MARGARIDA e Elcy deram atenção também ao túmulo desconhecido ao lado da família da idosa

Finados. Famílias limpam e consertam túmulos nos cemitérios como forma de honrar a memória dos que se foram

É tradição em Montenegro. A semana que antecede ao feriado de Finados, dia 2 de novembro, é de muito movimento nos cemitérios. Familiares lavam, consertam e decoram os túmulos dos entes queridos com muitas flores e vasos novos. Pedreiros e marmorarias também têm trabalho extra para deixar os espaços mais bonitos, em uma verdadeira homenagem àqueles que se foram.

O casal Vera Regina Marchini, 64 anos, e Umberto Antônio Marchini, 71, veio de Imbé para visitar o jazigo da família. Ao lado da irmã Maria Luiza Nunes Dreher, 61, recordaram a árvore genealógica que ali jaz. O primeiro sepultado foi o bisavó Carlos Martin Müller em 1932, depois veio a bisavó Wilhelmina Schilling. “Hoje a gente ainda sabe”, referiu Vera, após recordar os oito familiares enterrados.

A filha tem essa informação, todavia o casal acredita que netos ou bisnetos em breve deixarão perder esse conhecimento a respeito de suas raízes. E o zelo dispensado ontem pelo trio tem ainda um motivo extra, pois aquele também será o espaço de seu descanso final. “Aqui é o meu lugar para ser enterrado”, brincou Umberto, apontando uma das lajes sem identificação.

Ir ao cemitério é também um ato de respeito. Na tarde de segunda-feira, Margarida Martinazzo, 48, não se limitou a ajudar a amiga Elcy Dias de Lima. Assim que sobrou um tempo, pintou os vasinhos do túmulo ao lado. Chamou atenção estar ali outro de sobrenome Lima, apesar de não conhecerem. “Todos são filhos de Deus”, declarou, ao observar que a sepultura não estava com bom aspecto. Já Elcy, 70, caprichava com as flores para os pais Francelino e Alvina Lima; e os irmãos Elisabethe e Alexandre Dias de Lima.

Logo ao lado, pedreiros mexiam em um jazigo e outros familiares cuidavam de um pequeno túmulo. Dois corredores acima, Rejane e Tadeu Boos acompanhavam a mãe dela, Nelci Kerber, de 84 anos. Com carinho lavaram o mármore marrom da sepultura do falecido Aloys Kerber. A idosa fez questão de encher a sepultura do marido com flores, para que sexta-feira os familiares encontrem o espaço bem cuidado.

COVEIRO há 23 anos, Marco vê desinteresse no cemitério nos últimos anos

Tradição começa a enfraquecer
Apesar deste movimento observado pela reportagem, os trabalhadores que estavam ontem no Cemitério de Montenegro (Municipal, Católico e Luterano) afirmaram que a reverência aos mortos está enfraquecendo. Sob o sol daquela manhã, Marco Aurélio Kerber, 57 anos de vida e 23 como coveiro, reparava uma sepultura. Ele tem trabalho o ano todo, mas no mês de outubro cresce a procura.

Por outro lado, afirma que há 10 anos essa demanda era de 50 encomendas para Finados; e em 2018 não passará de 20. Marco acredita que os jovens não dão mais valor a essa homenagem. “E tem a questão da segurança. Muita gente deixa de vir por causa da segurança (dentro do cemitério)”, alerta. O cenário foi confirmado em seguida pelos marmoristas Ivan Hansen e Varlei Reidel, que refaziam um jazigo em outra quadra.

Apenas nesta semana serão quatro obras, fechando um total de 10 para Finados. Ainda assim, Ivan projeta uma queda de 20% na demanda, observando que quem ainda se preocupa é a geração com mais de 50 anos. Jovens na faixa etária dos 20 aos 30 passam a frequentar cemitério apenas se pais ou irmãos morrerem cedo; ou ainda perderem um filho. “Enquanto alguém nunca perder alguém da família não vem”, ajuda Varlei.

Os sócios na Marmoraria Montenegro têm encomendas no ano todo, com aumento no Finados, seguido de Natal, Dia das Mães e Dia dos Pais. “Dá muita colocação de identificação. Nome com datas”, explica Ivan. Um projeto como aquele que realizam, de revestimento em mármore nas laterais, piso do entorno, cabeceira com dois vasos fixos e duas placas custa R$ 4 mil.

VARLEI e Ivan observam que jovens não costumam visitar os túmulos dos mortos mais distantes e nem as pessoas falecidas há muito tempo

Flores são vendidas na rua
Os ambulantes e agricultores autorizados a vender flores e arranjos em frente ao Cemitério de Montenegro chegaram cedo em 2018. Aproveitam o movimento de familiares limpando túmulos. Nesta segunda-feira, 29, já haviam vários no lado externo. A oferta de flores ainda era tímida, mas hoje e amanhã o estoque será reforçado além de, ao menos, mais três bancas serem instaladas.

Todavia, a família Silva, que há 39 anos vende no portão da área Católica, não projeta grandes vendas. Iedo Júnior observa que o preço do Crisântemo aumentou, mas eles não poderão repassar ao consumidor. Isso porque em 2016 a banca observou uma queda de 1.200 para 800 vasos, e a expectativa é que continue caindo. Iedo acredita que, além da atual crise, existe um desinteresse das pessoas pela tradicional homenagem. Ainda mais que neste ano o feriado cairá na sexta-feira.

Neste ano, a Secretaria de Desenvolvimento Rural emitiu duas autorizações para venda feita por produtores rurais. De acordo com a Secretaria Municipal de Indústria e Comércio (SMIC), há cerca de 185 ambulantes registrados em Montenegro, todavia, o órgão não especificou quantos são para venda de flores. Não haverá tabelamento de preços, que, segundo a Prefeitura, “devem ser regulado pela livre iniciativa da lei da oferta e procura”. Os cemitérios existentes nas localidades do interior não sofrem um controle da Prefeitura.

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