A disputa por espaço na rua Dr. Bruno de Andrade se intensifica em horários de pico

ENQUANTO aguardam por melhorias no trânsito, cidadãos devem fazer a sua parte

“O trânsito ideal seria como os vistos nas manhãs de domingo, pouco movimento de veículos, baixa velocidade, ciclistas e pedestres se deslocando em segurança com a falta de pressa guiando o caminho de cada um deles.” A definição do vigilante Renato Morais, de 30 anos, morador do bairro Municipal, em Montenegro, é o sonho de muitas pessoas que não suportam mais a insegurança, causada pelos riscos oferecidos nos deslocamentos pelas vias urbanas e rodovias das cidades. Transformar esse exemplo em realidade no dia a dia está longe de ser possível. Mas se todos se enxergarem como agentes que compõe o trânsito e passarem a agir com educação e respeito ao próximo as coisas podem, pelo menos, melhorar. É o que acredita o rapaz. O trânsito e mobilidade urbana integraram os temas abordados no programa Estúdio Ibiá dessa quarta-feira, dia 22, data marcada pelo Dia Mundial Sem Carro.

Criado pelo movimento “Sem Carro”, o Dia Mundial Sem Carro, tem como objetivo incentivar as pessoas a experimentarem, pelo menos nesse dia, formas alternativas de mobilidade, descobrindo que é possível se locomover pela cidade sem usar o automóvel. “Gastava dinheiro com gasolina e estacionamento para me deslocar, e depois gastava na academia, pois estava muito sedentário. Então, resolvi comprar uma bicicleta para fazer a maioria dos deslocamentos. Deixei os veículos (carro e moto) para passeio ou emergência. Agora consigo economizar a gasolina, estacionamento e academia”, conta Renato sobre a forma que encontrou para mudar seu estilo de vida e contribuir para um trânsito melhor. “Vejo muitas pessoas reclamando do preço do combustível e não vão na esquina a pé, precisamos mudar essa mentalidade”, acrescenta.

Márcia Brandt, vice-presidente da Aciclomont

Contudo, para que mais pessoas ousem mudar, devem encontrar condições físicas para isso: ruas em boas condições de pavimentação, calçadas adequadas, e locais apropriados para ciclistas, entre outros. A falta de manutenção e de ampliação das ciclofaixas em Montenegro é uma das demandas defendidas por quem tem na bicicleta o seu principal meio de transporte.

A vice-presidente da Associação dos Ciclistas de Montenegro (Aciclomont), e membro do Conselho Municipal de Trânsito de Montenegro, Márcia Brandt, destaca que há muito tempo os ciclistas aguardam investimentos que possam fomentar o uso de bicicletas como meio de transporte e também para promoção da saúde, através da prática de atividade física. “Desde que uma ciclovia derrubou um prefeito, os outros gestores não querem mais fazer ciclovias. Não foi feita mais nenhuma”, comentou Márcia em sua participação no programa Estúdio Ibiá, se referindo ao impeachment do ex-prefeito Paulo Azeredo – que instalou uma ciclovia no meio da rua Capitão Cruz, no Centro.

R$30 mil devem ser investidos em estudo de nova ciclofaixa
O diretor municipal de Transporte e Trânsito, departamento ligado à Secretaria Municipal de Obras Públicas do Município (Smop), Paulo Reinaldo Temppas Júnior também participou do programa da Rádio Ibiá Web. Ele garante que é interesse do Executivo local implementar novas ciclofaixas na cidade, devendo começar pela Timbaúva. Mas, para isso, é preciso estudo e investimento. “Serão analisadas a questão do tráfego e a ciclovia. O projeto Cura já prevê a ciclovia lá. É um projeto de 1980, mas se estiver no padrão, vai ser apresentado para os dias atuais”, explica Paulo.

Paulo Reinaldo Temppas Júnior é diretor de Transporte e Trânsito

A Administração vê a necessidade de contratar um empresa para realizar um estudo de engenharia do perímetro onde pretende implementar as novas ciclofaixas. O primeiro passo é apresentar de forma documental essa demanda para ser analisada pelo Conselho Municipal de Trânsito o que, segundo Paulo, deve ocorrer na próxima reunião do colegiado. O investimento previsto para a contratação do serviço é de R$30 mil.

Não há prazo estipulado para nenhuma das fases do processo. O que se sabe de definitivo, até o momento, é que as ciclofaixas estão previstas para facilitar o acesso ao Centro da cidade a partir dos bairros Estação e Aeroclube.

