construção em estilo enxaimel, no interior de Maratá, foi escolhida como cenário principal da obra cinematográfica em execução

“A Colmeia” é um drama que conta a convivência entre os descendentes de imigrantes entre os anos de 1930 e 1940

Cenas internas, gravadas à luz de vela para retratar a realidade da época em que se passa a história do longa, são registradas sem perda de qualidade por câmeras com tecnologia 5K

Desde o inicio do mês, algumas localidades do Vale da Caí se tornaram set de gravações do longa metragem “A Colmeia”, dirigido por Gilson Vargas. O roteiro é inspirado em um esquete teatral com mesmo nome e a história se passa, na maior parte do tempo, em uma casa no estilo enxaimel erguida em 1864 na divisa entre São José do Sul e Maratá. As gravações tiveram início na primeira semana de setembro e devem se estender até este sábado, dia 30. Por dia, a equipe grava, em média, 12 horas. O trabalho é árduo. Folgas, somente aos domingos.

A trama se passa entre os anos 1930 e 1940, e conta a vida de um grupo de imigrantes alemães. Por isso, devem estar evidenciados no filme os costumes, as rezas, a linguagem e a proibição de falar a língua nativa, uma vez que, durante a Segunda Guerra Mundial, essa regra foi instituída no Brasil, que lutou contra Hitler nos campos de batalha da Europa. “O filme trata sobre a convivência humana. São pessoas diferentes, da mesma família”, afirma a produtora Eduarda Nedel. Dentre os oito atores, dois personagens são gêmeos, apenas no enredo, e de sexos opostos. Parte da trama é centrada nos gêmeos adolescentes, antecipa a produtora. Portanto, cenas do cotidiano, como ir à escola, cuidar da lavoura e o serviço doméstico devem ser retratado no longa. “A Colmeia vem disso: como se articulam para sobreviver. E embora se passe nos anos 30 e 40, é uma história atemporal”, aponta Eduarda. O preconceito vivenciado na época pelos imigrantes também deve provocar a reflexão dos espectadores.

Incentivo cultural captado através da Ancine

por vezes, era preciso fechar a rua para realizar as gravações de externas, mas a comunidade colaborou

Até agora, foram gravadas mais de 15 horas de cenas. O diretor Gilson Vargas explica que a concepção do projeto teve início em 2013 e aprovação em edital da Secretaria Estadual da Cultura (Sedac) e Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 2015, com um patrocínio de R$ 500 mil, através do projeto Brasil de Todas as Telas. A distribuição do longa-metragem está prevista para o início de 2018. “Ele foi aprovado no concurso ‘Arranjos Nacionais’ da Ancine com Secretaria Estadual de Cultura RS”, afirma Vargas.

Quanto ao roteiro, o diretor aponta que o longa deve explorar o universo das relações de afeto. São oito personagens em uma casa. “É sobre ausência e fraternidade. Metaforicamente, falamos dos dias de hoje, um mundo difícil de estabelecer limites, de respeito às diferenças”, aponta Gilson. Com forte teor de drama, o diretor coloca na ficção aspectos da vida humana para reflexão. “São conflitos morais, éticos. Onde o ser humano pode chegar quando ele perde a noção do outro”, revela.

Em cena gravada a luz de velas, o diretor Gilson Vargas (de costas) passa orientações ao ator Rafael Franskowiak

O roteiro original foi escrito a seis mãos. O primeiro roteirista foi Jones Camargo, que organizou as esquetes teatrais. “Foram duas, três páginas que deram origem ao roteiro do filme. O Mateus Medeiros Borges também escreveu junto comigo”, aponta Gilson.
O elenco é composto por atores gaúchos, todos com origem no teatro. “Selecionamos pelo tipo físico, germânico, já que se trata de descendentes de alemães na história”, explica o diretor.

O filme todo é rodado com tecnologia 5K, em coprodução com uma empresa carioca que foi contratada para fornecer o maquinário. A edição vai ser feita no estado. Segundo o diretor, hoje há condições de fazer praticamente todas as etapas de um longa metragem em solo gaúcho. “Eu mesmo dou aula na faculdade de cinema da Unisinos. A Gabriela Bervian, que é produtora executiva, se formou lá. A Duda Nedel também, assim como o diretor de fotografia, que inclusive leciona no curso”, destaca.

