Na busca por espaço no mercado de trabalho e autonomia financeira, a maternidade deixa de ser uma prioridade na vida da população feminina

Se antigamente era comum se tornar mãe ainda jovem, hoje a maternidade parece estar mais longe das prioridades de muitas mulheres. Em 2005, quase um terço (30,9%) dos nascimentos eram de bebês filhos de mulheres entre 20 e 24 anos. Agora, esse percentual foi reduzido em cinco pontos percentuais. Por outro lado, foi observado em 2015 um aumento da participação dos nascimentos em mães com 30 a 34 anos (20,3%) e de 35 a 39 anos (10,5%).

Encarar a maternidade na sociedade pós-moderna se tornou bem mais complexo que há alguns anos, quando o papel da mulher se restringia, em grande parte, aos afazeres domésticos. Com os direitos adquiridos ao longo das últimas décadas, gradativamente elas ganham espaço no mercado de trabalho, conquistam formação profissional e enxergam a gravidez como uma questão de escolha. O sociólogo e professor da Ulbra, Alceu Escobar, explica que esse novo comportamento se deu principalmente a partir da industrialização.

“Antes, o filho, que estava no meio agrário, era visto como mão de obra [lucro], porém, depois desse processo histórico, especificamente na sociedade moderna e pós-moderna, ele perde essa função social de aspecto econômico e passa a ser uma despesa muito grande.”

Com o passar do tempo, outros desafios foram surgimento dando espaço para algumas transformações sociais. “Para ingressar no ambiente de trabalho com o avanço da tecnologia, as mulheres acabam precisando ter muito preparo intelectual. Ter filhos durante o período de profissionalização acaba atrapalhando em alguns casos e isso reflete no adiamento da maternidade”, complementa o professor.

Conforme o IBGE, mulheres com curso superior ganham apenas 75% do salário dos homens com o mesmo cargo e, apesar da diferença, elas ocupam cada vez mais espaço no mundo corporativo. Já são 48% do mercado de trabalho, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Foi o que aconteceu com a advogada Ariane de Azevedo Cunha, 34, que priorizou a formação e a estabilidade, deixando a maternidade em segundo plano. “Queria para depois dos 35, mas o bebê acabou vindo antes”, conta. “Eu e meu marido estamos juntos há 16 anos, nos formamos na mesma época. No ano seguinte, casamos e logo engravidei”. Hoje Ariane divide a vida entre o ofício da advocacia e os prazeres de cuidar do pequeno Artur. “Acho que ele veio no momento certo”.

Independência econômica e emancipação feminina
O sociólogo Alceu Escobar explica que no sistema capitalista, a questão da independência da mulher está diretamente ligada com o poder econômico que ela exerce. Por isso, aos poucos, elas estão ocupando esses lugares. “A igualdade de gênero obriga tanto o homem quanto a mulher a irem para o mercado de trabalho. Dessa forma, para ter independência, ela precisa ter dinheiro, ou seja, ela é obrigada a ir para o ambiente corporativo se quiser ter liberdade, caso contrário, acaba por se submeter a alguém para sustentá-la”, sublinha o professor.

Ariane de Azevedo Cunha, hoje advogada, priorizou a formação profissional para depois se tornar mãe do pequeno Artur. foto: arquivo pessoal

Foi no intuito de buscar essa autonomia, que Ariane de Azevedo Cunha não mediu esforços, mesmo quando estava grávida. “Eu trabalhei até o último dia”, diz a advogada. Quando questionada sobre a nova rotina entre trabalho, casa e maternidade, ela afirma que é desafiador, mas tem suas recompensas. “Digamos que é um pouco cansativo, mas um cansativo cheio de amor”, declara Ariane. “É maravilhoso chegar em casa e poder curtir o meu filho”.

Para a gerente administrativa Andréia Madalena de Souza, que completa 40 anos no próximo mês e está na segunda gestação, a escolha pela maternidade tardia por ela e seu ciclo de amigas não está ligada apenas às questões econômicas.

“Vejo muitas amigas com mais de 35 anos querendo engravidar pela primeira vez e acho que não é só pela questão financeira. Tem também a questão emocional, uma vez que ter um filho requer uma mãe emocionalmente equilibrada, e quando somos mais jovens, as inseguranças e as angústias são muito maiores”, destaca Andréia.

Pressões sociais e a estigmatização das mulheres
Com as grandes conquistas, outros desafios também surgiram, acompanhando as transformações sociais na vida das mulheres: saber lidar com a jornada de trabalho duplicada, por exemplo. A psicóloga Milena Bitencourt comenta que a mulher sofre os mais variados tipos de pressão e culpabilização.
“Tenho recebido mulheres no consultório com transtornos de ansiedade, onde a queixa principal é como lidar com os diversos papéis atribuídos a elas (mulher, esposa, mãe, profissional, entre outros)”, observa Milena. Além disso, também há as exigências de ser aquela pessoa perfeita, que consegue desempenhar com excelência todas essas funções ao mesmo tempo e ainda ter um corpo e cabelo perfeitos, sem esquecer o bom humor. “É algo totalmente irreal e inatingível”, aponta a profissional.

Para conciliar a maternidade e a vida profissional de forma saudável, a psicóloga explica que é necessário que as mulheres tomem alguns cuidados. “Quando se aceita que jamais será possível ser esta pessoa perfeita (que dá conta de absolutamente tudo), aí, sim, é possível conciliar todos os papéis, dedicando tempo a cada um deles, e consciente de que uma pessoa normal irá falhar em algum momento, e tudo bem falhar” orienta Miliena.
Outra grande imposição que cotidianamente as mulheres enfrentam é em relação ao preconceito quanto a adiar a gravidez e colocar projetos profissionais como prioridade, como aconteceu com Ariane de Azevedo Cunha. “Ouvia de tudo, tanto pessoas que diziam que eu estava certa, quanto outras afirmando que não deveria esperar tanto tempo para ser mãe”, relata Ariane. “Isso incomodava um pouco.”

