Dinheiro. Economistas alertam que taxa Selic em baixa impacta em um menor rendimento da caderneta de poupança, principal aplicação do povo

Administrar o dinheiro que você tem guardado em tempos de inflação e juros em baixa exige uma nova estratégia, porque a caderneta de poupança — a mais popular das aplicações — deixa de ser vantajosa. Contudo, o mercado de investimentos ainda é um assunto complicado neste país sem educação financeira. Neste sentido, o Jornal Ibiá conversou com especialistas para esclarecer os principais pontos desse meio.

Mestre em Economia, administrador de empresas e consultor financeiro, o montenegrino Rogério Cauduro ensina que agora se destacam os fundos. “É fundamental ter muita atenção em qual fundo investir. Ter uma boa diversificação (fundo multimercado) pode ser uma saída para diluir o risco. E, claro, sempre observar quem é o administrador do fundo e o histórico do mesmo nos últimos meses”, explica. Confira a entrevista a seguir.

— Como ficam a caderneta de poupança, os investimento sem renda fixa e as demais aplicações conservadoras?
Os tempos de baixa inflação refletem diretamente na remuneração das aplicações. E isto é bom! Contudo, há que ter cautela quanto ao investimento para conseguir um resultado melhor que a inflação. No Brasil, temos quatro tipos de aplicações que são mais populares. A campeã é a poupança tradicional, a mais conservadora. O investidor precisa saber se sua aplicação é anterior ou posterior a maio de 2012, quando houve mudanças nas regras da remuneração. Se a aplicação é anterior a esta data, tem melhor rendimento. Já a grande maioria das aplicações, que veio após esta data, terá remuneração abaixo de 80% do CDI (Certificado de Depósito Interbancário, um título de emissão das instituições financeiras que lastreia as operações do mercado interbancário) e serve de parâmetro para diversas aplicações junto às instituições financeiras. A segunda opção são os títulos do tesouro, que nada mais é do que comprar uma promessa de que o governo irá devolver seu dinheiro em um determinado tempo acrescido de juros. A grande diferença é que incidem impostos maiores e podem acabar não sendo muito vantajosos.

— E quanto às letras de crédito? E o CDB?
Certificado de Depósito Bancário (CDB), Letras de Crédito Imobiliário (LCI) ou Agrícola (LCA) — enfim, as aplicações com renda fixa — costumam remunerar melhor que poupança e títulos do tesouro em época de baixa inflação. Entretanto, é fundamental negociar com a instituição onde será feita a aplicação para que repasse remuneração acima de 85% do CDI. E isto tem a ver com a instituição, quanto será aplicado e o tempo de resgate. A quarta aplicação mais popular são os fundos. É a melhor opção para o momento, tendo em vista que, com baixa inflação, o mercado real de produção de bens e serviços fica mais aquecido, e os fundos costumam investir o capital de quem aplica nesta modalidade justamente em empresas que irão remunerar melhor o capital. Todavia, é fundamental ter muita atenção em qual fundo investir. Ter uma boa diversificação (fundo multimercado) pode ser uma saída para diluir o risco. E, claro, sempre observar quem é o administrador do fundo e o histórico do mesmo nos últimos meses.

— Se a dica é a diversificação dos investimentos, como o leigo deve agir?
Para diversificar, sugiro, em primeiro lugar fazer uma autoanálise, em que cada pessoa ou família terá mais ou menos propensão ao risco. E aí é necessário lembrar que risco tem relação direta com remuneração. Mais risco é igual a maior possibilidade de ganho. Após definir o grau de risco, busque conhecer as opções mais acessíveis no mercado. Além das quatro que já comentei, adicionaria mais três opções: investimentos diretamente na bolsa de valores com ações e derivativos; investimento em moedas, ouro e contratos futuros; e ainda, para os mais conservadores, investir em imóveis. A pessoa ou família que busca remunerar adequadamente seu capital precisa primeiramente separar o prazo de liquidez do dinheiro (disponibilidade) do investimento que está realizando. Após, considerando os critérios de liquidez, risco e rentabilidade, a família deve analisar as opções de investimento existentes. Em resumo, sugiro que utilize o gerente do banco como uma das fontes de informação. Além disto, busque sites especializados e pessoas que lidam com investimentos.

