O que é ser um tradicionalista? Aqui no Rio Grande do Sul, seria andar a cavalo e vestir a bombacha, sempre tendo em mãos a cuia e garrafa, para o mate? Essas são características muito válidas, porém para ser tradicionalista, de verdade, é preciso amar a sua querência. Gostar tanto de frequentar o rancho, antigo e simples, sendo capaz de rodar o mundo, mas sempre ter vontade de retornar. Ser tradicionalista também leva a crer que o sujeito participa de algum grupo que cultiva as tradições gaúchas, os CTGs. E o que dizer então de alguém que foi responsável pela fundação de um deles, ainda na sua adolescência?

Que Flávio Patrício Vargas foi o escolhido para ser o patrono da 15ª Feira do Livro deste ano muita gente já sabe. Mas esse montenegrino, que veio ao mundo no dia 22 de junho de 1940, e que hoje tem 76 anos de idade, já teve muitas conquistas e tem muita história para contar. O compositor, poeta – desde os sete anos escrevendo poemas – e historiador foi o fundador de um dos mais conhecidos centros de Tradições gaúchas do Vale do Caí, o Estância do Montenegro. “Esse feito aconteceu quando eu tinha 17 anos e naquela época eu fui muito descriminado por isso. o tradicionalismo aqui na cidade era tratado em segundo plano. Inclusive, uma vez os padres do colégio São João me fizeram escrever e pensar aquela frase, que dizem ser biblíca: “Diga-me com quem andas e eu te direi que és” ( ditado popular que se refere a passagem no livro de Salmos, capítulo 1, do versículo 1 ao 6). Ou seja, eles não aprovavam que eu andasse com o pessoal que defendias as vestes e as tradições do Estado”, conta.

Depois de percorrer por vários estados do Brasil e até no exterior, Flávio se aposentou e decidiu intercalar a sua vivência entre a Cidade das Artes e o Litoral. Aqui ele tem uma casa de campo, em que costuma passar os feriados e fins de semana. “Sempre fui apaixonado por Montenegro. É minha cidade de origem. Acho que nunca vou vender esta casa”, declara. A pequena propriedade, que fica no final da rua Fernando Ferrari, é herança de sua avó materna e lhe serve de lembrança da vida simples que sempre gostou de ter. A fumaça do velho fogão a lenha, o antigo rádio transmitindo as últimas notícias do Vale do Caí e a companhia da cadela Luna é o que mais agrada aos olhos desse taura, que entre outros, representa a literatura e a história de Montenegro.

Aos 76 anos, Flávio continua defendendo o tradicionalismo e gosta muito de visitar sua propriedade em Montenegro, onde também conta com a companhia de sua cadela Luna

Sempre à procura de mais conhecimento
A dedicação com a poesia e na procura por histórias de Montenegro e do Rio Grande do Sul já completa mais de 40 anos, praticamente uma vida inteira. “Sempre frequentei muitas bibliotecas e museus, além de conversar com poetas e historiadores país a fora”, diz. Em 1966, ele deixou sua terra natal partindo para Passo Fundo. “Fui ser patrão no CTG Lalau Miranda, com 28 anos. Aliás, fui o patrão mais jovem naquela época”, comenta. Ao chegar à nova cidade, ele foi muito bem recebido e conta que lá o tradicionalismo era primeiro plano.
Entre as várias conquistas do montenegrino, ele foi campeão estadual de declamação em Vacaria, em 1984. Teve seu empenho e dedicação reconhecidos pelos organizadores da Feira do Livro do Colégio Álvaro de Morais, em 2008, quando foi nomeado o patrono do evento.
A escolha para ser o patrono
O montenegrino afirma ter ficado surpreso com a escolha e até pensou em recusar o convite. “Sempre escolhem profissionais já reconhecidos, ótimos escritores e que se dedicam a abordar muitos assuntos nacionais e internacionais. Eu sempre defendi o que é daqui, do Estado, e jamais imaginei que seria escolhido. Depois do apoio de tantas pessoas, decidi em aceitar o convite e simplesmente apresentar o que faço da forma que sempre fiz, pois foi assim que me escolheram”, explica. Flávio conta que durante o ano realiza palestras em vários lugares e se sente bem fazendo isso. “É a forma que me sinto valorizado. Eu posso ensinar aos mais jovens tudo aquilo que aprendi. O reconhecimento das escolas, CTGs, entre outros que me chamam para palestrar é muito importante. Me sinto valorizado”, diz.