Entre as mulheres que simplesmente abriram mão da maternidade, o preconceito é ainda maior, e encarado por grande parte da sociedade como uma decisão radical, o que, para a psicóloga, deve ser revisto. “Muitas mulheres conseguiram, pela primeira vez, ter voz ativa para decidir ter ou não filhos, mas não por necessariamente não conseguirem conciliar vida profissional e maternidade, e sim por não ter o desejo real de serem mães. Para estas mulheres, o maior desafio é lidar com a pressão da sociedade, que julga a todos o tempo todo”, comenta Miliena. “A melhor forma de lidar com isso será pessoal, mas buscando se fortalecer, seja com pessoas que passaram pela mesma situação, seja buscando informações, seja com terapia. É um caminho que poderá ajudar.”

Existe hora certa para ter filhos?
Um questionamento muito recorrente entre as mulheres trata do momento ideal de encarar a maternidade. Para a psicóloga Milena Bitencourt, essa decisão deve estar atrelada, principalmente, à segurança de cada uma.

Quanto mais idade a mulher tiver, mais riscos pode enfrentar durante a gestação. É preciso alguns cuidados especiais. foto: reprodução internet

“Não existe um momento ideal. O que a mulher precisa é estar segura de sua decisão, ter o apoio das pessoas próximas, esclarecer todas as dúvidas junto a profissionais especializados, que darão embasamento clínico ao processo. Quanto mais segurança houver, menores serão as sequelas emocionais”, explica Milena. “Para que não haja sofrimento desnecessário neste processo, a sociedade precisa compreender que esta é uma decisão que cabe unicamente a mulher. Ao restante de nós, cabe apenas aceitar e acolher, jamais julgar”.

Relógio biológico
Graças aos constantes avanços da medicina, manter uma gestação tardia de maneira saudável e tranquila agora é possível, porém, devido ao funcionamento do relógio biológico da mulher, alguns cuidados são indispensáveis. Diferente dos homens, que podem ter filhos até o final da vida, para elas, a idade reprodutiva é restrita. O ginecologista e professor de obstetrícia José Geraldo Ramos comenta sobre os riscos que uma gravidez tardia pode apresentar.

Na espera do segundo filho, Andréia Maldana Souza comemora a gestação aos 39 anos. foto: arquivo pessoal

“Quanto mais idade ela tiver, mais risco terá com hipertenção arterial e diabetes, por exemplo, o que compromete a saúde tanto da mãe quanto do bebê”, diz o ginecologista. “O ovário tem um limite de vida, onde as mulheres nascem com um número x de óvulos e vão gastando. Quando chegam aos 40 anos, são poucos que restam e, assim, elas começam a ter algum tipo de dificuldade”.

Outra preocupação por parte dos médicos é em relação às doenças genéticas que se agravam entre as mulheres dessa faixa etária. “Com isso, também, há um risco maior de ter alterações nos filhos”, comenta o ginecologista. “O indicado é que seja feito um acompanhamento especializado antes e durante a gestação.”

Para Andréia Madalena de Souza, 39, ter filho nessa idade não é novidade. Grávida do segundo, que nasce em dezembro, ela conta que não planejou a gestação, mas foi surpreendida ao descobrir. “Eu nem imaginava, pois estava tomando anticoncepcional, mas naquele mês esqueci de tomar as pílulas durante 3 dias e, quando me dei conta que o ciclo estava atrasado, fiz um exame BHCG e deu positivo”, relembra Andréia.

Fatores de risco para gravidez
De acordo com o Ministério da Saúde, nos últimos 10 anos, a prevalência da obesidade no Brasil aumentou em 60%, passando de 11,8% em 2006 para 18,9% em 2016. No que se refere ao excesso de peso, os números também cresceram de 42,6% para 55,8% no período.

Os casos de mulheres obesas que engravidam crescem e preocupam médicos. foto: reprodução internet

O ginecologista José Geraldo Ramos destaca que essa realidade também reflete dentro dos consultórios. “Atualmente, temos uma epidemia de obesos, o que tem nos preocupado, já que uma gestação nessas condições apresenta muitos riscos”, salienta o médico. “Outro problema muito frequente que estamos notando é a incidência do tabagismo e o sedentarismo entre as mulheres, o que estamos buscando coibir antes da gestação”.

Baixos índices de natalidade poderão ser um problema
Embora a natalidade não seja um problema no Brasil, de acordo com IBGE, a taxa de fecundidade diminuiu 20,1% na última década. Conforme o Censo Demográfico 2010, o número de filhos por mulher caiu para menos de dois.

No Brasil, o índice de fecundidade caiu 20,1% na última década, e a perspectiva é que esse número aumente cada vez mais. foto: reprodução internet

Na Europa, todos os países já apresentam índices insuficientes de natalidade, com média abaixo de 1,5 filho por mulher. “A tendência, se continuar como está, é que as mulheres tenham filhos cada vez mais tarde e, nessa direção, a natalidade também seja reduzida ao longo dos anos”, explica o professor Alceu Escobar.

Como consequência desse cenário que se espalha por todo o mundo, novos desafios irão surgir. “O que antes era um problema com os países super-habitados, hoje é um pouco diferente, e isso reflete a falta de jovens na Europa. O Brasil ainda não faz parte dessa realidade porque ainda temos bastante trabalho agrícola, mas há perspectivas de uma redução gradativa”, completa o sociólogo. “Isso poderá criar problemas na sociedade capitalista, uma vez que aumenta produção de bens, porém, diminui consumo por falta de pessoas”.

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