Destinos nacionais, como Maceió (AL), são favorecidos pela crise e pela alta das moedas estrangeiras foto: Prefeitura de Maceió

Em alta. Um levantamento realizado pelo Jornal Ibiá junto a agências mostra que o setor tem melhorado em 2017

Quem vai dar uma pausa no dia a dia para curtir as férias de inverno já está com as malas praticamente prontas, salvo algum atrasadinho. Já é hora de planejar o momento — e o lugar, principalmente — para curtir sombra e água fresca no verão 2018. Bom, mas e a crise? Sim, todo mundo sentiu o baque, mas é difícil parar depois que se viaja pela primeira vez. Acaba que sempre se dá um jeito, principalmente o brasileiro, PhD em turbulências econômicas e políticas.

Nas agências de turismo locais, o vento sopra a favor. De janeiro até agora, os negócios melhoraram, na comparação com o primeiro semestre do ano passado. Houve, sim, uma mudança de hábitos decorrente da crise. Muita gente que saía do país agora opta pelos inúmeros destinos nacionais. Não faltam motivos: a Associação Brasileira das Agências de Viagem (Abav) acaba de divulgar que o Brasil ocupa o primeiro lugar em um ranking global das passagens aéreas domésticas mais baratas, conforme a pesquisa Flight Price Index 2017.

O levantamento, elaborado pela agência online de viagens Kiwi.com, indica que as empresas nacionais atualmente praticam preços que estão entre os mais vantajosos do mundo. De acordo com a pesquisa, o valor médio pago pelos passageiros em voos domésticos no Brasil é de US$ 3,98 (R$ 13,17) a cada 100 quilômetros.

Em Montenegro, a RST Viagens avalia que este ano tem sido bem mais favorável. Na agência, as vendas melhoraram cerca de 40% neste primeiro semestre, na comparação com igual período do ano passado, segundo o agente de viagens Frederico Georg da Silva. “A procura em busca de informações é praticamente a mesma, mas neste ano o pessoal está ‘fechando’ muito mais. Se percebe que as viagens internacionais foram deixadas mais de lado, abrindo espaço para o crescimento das nacionais”, analisa.

Apesar disso, diz o consultor, a crise por que passa o país não chegou a impactar com força o seleto público que costuma viajar ao Exterior. Neste sentido, Punta Cana, na República Dominicana, e o parque da Disney em Orlando, nos Estados Unidos, são os que despontam. “Notamos que agora, com a liberação do visto americano em Porto Alegre. a tendência é aumentar a procura por destinos nos Estados Unidos”, acrescenta.

Aos pés do Egeu, Santorini é uma das encantadoras ilhas da Grécia, onde grupo de Montenegro esteve dias atrás

Grécia e Turquia no roteiro de montenegrinos
“Morre lentamente quem não viaja”, segundo o poeta Pablo Neruda. Não é o caso da servidora pública aposentada Belkis Beck, 66 anos, que há mais de duas décadas viaja com um grupo de amigas, todas de Montenegro, de uma a duas vezes por ano. Entre o final de maio e o início de junho deste ano, ela conheceu a Grécia (com direito a um cruzeiro pelas principais ilhas) e deu uma “esticada” até a Turquia, onde já havia estado e se encantado. Foram 18 intensos dias com o pé na estrada, mas os preparativos começaram cerca de meio ano antes para que tudo desse certo.

Segundo ela, os descontos oferecidos pelas operadoras de turismo pesam muito na hora de se decidir por uma viagem. “Nesta última, por exemplo, pegamos uma promoção da Turkish Airlines e foi aí que aproveitamos para ir até Istambul, que achei muito interessante, apesar de ser um povo muito ortodoxo e estarem comemorando o Ramadã.”

Quanto à Grécia — riquíssima em história e belezas naturais — Belkis disse que, além de deparar-se com uma surpresa a cada esquina, encontrou um povo muito lutador, receptivo e que, apesar da grave crise, registra índices de violência extremamente baixos, sem contar a alegria das pessoas, que lembra muito a dos brasileiros. “Para quem quiser conhecer as famosas ilhas gregas, recomendo muito um cruzeiro, porque à noite, enquanto você dorme, o navio se desloca de um lugar a outro e, de dia, você aproveita as praias. Já de ferryboat os passeios levam várias horas de um lugar a outro”, enfatiza.

Promoções ajudam a aquecer o setor
O agente de viagens Marcos Vinícius Prestes, da Toa Toa, afirma que houve alguma melhora no mercado em relação ao ano passado e isso se deve principalmente às frequentes promoções das companhias aéreas. “Muita gente nem estava pensando em viajar, mas aí surgem as promoções e o cliente acaba aproveitando dentro das datas que tem disponível. Isso deu uma boa aquecida nos negócios.”

Conforme ele, o montenegrino curte pegar o avião rumo às praias nordestinas, mas o Rio de Janeiro é bem procurado. Isso com relação aos voos domésticos, porque a clientela local também procura pacotes internacionais. Aí, Europa (destaque para Portugal, Espanha e França), destinos caribenhos (Cancun e San Andrés, por exemplo) e viagens em navios de cruzeiro são as preferências do viajante oriundo da Cidade das Artes.

Com moedas estrangeiras em alta, o cenário está um pouco desfavorável para quem busca outro país. Ninguém deixa de viajar por isso, diz Vinícius, até porque a preparação começa normalmente de um ano a seis meses antes do embarque. “As pessoas pagam os pacotes pela cotação quando se fecha o negócio, mas não sabem como estará o câmbio quando embarcarem, por isso vão se organizando neste sentido”, constata.