Tradicionalismo conquistou seu espaço
Só quem já sofreu por tentar defender a sua tradição saberia analisar a situação atual do tratamento com a cultura gaúcha. Além de ser um historiador e de estar sempre pesquisando, Flávio é apaixonado pela tradição gaúcha e afirma que hoje está contente com a valorização da categoria. “Até a ONU (Organização das Nações Unidas) já reconheceu o poder da nossa cultura. Aqui em Montenegro mesmo, já podemos ver as mudanças. Há muitos CTGs e tem muita gente que trabalha nesse meio o ano inteiro, não apenas na Semana Farroupilha”, analisa.

Envolvimento com a comunidade e à literatura
Escolher pessoas que representem a comunidade em um evento importante e tradicional do município de Montenegro não é tarefa fácil. E quem pode comprovar isso é a comissão organizadora da 15ª Feira do Livro de Montenegro e 10ª do Vale do Caí. O tradicionalista Flávio Patrício Vargas foi escolhido para ser patrono e Lylian Ruth Schoellkopf, falecida em 2012, vítima da doença de Alzheimer, como homenageada.

De acordo com Leonardo Appel, diretor de Cultura e um dos componentes do grupo, foi reunida a comissão da Feira do Livro de 2016 para que eles escolhessem a equipe organizadora deste ano. “Levantamos três nomes para patrono e homenageada, durante duas reuniões. Depois, essa sugestão foi levada ao prefeito Luiz Américo Alves Aldana e ele optou pelos nomes”, conta. O critério para a escolha, conforme Appel, é o envolvimento com a Literatura e a comunidade. “Seu Flávio não tem muito histórico literário, mas compensa no conhecimento sobre a história do Tradicionalismo e de Montenegro”, acrescenta.

Lylian Ruth Schoellkopf, a homenageada, atuou como professora na Escola Coronel Álvaro de Moraes, mas é lembrada, principalmente, por ter sido diretora da Biblioteca Pública Municipal Hélio Alves de Oliveira, durante 12 anos e nove meses. “Ela também foi uma das fundadoras da Lei Municipal do Troca-Troca de Livros. Fato importantíssimo para a escolha”, acrescenta o diretor Appel.

Ana Valdeti Martins, atual diretora da Biblioteca, reconhece que o tradicionalista Vargas já havia sido homenageado em outros momentos fora da cidade, mas a intenção era, sobretudo, valorizá-lo aqui, em sua Terra. “Ele é um grande poeta, conhece muito sobre as questões tradicionalistas e devemos homenageá-lo pelos seus méritos, enquanto montenegrino”, enfatiza. “É importante que uma pessoa que dedica o seu tempo à história seja reconhecida pela comunidade onde vive”, conclui a diretora.

Carina Luft, romancista, foi patrona do evento em 2015. “Quando fui escolhida, fiquei muito honrada, porque é um marco absolutamente importante”, afirma. Quanto à escolha deste ano, ela afirma ser muito oportuna e ressalta o multiculturalismo que as comissões vêm fazendo para escolher o representante – ela, como escritora de romance policial; Oscar Bessi Filho, cronista e capitão do 5º Batalhão de Montenegro e Flávio Patrício Vargas, tradicionalista. Personalidades completamente opostas.

“É legal valorizar os montenegrinos, sobretudo uma figura representativa na sociedade cultura de Montenegro, como o Flávio”, explica a escritora. “Ainda que seja uma literatura regionalista, acho válida, pois é um tipo de gênero. E acho que é a oportunidade em que a população diz: Muito obrigada pelo que tu fizeste por nós”, conclui Carina. (LSF)

Flávio pretende lançar um novo livro: “Montenegro: 200 anos de História” até o fim do ano

Flávio está trabalhando em um novo livro
Dessa vez a obra será relacionada ao passado. Flávio conta que o livro se chamará “Montenegro: 200 anos de história”. O trabalho deve conter de 200 a 300 páginas e a pretensão é lançá-lo ainda em 2017. “Gostaria de publicar ele na Feira do Livro. Seria uma honra. Mas como tem todo o trabalho de edição e tem algumas partes que preciso estudar mais, não posso garantir que seja lançado já nesse evento”, diz.
Ele promete expor histórias que aconteceram no município entre 1730, quando houve a chegada dos primeiros estancieiros, até 1930, com o estado novo, de Getúlio Vargas.
“Muita gente não sabe, mas antigamente todo o Extremo Sul do Brasil era a região da Ibiá e ela começa lá onde era Santa Catarina. Essa e outras situações serão explicadas com todos os detalhes que pesquisei”, garante.

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