— Ter juros neste nível baixo é bom para a economia? Por quê?
Muito bom! Quanto maior o juro, mais estéril fica a economia, ou seja, no mundo real há que produzir bens e serviços para as pessoas consumirem e satisfazerem suas necessidades. Para as pessoas consumirem, há que ter investimento na produção (leia-se empresas). Se as pessoas e as famílias optarem por investir nos bancos, as empresas ficam menos capitalizadas (com menos investimento e dinheiro) e menos vigorosas. As empresas menos vigorosas vendem menos. Menos vendas, mais desemprego. Mais desemprego, menos demanda. E está feito o ciclo da desaceleração do mercado. Parece simples, não é mesmo? Mas é assim que funciona a economia de oferta e demanda. E viva o juro baixo!

— Investimentos conservadores perdem espaço neste cenário? E as ações, ficam mais atrativas?
De forma geral, sim, pois as ações são pequenas participações em empresas reais. Com baixas taxas de remuneração, o velho e tradicional desempenho das empresas passa a ter maior relevância. Para que fique mais claro, vamos pegar um exemplo: se tenho R$ 10 mil que economizei e preciso escolher entre duas opções de investimento, sendo a) nos juros de mercado e b) nos resultados da empresa, o que seria melhor? Veja que considerando que a empresa tenha um resultado e faça distribuição de lucros de 1%, minha remuneração sobre os R$10.000,00 aplicados naquela empresa seria de R$100,00. Para fazer a comparação com juros do mercado, vamos pegar dois momentos de inflação. Com inflação alta e juros mais altos, como exemplo 2%: a remuneração dos dez mil seria de R$ 200,00, então seria melhor deixar o dinheiro parado no banco colhendo esta remuneração. Porém com inflação baixa, como exemplo 0,50%, minha remuneração seria de R$ 50,00. Então, com juros baixos prefiro a remuneração dos lucros da empresa e este é o motivo porque as ações e os fundos (que normalmente investem em ações) se valorizam. Ou seja, o resultado da empresa vai remunerar melhor que os juros do banco. Entretanto, há que ter cuidado em qual empresa investir, em qual setor. Investir em ações requer conhecimento e paciência.

— Barganhe com os bancos
O professor Paulo Roberto Franz, que leciona para o curso de Ciências Econômicas da Unisinos, diz que o recuo da Selic para 6,5% ao ano impacta na remuneração dos ativos de renda fixa e da poupança. “Com a taxa nesse patamar, a taxa real de juros, considerando a inflação esperada, é uma das mais baixas da história econômica recente. No caso da poupança, investimento conservador e baixo risco tem como benefício a isenção do imposto de renda”, cita.

Em outras aplicações de renda fixa, como CDB, o investidor deve considerar o tributo sobre os rendimentos e deixar os recursos aplicados pelo maior prazo possível para obter rendimento maior, ou seja, pagando menos imposto. Segundo Franz, você deve observar o valor disponível para aplicação, pois é possível barganhar com os bancos uma taxa de remuneração maior para valores maiores, porque para pequenos valores a remuneração se aproxima muito da poupança. “De um modo geral, os gerentes de conta procuram orientar adequadamente os investidores, tomando como base o seu perfil para assumir risco (conservador, moderado, arrojado)”, avalia.

— A chance de sucesso dos investidores que se arriscam mais aumenta diante deste novo cenário de juro baixo? Ou o risco permanece no mesmo nível?
Este é o grande momento para que o investidor arrisque mais. Em momentos de inflação alta, o que se busca é justamente não perder o valor do dinheiro. Já em momentos de inflação baixa, deve-se diversificar e arriscar em novos tipos de investimento. Mas, como sempre, prudência é necessário.

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— Paulo Franz observa que o mercado de ações fica mais atraente em termos de remuneração quando a taxa de juros é menor, porque aí a economia cresce, o resultado das empresas melhora e valoriza as ações. Mas esse cenário benéfico da redução dos juros sobre a economia ainda está sujeito à instabilidade em razão da crise política. “De qualquer forma, a remuneração das ações é variável, portanto sujeita a maiores riscos. O investidor tem que ter claro o seu apetite para assumir mais riscos”, destaca o especialista.
— Quando a taxa de juros real da economia é baixa, como agora, o investimento produtivo (ampliar os negócios ou criar um negócio novo) torna-se atrativo, desde que haja expectativa de um cenário de estabilidade mais a longo prazo, o que de fato ainda é incerto.
— Há outras opções de investimento fora do mercado financeiro, mas certamente são opções especulativas e de muito risco. O mercado financeiro é bastante regulado no Brasil e isso ocorre com o objetivo de proteger os próprios investidores e aqueles que nele operam.

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