De um lado, a redução dos valores e a facilidade de pagamento têm permitido que mais pessoas viajem, mas de outro tirou a “magia” que havia outrora em torno do projeto de viajar a outro país. “São poucos que dizem estar realizando um sonho. Era mais complicado e mais caro, mas nos últimos anos tudo ficou mais fácil e mais barato. Pode-se parcelar em até 10 vezes”, diz o agente.

Para o segundo semestre deste ano, a expectativa da agência é de mais crescimento em função das festas de final de ano e das férias de verão. “A procura está boa, mas a tendência é aumentar daqui para frente.” Segundo ele, o turista organizado começa a cotar preços desde agora, até porque isso garante valores mais baixos. Os atrasadinhos, que deixam para novembro ou dezembro, sempre aparecem, mas precisam pagar um tanto a mais.

O sucesso do litoral nordestino
A alta de moedas estrangeiras ante o real, sobretudo o dólar e o euro, prejudicam não apenas a venda de pacotes internacionais, como também encarecem as despesas do turista no Exterior, afirma Frederico, da RST. É mais um aspecto que favorece os passeios pelo Brasil e, neste sentido, os turistas montenegrinos só querem saber de praia. A grande maioria embarca no aeroporto Salgado Filho para refrescar-se no litoral nordestino. Porto Seguro, a preferida dos jovens, e Maceió, mais adequada a famílias, são as cidades mais procuradas. “Mas o Rio de Janeiro, por ser mais perto e um pouco mais em conta, é a preferida de quem está viajando pela primeira vez”, salienta o agente de viagens.

A expectativa dele é de um segundo semestre ainda melhor, já que a partir de agora os clientes começam a organizar as férias de verão. As de inverno, a esta altura do campeonato, já não chamam muito a atenção, exceto de um ou outro retardatário. De novo, a expectativa é de que a procura predominante seja o Nordeste.

O Sítio Steffen, em Vapor Velho, é um dos atrativos da Rota Saberes e Sabores do Vale do Caí e uma excelente opção de lazer foto: Rota Saberes e Sabores/Divulgação

“Ninguém deixou de viajar por causa da crise”
Especializada em turismo regional, a agente de viagens e turismo Andrisa Mariano, diretora da Belo Sul Viagens, afirma que a crise por que passa o país impactou o setor de turismo, mas acredita que ninguém deixou de viajar. Apenas adequou o destino e as despesas à nova situação do orçamento doméstico. “Percebo que a procura por destinos mais regionais têm tendência de aumentar”, destaca. Confira mais detalhes na entrevista a seguir:

Você trabalha principalmente com turismo receptivo. Neste contexto, se comparar o primeiro deste ano com o primeiro semestre de 2016, percebe alguma melhora na procura?
Andrisa – Não percebo grandes mudanças de 2016 para 2017. As pessoas seguem viajando, só que para destinos mais em conta. Percebo que o receptivo teve aumento de procura este ano. A Belo Sul, por ser uma empresa com pacotes mais regionais e sul do Brasil, percebe que estes destinos são mais procurados. Praticamente não procuram destinos nacionais.

Com relação ao segundo semestre deste ano, qual é a tendência? Por quê?
Acredito que melhore. Percebo uma procura por destinos mais regionais com tendência de aumentar. As pessoas não deixaram de viajar. Só estão procurando destinos que se adaptam ao seu bolso.

Em sua opinião, quais os principais fatores que levam os visitantes de fora a procurar os destinos turísticos da região? E quais são os mais procurados e por quê?
A gastronomia, o conhecimento da lida, a proximidade com a Capital e a região serrana, produtos orgânicos, flores, frutos, cachaçaria, cervejaria. Os mais procurados hoje são as propriedades da Rota Caminho das Velhas Colônias e Rota Sabores e Saberes do Vale do Caí, além das festas, como as que estão por vir: Festa Nacional do Morango, de Bom Princípio, e Oktoberfest de Maratá. Geralmente ocorrem visitas em um turno, e no outro, festa.

Você acredita que o turismo do Vale do Caí tem potencial de crescimento? Como fortalecer essa atividade na região?
Andrisa — O Turismo, embora muitos chamem de indústria sem chaminé, não é indústria, mas prestação de serviços. Tem um bom potencial a ser explorado ainda, mas para fazermos o turismo sustentável e investimentos no meio, fortalecendo o destino Vale do Caí e a marca Vale da Felicidade, precisamos de mais pessoas para o atendimento receptivo, treinamento, sinalização, material de divulgação e manutenção das estradas. Muitas delas são acessos secundários. Pelo nosso turismo ser rural em sua maioria, é preciso constantemente manutenção e monitoramento [das estradas]. Também não temos um site oficial. Falta mídia digital e mais acesso nas redes sociais. Temos apenas um Face da região, que é da Governança Regional de Turismo, porém mais com assuntos institucionais.

Pelas suas experiências, é possível afirmar que os montenegrinos têm viajado mais, se compararmos com a primeira metade de 2016?
Andrisa — Neste ano, neste primeiro semestre, não vi mudanças. Na minha empresa, está estável. O que está acontecendo é mais concorrência. As pessoas, por valor, não estão se importando muito por qualidade de serviços. Vejo que esta preocupação diminui padrões de hotéis, por exemplo. Antes, a exigência era maior.

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