Desemprego. Sem carteira assinada, trabalhadores encontram alternativas e empreendem, mesmo na informalidade

Apesar de aparentar alguma melhora nos últimos meses, a economia brasileira ainda está muito aquém do período tranquilo vivido há alguns anos. E um dos aspectos mais cruéis dessa realidade é o desemprego. Saímos do chamado período de “pleno emprego” de 2013 para taxas de 12% de desocupação em 2017. O Rio Grande do Sul tem índices um pouco inferiores – como é tradicional nos estados da região Sul – na casa dos 8%, mas ganhou 107 mil novos desempregados no último ano, um dado assustador.

Quando o desemprego vem, o seguro não basta para pagar as contas, as parcelas já estão para cessar e o trabalhador ainda não tem boas perspectivas de se recolocar no mercado. Resta procurar saídas alternativas. Ficar de braços cruzados esperando a maré virar não é do estilo do batalhador povo brasileiro. Na falta de vagas registradas, ele encontra outras maneiras de sustentar honestamente sua família.

Assim nasce o chamado empreendedorismo de necessidade. São brasileiros e brasileiras que não pretendiam abrir negócios próprios, mas, na falta de um emprego formal, encontraram as mais diversas saídas. Não é a forma ideal, mas especialistas no assunto costumam dizer que a crise é uma ótima oportunidade para empreender. Muitos desses “jeitinhos para superar o mau momento” podem se transformar em microempresas legalizadas. Conheça algumas histórias de montenegrinos que estão “se virando” para deixar a crise bem longe do seu orçamento.

Juliano Gerhardt da Rocha faz chocolates para vender e tirar seu sustento

O doce lucro dos chocolates
Juliano Gerhardt da Rocha, de 24 anos, atualmente ganha a vida fabricando e vendendo chocolates. Nas horas vagas, ainda vende cosméticos. Quando ele relata a rotina, é difícil imaginar que ainda sobra alguma hora livre. Até janeiro deste ano, Juliano trabalhava na JBS, no setor de qualidade. Estudando Administração e sem oportunidades nessa área, saiu da empresa e, junto da esposa, Cíntia dos Santos Soares, passou a viver unicamente de uma renda que antes era “extra”. Apesar de muito satisfeito com o resultado que os chocolates trazem, ele não nega que, quando surgir uma oportunidade na área de Administração com carteira assinada, irá aceitar. Enquanto isso, segue com foco no estudo e nos chocolates.

Juliano aprendeu a trabalhar com chocolates pelas mãos do instrutor de danças tradicionalistas do grupo de que participava, de Portão. “Ele é confeiteiro e eu me inspirei. Em conversas, ele me disse que se eu quisesse ser algo na vida, chegar a algum lugar, teria de fazer algo mais, ir além. E eu comecei com os chocolates ainda empregado”, conta. O “lugar” aonde Juliano quer chegar é na abertura de sua empresa, que possivelmente será na área da alimentação, com legalização, local adequado e maquinário apropriado.

Por enquanto, ele faz seus chocolates na cozinha de casa mesmo. A produção ocorre à noite e com muitos cuidados com a higiene. “Para manter o cliente, ele tem sempre que receber um produto bom”, relata, mostrando luvas e toucas utilizadas. Durante o ano, vende trufas, que são comercializadas por quatro pessoas aqui em Montenegro, Garibaldi e Capela de Santana. A cada final de semana, faz pelo menos 500 unidades. Assim, consegue uma renda satisfatória. “O valor das vendas que eu faço, em lugares que já frequento e as pessoas conhecem o produto, uso pra comprar material novo e fazer mais chocolates. E o dos outros vendedores, tirando a parte deles, é lucro limpo”, relata.

