilidade e muita força de vontade.”

Na área contábil, que representa localmente, Marilene aponta rápidos avanços desde que a primeira brasileira mulher, em 1947, recebeu seu registro profissional no Rio de Janeiro. “Conforme publicações do Conselho Federal de Contabilidade, em 1950, 4,3% dos trabalhadores da área eram mulheres. Em 2020, este percentual pulou para 47,4%. Eu vejo um futuro promissor em ascendência para todas as mulheres que escolherem o caminho do mercado de trabalho e sempre vejo homens e mulheres unindo forças”, opina.

Marcia Farias . FOTO: ARQUIVO/PESSOAL

Para a empreendedora Marcia Farias, o entendimento de que o mundo empresarial é masculino precisa ser esquecido. “A gente não pode se prender a essas barreiras que colocaram e que ainda querem colocar pra gente. A mulher pode e tem condições”, declara. Há exemplos positivos disso. “Nós temos mulheres à frente de empresas, temos destaques nacionais de mulheres que são superação em negócios, mulheres que são mentes brilhantes. Todas as mulheres podem!”

Com uma longa carreira, Maria Elisabete Griebeler concorda. “Eu mesma, que trabalho muito em cargos de chefia, posso dizer que a evolução é grande e que a gente já é muito mais ouvida do que era antigamente. A evolução vem acontecendo e as mulheres vêm conseguindo cargos importantes e dar ideias maravilhosas pras empresas, também”, pontua.

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