Histórica paralisação de maio do ano passado parou o País e forçou negociação do governo. As “conquistas”, no entanto, seguem incertas. FOTO: ARQUIVO/JORNAL IBIÁ

Recentes reajustes no preço do diesel têm tornado a situação complicada para muitos motoristas

Em janeiro, acabou o subsídio negociado pelos caminhoneiros, durante a paralisação de maio do ano passado, para o preço do diesel. O valor do combustível voltou a passar por reajustes e, em comparação com o último preço de 2018, já tinha subido 18,5% nas refinarias até a semana passada – um reflexo da escalada nos preços internacionais.

Ainda sem conseguir fazer valer a tabela com o preço mínimo do frete – algo que também foi negociado pelo movimento – e com os custos aumentando, muitos motoristas têm visto a situação como insustentável. Com as tensões esquentando, boatos sobre uma nova greve começaram a surgir nas redes sociais.

No Paraná e em São Paulo, carreatas chegaram a ocorrer no último domingo, quase como um alerta para a possibilidade de uma nova parada. Lideranças locais e a própria Associação Brasileira dos Caminhoneiros (Abcam), no entanto, avaliam que, apesar da situação atual, uma paralisação nos moldes da que ocorreu no ano passado não está no horizonte.

“Na nossa região, ninguém vai fazer nada”, afirma José Alexandre Flores, o Sarito, um dos líderes da paralisação de 2018 em São Sebastião do Caí. “Isso mais é fake news.”

Em nota, a Abcam informou que, apesar da grande insatisfação, não encontrou nenhum sinal de organização com o objetivo de realizar uma nova parada – a qual classificou como “traumática”. A entidade foi uma das principais representantes dos motoristas autônomos nas negociações com o Governo Federal no ano passado. Ela adicionou que conta com o diálogo e a aproximação com os governantes para que a situação atual seja contornada.

O caminhoneiro João Rosa, um dos líderes das manifestações em Montenegro, também confirma o posicionamento. Ele conta que existe uma rede de contato entre as lideranças do movimento; e que chegou a contatá-los quando os primeiros boatos sobre uma possível paralisação começaram a circular nos últimos dias. “Isso tem muita coisa política, muita massa de manobra junto. Tem bastante especulação, mas agora não é o momento (de nova greve)”, ressalta.

O consenso é esperar maiores sinalizações favoráveis de Brasília. O presidente Jair Bolsonaro chegou a divulgar um vídeo no Twitter para falar sobre a situação. Disse que respeita os caminhoneiros e que medidas estão sendo tomadas. A Petrobrás também – mesmo negando inerência política na decisão – divulgou portaria que alterou a política de reajustes do valor do diesel, que passa a ocorrer em periodicidade superior a quinze dias.

A estatal também anunciou que está desenvolvendo – para entregar em até 90 dias – um “cartão-caminhoneiro”. Esse seria um cartão pré-pago para a compra do diesel, onde os motoristas poderiam fazer a compra do combustível para toda uma viagem, antes que ocorresse o reajuste e o custo do frete aumentasse.

Recentes medidas ainda pouco agradam
O caminhoneiro João Rosa avalia que, mesmo com reajustes mais longos um do outro, o atual valor em que o diesel chegou já traz prejuízos. “Nós estamos, de novo, no mesmo patamar que no ano passado, de quando a gente parou”, lamenta. Ele aponta que o setor todo está muito parado. Há pouca carga para transportar e baixo preço pago pelo frete, dada a falta de fiscalização para que as empresas cumpram com a atual tabela do preço mínimo.

O anunciado “cartão-caminhoneiro”, para ele, também pouco agrada. “Isso não funciona. Hoje, a gente trabalha em cima de carta-frete, em cima de depósitos, e não tem como pagar o diesel, assim, antecipado”, indica. “Tem vezes até que a gente deixa de botar o diesel no tanque para conseguir pagar nossas contas.”

João avalia que este é um momento de crise no País como um todo, e não só da categoria, e reconhece que é preciso paciência. “A gente também não pode crucificar um governo que faz só 100 dias que está no comando e querer que se resolva muito. A nossa alternativa é aguentar agora”, opina.

A Abcam espera, para esta quinzena, a divulgação de um estudo realizado pela Universidade de São Paulo (USP) sobre uma nova metodologia para a tabela de fretes, que seja mais justa a motoristas e contratantes. Se posta em prática, é esperado que ela ajude a chegar em um consenso que estimule o respeito ao preço mínimo.

Apesar do tom apaziguador, João Rosa alerta que a categoria está atenta às movimentações e à espera de mais agilidade dos governantes. “Penso que, se for para fazer alguma coisa, seria uma parada de 36 horas. Seria para dizer, ‘ó, se vocês não tomarem uma providência, aí nós vamos tomar uma atitude’. Um paradão para deixar só carro, ônibus e ambulância passar e, do mais, segurar tudo”, revela. “Mas nada concreto. Agora, não é o momento”.

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