Agora para a Páscoa, Juliano produz ovos tradicionais, ovos de colher e trufados. “Ano passado, já fiz um pouco, tive procura mesmo sem divulgar. Então esse ano me preparei pra Páscoa e até comprei a máquina pra aceitar cartão, o que aumenta muito as vendas”, conta. A linha de produção está pronta para fazer as cascas dos ovos e os recheios. Tudo para ninguém ficar sem Páscoa em 2017 e Juliano lucrar com a data. (CO)

Alessandra de Mello, 27 anos, vende adesivos de unhas para ajudar nas despesas da casa e, principalmente, garantir o sustento da filha pequena

Decoração de unhas e faxinas garantem renda a Alessandra
Ficar desempregado pode parecer o fim do mundo, mas sempre há esperanças para complementar a renda. Por a mão na massa nessas horas é fundamental – e ter criatividade também. As oportunidades de serviço geralmente aparecem quando e de onde menos se espera. Um vizinho pode estar precisando de alguém que cuide do filho enquanto trabalha, ou algum outro de um corte de grama. E assim vai sendo tecida a teia de oportunidades.
Alessandra de Mello, 27 anos, abraçou todas as chances de trabalho informal que foram aparecendo desde que está desempregada, há aproximadamente oito meses. Enquanto era estudante de Pedagogia, trabalhava como estagiária em escolas e projetos da cidade.

Porém, com a necessidade de trancar o curso e por motivos pessoais, teve que se desligar do emprego e da renda que tanto contribuía para o sustento da casa. Ela mora juntamente com o marido e a filha de três anos.

“Após me desligar do estágio, eu fiz um curso de decoração de unhas e tive a ideia de produzir artesanalmente adesivos para vender”, explica.

Hoje, de acordo com Alessandra, nos meses de melhores vendas, chega a arrecadar R$ 500,00. Organizada, possui caderno para contabilizar ganhos e gastos e já conta com o auxílio de oito revendedoras.

“Eu prefiro trabalhar em casa porque consigo conciliar todas as tarefas e tirar um bom valor de renda. É só organizar bem os horários do dia que dá para fazer tudo”, afirma. Alessandra ainda cuida da filha de um vizinho, no período da noite, e eventualmente faz faxinas, atividades que também a ajudam a manter em dia as contas da família. (JC)

Richard trabalha em três funções diferentes para manter os gastos com a casa e as mensalidades da faculdade em dia. A esposa também ajuda muito

Richard trabalha e tem fé
Nem sempre ter um emprego com carteira assinada é a solução de todos os problemas. Lógico que, com os seus direitos trabalhistas garantidos e uma remuneração confirmada mensalmente, é muito mais fácil organizar as contas, porém há muita gente que precisa ter mais do que um emprego para manter tudo em dia. Esse é o caso do estudante Richard Ramos, de 23 anos. Há cerca de três meses, sua esposa Jennifer Machado ficou desempregada e, para assegurar opagamento das despesas, ambos tiveram que procurar uma alternativa. “Eu tenho o meu emprego. Tenho carteira assinada. Mas se não fossem os ‘bicos’ que a gente faz por fora, não conseguiríamos manter tudo em dia”, diz.

O casal mora junto e, além dos gastos na casa, tem a faculdade. Haja dinheiro para tantos compromissos. “Trabalho diariamente com a instalação de alarmes e câmeras. São oito horas, de segunda a sexta. Nos fins de semana, faço a limpeza de piscinas”, explica. Como já realiza esse trabalho há cerca de três anos, o jovem tem clientes certos e consegue tirar daí a mensalidade da faculdade.

Quando a esposa perdeu o emprego, o casal teve de pensar em outra forma de ganhar mais dinheiro. “Comecei a trabalhar na sexta e no sábado como entregador de pizza e agora já estou até auxiliando na cozinha. Minha esposa conseguiu um ‘bico’ na mesma pizzaria e trabalha no atendimento de pedidos por telefone. Mesmo sem a carteira assinada é bom, porque ela já tira um bom salário e assim conseguimos manter todas as contas em dia”, explica.

Richard, que faz Licenciatura em Matemática, está contente com o presente e projeta um futuro edificante para a vida do casal. “Graças a Deus, não nos faltou nada nesse período de dificuldade que tivemos até arranjar estes bicos”, assegura. “Temos certeza de que Deus tem um futuro maravilhoso preparado para nós e, por isso, trabalhamos com dedicação todos os dias. O emprego de carteira assinada dá uma garantia, mas se não fosse estes ‘bicos’ ficaria difícil manter tudo em ordem”, sublinha.

