Valdeci afirma que nunca quis ofender ou reduzir o papel das mulheres

VEREADOR do PSB disse que assessores do prefeito devem usar vestidos porque “não têm coragem”

“Não adianta culpar os funcionários. Tem gente ainda, tem CC’s que estão indo lá para dentro botar o vereador contra os funcionários, porque eles não têm… eles não usam calça de bolso. Eu acho que deveriam usar vestido, eles não têm coragem de falar a verdade…”

A manifestação é do vereador Valdeci Alves de Castro e ocorreu na quinta-feira passada, dia 6 de junho, quando usou a tribuna da Câmara. Ela faz parte de um discurso em que, mais uma vez, o representante do PSB no Legislativo criticou a Administração Municipal, especialmente os setores encarregados de fazer a manutenção das ruas e das estradas do interior. Ele acredita que o governo não cumprirá o prazo de 60 dias anunciado durante protesto dos agricultores na abertura da safra de citros. Até porque, neste período, devem ser registrados grandes volumes de chuva.

Para o vereador, nenhum trabalho terá resultado se não for acompanhado de uma cobertura de brita ou saibro. Seus principais alvos costumam ser os secretários de Viação e Serviços Urbanos, Jackson Santos de Oliveira; e Ari Arnaldo Müller, do Desenvolvimento Rural. Na quinta, porém, ao sugerir que detentores de cargos de confiança deveriam “usar vestido” porque são pessoas sem coragem, ele passou dos limites.

Em ofício encaminhado à Câmara, a titular da Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), Cleusa Spinatto; e a presidente do Conselho Municipal de Defesa da Mulher (Comdim), Carliane Pinheiro, cobraram providências. Num texto de quatro parágrafos, as duas fazem duras críticas ao vereador, cujo discurso consideraram sexista, retrógrado, atrasado e desrespeitoso. Segundo as autoras, ao sugerir que homens sem coragem devem usar vestidos, Valdeci passa a ideia de que os homens normalmente são superiores.

Cleusa e Carliane também apontam a falta de conexão entre o discurso e a realidade. Lembram que as mulheres se destacam em diversos segmentos da sociedade. No Forum, por exemplo, hoje só há juízas, assim como, no Ministério Público, todos os promotores são do sexo feminino. Recentemente, uma mulher foi nomeada para a chefia de Polícia do Estado e Montenegro possui duas vereadoras na Câmara. “Na medida em que lutamos pela igualdade entre as pessoas, independente de sexo, raça, necessidades especiais ou orientação sexual, o discurso expressa o machismo cultural, que está no cerne da violência contra a mulher e demais grupos vulneráveis”, criticam a delegada e a presidente do Conselho.

No fim do documento, Cleusa e Carliane pedem providências ao presidente da Câmara de Vereadores, Cristiano Braatz (MDB). Ontem, depois de ouvir o advogado Adriano Bergamo, consultor jurídico da Câmara, Braatz determinou o encaminhamento da acusação ao Conselho de Ética. O grupo é presidido pelo vereador Neri de Mello Pena, o Cabelo (PTB), e tem Felipe Kinn da Silva (MDB) como relator. Os demais membros são Erico Velten (PDT), Talis Ferreira (PR), Joel Kerber (Progressistas) e o próprio Valdeci, que deverá se declarar impedido. As punições vão de advertência a cassação de mandato por falta de decoro.

“Eu não soube me expressar”
Antes mesmo de a sessão terminar, Valdeci já havia percebido que “pisou a bola” durante sua passagem pela tribuna. Tanto que pediu desculpas a algumas mulheres que estavam no prédio da Câmara e, no dia seguinte, fez uma retratação em sua página na rede social Facebook. “Por ser um homem humilde, que não tem muito estudo, não domino totalmente a oratória em tribuna”, declarou.

O vereador afirma que jamais quis fazer qualquer tipo de comparação. “Minha intenção foi deixar claro que falta, para muitos homens, a força de vontade, a sinceridade em falar cara a cara e a coragem que as mulheres têm de encarar os problemas da vida”, detalha. “Desde pequeno, sempre aprendi que o homem tem que ser verdadeiro e ter palavra e isto está raro hoje em dia.”

Sobre a abertura de um processo no Conselho de Ética, Valdeci se diz tranquilo. “Não me importo de pedir desculpas se errei. Eu estava bravo e não soube me expressar”, conclui.

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