Atores gaúchos foram escalados para o longa
No elenco, oito atores gaúchos. A passagem pelo teatro também é um traço comum entre eles. O ator Rafael Franskowiak começou a se interessar pelas artes cênicas em 2008, quando deixou São Paulo e a carreira de modelo. E, de lá para cá, ele conta que não parou mais de estudar. Fez cursos no Teatro São Pedro e depois passou a se interessar por cinema. “Já fiz diversos curtas. Esse é o meu primeiro longa, onde podemos explorar os personagens mais a fundo”, diz o ator, que interpreta o personagem Werner.

Para Rafael, a etapa de preparação, com as vivências proporcionadas, auxiliou a compor o personagem. “Nós passamos três noites sem luz, dormindo na casa, para ter a noção de como eles viviam nos anos 30. Cuidamos da roça, tratamos os animais. Depois, na hora de gravar, isso ajudou bastante”, relata o ator.

Pré-produção levou cerca de três meses

diretor Gilson Vargas; diretor de fotografia Bruno Polidoro; produtoras Eduarda Nedel e Deise Chagas

A jovem produtora também revela que a pré-produção durou cerca de três meses. “Temos apoio do Casarão de Antiguidades de Brochier. Ele nos emprestou uma infinidade de objetos para compor o cenário”, destaca Eduarda, apenas para exemplificar um dos diversos apoiadores locais que tornaram possíveis as gravações. “Isso foi muito legal: a receptividade dos empresários locais ao projeto.”

Na região, houve momentos em que foi preciso bloquear ruas, pedir a colaboração da vizinhança com o barulho das máquinas e tratores para que a gravação saísse impecável. “Rolou um entendimento da comunidade. Somos 34 pessoas envolvidas com o projeto, inseridos no ambiente dos moradores, que, via de regra, é de calmaria”, destaca Eduarda, grata pelo apoio.

Equipe técnica do Vale do Caí

A produtora do filme é formada em cinema pela Unisinos e mora em Pareci

Eduarda Nedel conta que fazer cinema “em casa” é uma experiência única. “Tem muita coisa da colonização italiana no cinema, na TV. E, dos alemães, pouquíssimo material. Acho bacana retratar essa história”, aponta Eduarda. Ela também destaca a interação do grupo de 34 pessoas da equipe com o povo local. “Teve uma turma que conheceu a região, foi ao Kerb de Maratá”, aponta.
Para Eduarda, a receptividade da comunidade e também das prefeituras foi vital para o desenvolvimento das gravações. “Pareci comemorou os 193 anos da imigração alemã. Nos chamaram para palestrar nas escolas sobre o filme, foi muito bacana”, aponta. Nessa experiência em sala de aula, uma curiosidade. “Perguntamos quem falava alemão. Uns não sabiam e outros tinham vergonha de dizer. Isso não pode acontecer”, avalia. Já a produtora executiva Gabriela Bervian reside em Harmonia, cidade para onde a equipe se desloca após as gravações.

 

Casa escolhida é de 1864

ROQUE e Jaqueline são proprietários da casa construída por alemães em 1864

A propriedade onde se passa a trama pertence ao casal Roque Wollmann e Jaqueline Gauer Wollmann, que moram em outra área, nas proximidades. A construção data de 1864. “No início, tive a preocupação por ser um grupo grande, mas se mostraram respeitadores com o local, com os pomares”, revela Roque.
A assistente social Jaqueline Wollmann, que nasceu na casa que hoje é set de gravações, conta do orgulho em saber que a velha casa vai estar nos telões mundo afora. “Me criei ali. Me emocionei quando assisti a uma gravação porque falam de algo que faz parte da nossa história”, aponta. O casal agora vive a expectativa de ver ofilme em cartaz. “Eles querem levar o filme pra Alemanha”, aponta Roque. “Vemos a seriedade deles e estamos curiosos pra ver o resultado final”, destaca Jaqueline.

Brasil de todas as Telas
O Programa Brasil de Todas as Telas é considerada a maior e mais importante iniciativa de fomento ao setor audiovisual já desenvolvida no país, com recursos da ordem de R$ 1,2 bilhão, oriundos do Fundo Setorial do Audiovisual. Uma das ações, no eixo que visa fomentar a produção e difusão de conteúdos, busca estimular o desenvolvimento regional da produção brasileira por meio de parcerias com governos municipais e estaduais. Até R$ 95 milhões serão investidos na produção de obras selecionadas por editais de entidades e órgãos públicos de governos estaduais e prefeituras de capitais.

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