Para quem ainda não tem um trabalho formal, Richard recomenda que não desista, pois tudo vem na hora certa. “É só ter fé e se esforçar bastante, procurando, se qualificando e entregando currículos, que vai acontecer”, declara. (CP)

BÁRBARA e Maria hoje sobrevivem com a venda de almoços e lanches

“Só não trabalha quem não quer”
Ficar desempregado não é fácil, mas sempre há uma saída. Mara de Oliveira, 45 anos; Bárbara Souza Fauth, 30 anos; Marlon de Oliveira Silva, 28 anos; e Murilo Silva Souza, de quatro anos, são a prova disso. A família, tirando o pequeno Murilo, é claro, por ser muito novo, comercializa almoço em viandas e lanches durante a semana. As refeições eram entregues, anteriormente, por Marlon, mas agora ele foi contratado por uma empresa e deixará o serviço ao encargo da mãe, Mara.

A história é a seguinte: Mara e Bárbara trabalhavam em uma lancheria, no bairro Timbaúva, como funcionárias. O empreendimento não conseguiu se manter e fechou as portas. As duas, que antes eram sogra e nora, alugaram o espaço, mas não tiveram dinheiro suficiente para pagar o aluguel, que custava R$ 2 mil, e mais a luz, em torno de R$ 1.000,00. Em janeiro deste ano, resolveram trabalhar em casa, com suas entregas de almoços e lanches para a clientela. “Essa transição da lancheria para a nossa casa não nos deu prejuízo. Mantivemos nossos clientes fixos e acabamos conquistando outros”, conta Mara, a “chefe” do negócio.

Por semana, a família obtém cerca de R$ 1.000,00 para adquirir os insumos necessários: recipientes, alimentos e gasolina para a tele. “Hoje, nós temos, em média, 30 clientes fixos. Mas só atingiremos nossa expectativa quando chegarmos nos 50”, pondera Bárbara. “Para conseguirmos atender ao nosso público direto da nossa casa, tivemos que construir um anexo e estruturar uma cozinha, com chapa e eletrodomésticos maiores, conforme a demanda exigiu”, completou Mara, reconhecendo que o processo foi “no sufoco”.

No início, surgiram obstáculos, mas não o suficiente para acabar com a força de vontade das parceiras. “Passamos por muitos ‘perrengues’ danados. Não é fácil administrar um negócio. Tem a parte de satisfazer o cliente, de cuidar das finanças, os filhos, os netos”, explica Mara. “Mas, para nós, nada foi tão forte que nos levasse a desistir da luta”, frisa.

O preparo das refeições é feito das 7h30min até as 14h. Lá pelas 17h, vêm os lanches. “O que não se pode fazer é desistir. Somos a prova de que nem sempre haverá clientes de montão. Têm vezes que ninguém quer, outras temos de correr porque não damos conta”, conclui Bárbara. Para elas, só não trabalha quem não quer. (LSF)

Empreendedorismo em destaque em 2017, segundo o Sebrae
Negócios Digitais: cada vez mais em alta, são atividades que dependem de trabalho e talento individuais e de uma boa ideia. Na maior parte das vezes, o investimento é baixo.
Franquias: modelo de negócio que vem crescendo no mundo todo. Há os que exigem baixo investimento e os que custam alto valor. Nesse tipo de negócio o empreendedor se arrisca menos, afinal não testa uma ideia e apenas se junta a uma marca.

Alimentação: é sempre uma área bacana de empreender. Afinal, comer sempre será uma necessidade. Quentinhas, doces ou alimentação saudável, o importante é encontrar um mercado carente, com clientes disponíveis e oferecer algum diferencial. Seja criativo. Os food trucks estão aí, provando que sempre é possível fazer diferente.

Beleza: é uma área que demora a sentir a crise e se recupera rápido. Afinal, sempre que sobra um dinheirinho, os cuidados com a aparência costumam atrair os brasileiros.
Customização: na crise, tenta-se reaproveitar o usado para não comprar algo novo. E isso é uma baita oportunidade. Já pensou em customizar peças de roupa ou acessórios?

Mas atenção: 
Para empreender com sucesso, não basta ter vontade. É preciso conseguir oferecer um serviço eficiente. Escolha atividades nas quais você tenha formação, talento e as capacitações necessárias. E não se esqueça da legalização. Por meio da abertura de uma Microempresa Individual (MEI) o empreendedor obtém uma série de vantagens.

Deixe seu comentário