Para o taxista Valdir Márcio Machado, 40 anos, 22 de profissão, novas ciclovias irão estimular os munícipes a usar a bicilceta com mais frequência. Contudo, outra questão que deverá ser vista de forma conjunta entre o Conselho e o Departamento de Trânsito é a instalação de bicicletários. “Não adianta a gente ter ciclovia se as pessoas cheguem ao Centro e não tiverem onde deixar a bicicleta”, complementa Márcia Brandt. “Mas essas são coisas que estão sendo trabalhadas”, afirma.

Estudo de Mobilidade Urbana é desafio para a Administração
É lei. Conforme a norma Federal 12.587/12, todos os municípios com mais de 20 mil habitantes devem possuir um Plano de Mobilidade Urbana (PMU). O Plano possibilita às administrações municipais contarem com um instrumento de planejamento de ações de curto, médio e longo prazo. Apesar da importância da PMU, Montenegro não dispõe dessa ferramenta.

O último estudo de mobilidade urbana realizado na cidade é de 2010, feito durante a segunda gestão do Prefeito Percival Souza de Oliveira, afirma o diretor de trânsito local. Mais de uma década depois, muita coisa mudou e o que antes servia, agora, terá de ser reavaliado, demandando novos esforços. “Há muito para ser feito e a gente vai ter que dar muita atenção a este assunto”, diz Paulo Reinaldo Temppas Júnior.

Sem bicicletário, o jeito é improvisar para que a bicicleta não seja furtada

No caso do PMU também não há data para término da revisão. “Começamos a tratar do assunto há no máximo 60 dias, nem 10% foi revisto ainda. Estamos começando a tratar do assunto. Isso já deveria ter acontecido em outras administrações e não aconteceu”, aponta Paulo.

Entre questões importantes pontuadas no Plano, consta o tráfego na rua Dr. Bruno de Andrade, no trecho entre as ruas Torbejorn Webull e a Hans Varelman, como explica Renato, usuário da via. “O principal ponto problemático é sem dúvidas na Timbaúva, pois a principal rua de ligação do bairro é movimentada, estreita, tem estacionamento permitido de ambos os lados, e ainda permite veículos grandes” ilustra o morador daquela região.

No local os riscos aparecem de todos os lados e de variadas formas, como conta o entrevistado. “Os ciclistas andam quase no meio da rua, com medo de se aproximar demais dos carros estacionados, que possam abrir a porta de surpresa. Eu mesmo quase arranquei a porta de um carro quando estava passando por lá e um carro estacionado abriu toda a porta. Por sorte, o movimento estava calmo e consegui desviar, mas não tive tempo de olhar para o lado para ver se havia algum veículo.”

Mais educação, menos acidentes
Trânsito é lugar de todos, mas poucos levam isso em consideração. A pressa e o egoísmo, de achar que tem preferência em detrimento aos outros agentes, levam muitos condutores a cometer infrações. O tenente da Brigada Militar, do 5º Batalhão de Montenegro, Enio Pastorio, especialista em assuntos de trânsito, lembra que cada acidente registrado é resultante de uma infração que não deu certo, seja por excesso de velocidade, consumo de álcool, ultrapassagem em local indevido, ou outras tantas.

Tenente Enio Pastorio

Enio já foi membro do Conselho Municipal de Trânsito de Montenegro e afirma que não adianta cobrar melhorias do Executivo se cada cidadão não fizer a sua parte. “Falar de trânsito é uma coisa, fazer é bem diferente. A gente vê acidentes em que a pessoa é atropelada a poucos metros da faixa de pedestre.”

“O que deve prevalecer é a educação no trânsito. Ninguém sai do CFC sem saber regras, como por exemplo, a hierarquia dos veículos, na qual o condutor do carro cuida da moto, esse cuida do ciclista e todos cuidarem do pedestre”, ilustra o policial.

O tenente lembra ainda que a movimentação no trânsito depende de três fatores, os chamados três Es: engenharia, educação e esforço legal. “O esforço legal cabe a quem vai fiscalizar as regras de segurança após a engenharia ser executada e a educação de todos ser exercida”.

Pastorio trabalha a educação no trânsito em escolas do município. Para ele, é preciso educar as novas gerações para evitar que cometam os erros dessa e de outras. Já para os adultos, o PM defende a ideia de fiscalizar para prevenir. “A fiscalização como forma de educar os adultos é uma das prioridades trabalhadas pelo atual comandante do 5º BPM, tenente-coronel Oberdan do Amaral”, acrescenta.

Márcia Brandt corrobora com as colocações do tenente. “Para mim, a educação é o mais importante dos três ‘Es’. Nada adianta a engenharia estar correta, ter fiscalização e as pessoas não terem educação”, finaliza.

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