CANDIDATO A PREFEITO pelo PT fala de sua trajetória nos movimentos sociais e das experiências acumuladas como vereador e no Estado

 

Quem é Ricardo Kraemer?
Eu sou professor, casado com a Bibiana. Tenho três filhos, dois netos. Sou de uma família do interior que veio para a cidade estudar e acabei ficando aqui. Fiz o curso de História pela Unisinos. Trabalhei em várias atividades. Inclusive, eu entreguei jornal já, de bicicleta, na época do Doca. Trabalhei no comércio e, por fim, optei por ser professor de História. Em função da minha atividade nas pastorais e no movimento comunitário, foi eleito vereador, de 2005 a 2008. Fiz pós-graduação na Unisinos, em Gestão Estratégica de Território Urbano. Atuei no governo do Estado como coordenador regional de participação. A gente fazia a discussão do orçamento e das prioridades do Vale do Caí. Findo esse período, eu voltei para a sala de aula, no AJ Renner.

O que o levou a concorrer a prefeito?
Foi uma decorrência da nossa militância. Mesmo sem ter mandato, eu atuo no Conselho Municipal da Criança, junto ao Movimento do Patrimônio Histórico e também acompanho as discussões do planejamento da cidade, do Plano Diretor, toda essa questão dos problemas que Montenegro têm. Minha intenção era concorrer a uma vaga na Câmara, mas o partido entendeu que eu já reunia as condições e a experiência para ser candidato a prefeito.

Como vereador, quais foram seus principais projetos?
Na época, nós éramos da oposição e da minoria. Isso nos fez cutucar a Administração. Conseguimos fazer funcionar, na Câmara, a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos. Essa comissão atuou muito nas questões que envolveram o Hospital Montenegro; na atualização da lei do Conselho Tutelar e de toda a política da criança. Eu sou muito conhecido porque nós procuramos formar cidadania. A gente auxiliou muitas associações de moradores a se estruturar. Nós ajudamos a constituir a Associação dos Deficientes Físicos e a Associação dos Diabéticos. São várias iniciativas muito ligadas a essa questão da cidadania. E tem a nossa “menina dos olhos”, que é a Câmara Mirim. O pessoal lembra muito bem de toda a luta que tivemos para aprovar um projeto que foi construído com as crianças, com o movimento estudantil. Passamos a mostrar para o jovem, para a criança da escola, como funciona o Legislativo e como ele pode acessar e ser protagonista das políticas.

O ex-prefeito Percival disse que, naquele mandato em que o senhor foi vereador, Montenegro cresceu muito. O que o senhor recorda daqueles tempos?
Nós já tínhamos um problema, que é crônico até hoje, de fazer a Administração ouvir a comunidade. Mas tem que lembrar que, naquele tempo, o Brasil estava crescendo também. Então, era relativamente mais fácil você conseguir recursos. Lembro que o próprio projeto da Câmara Mirim e outros tiveram dificuldade de serem aceitos pela Administração. Porque nós não temos em Montenegro uma tradição de administrações que dialogam, que valorizam conselhos e que conseguem ter esse viés de participação. Tivemos que, junto com a comunidade, criar comissões para conseguir dialogar com a Administração.

No governo Tarso, no Estado, o senhor foi coordenador regional do Orçamento Participativo. Que realizações destaca daquele período?
Quando o governo Tarso assumiu, nós tínhamos um passivo muito grande de ações escolhidas pela comunidade, mas que os governos não estavam pagando. Então, a gente tinha sempre, nas audiências públicas, essa discussão do quanto nós vamos fazer do que foi votado e não feito; e quanto nós podemos inovar. Eu lembro que nós conseguimos, com as audiências públicas e com toda essa discussão que houve, priorizar recursos para a Brigada Militar. A ultima entrega substancial de viaturas e equipamentos foi feita enquanto eu era coordenador. Nós conseguimos recursos para o Hospital Montenegro. Não só para equipamentos, mas também para a formação de profissionais da área de Saúde. Conseguimos deixar para Montenegro a proposta de um campus universitário da Uergs, com a possibilidade de recursos já acertados através de emenda parlamentar do senador Paim; e uma discussão prévia com o governo do Estado acerca de áreas para o campus, uma casa do estudante e um restaurante. Seria uma estrutura completa para acolher os estudantes que vêm para a Cidade das Artes.

Mas nada disso aconteceu.
É verdade. Isso é uma grande decepção pra nós. Porque você inicia um processo, você deixa as ferramentas postas e os gestores não conseguem dar seguimento. Esse é um problema muito grave que temos em Montenegro também: a descontinuidade. Tarso não se reelegeu, entrou outro projeto de governo e não teve continuidade. É importante que aquilo que foi combinado com a comunidade seja executado. Se não, as pessoas também não participam mais. Mas nós não discutíamos só o orçamento. Incluímos a Uergs, o HM, reformas em escolas, como São João Batista, Delfina Dias Ferraz, Álvaro de Moraes e Januário Corrêa.

No orçamento, sobra muito pouco para investir e a comunidade discute apenas sobre esta pequena parcela de recursos. Tem como reverter isso?
Discutir orçamento não é só debater o uso dos recursos que o Município tem para investimento. Nós entendemos que a gestão democrática envolve muito mais. Nós temos que discutir, também, questões de Plano Diretor, gestão das escolas, programas setoriais. Nós queremos, basicamente, ver as necessidades da comunidade. Muitas delas podem ser atendidas com você buscando parcerias. Não adianta nós discutirmos com a comunidade a nossa travessia da RSC 287 e achar que se vai resolver com recurso do Município. Não vai.

Mas o Estado também não tem. Como fica, então?
Aí , nós temos que juntar a comunidade. A solução talvez esteja em Brasília; talvez esteja na mobilização da região; algo que Montenegro tem dificuldade de fazer. Quem passa na RS não é o cidadão de Montenegro. Nós já estamos aqui. Quem passa é o cidadão de Taquari, de Brochier, de Maratá, é o cidadão que vem de Salvador do Sul. Todos usam. Montenegro tem que ter essa capacidade e esse protagonismo de chamar eles todos e nós, junto com as nossas lideranças, com senadores, deputados, criar uma frente parlamentar, uma comissão; e ir aonde está a solução. É isso que tem que ser feito.

O candidato Márcio diz que a Prefeitura tem condições de fazer um viaduto.
A gente está com o lema “pé no chão”. Primeiro, tem que ver se a solução é o viaduto. Esse é o primeiro ponto. Quando a gente estava na coordenadoria, nós buscamos, através do Daer e outros técnicos, um estudo e se viu que só o viaduto não resolveria.

O senhor conhece o projeto das rótulas?
Eu já vi, mas como eu não sou técnico, eu não saberia dizer detalhes. A rótula, como solução emergencial, não é cara. Seria viável de fazer. A gente tem outro estudo de talvez se pudesse fazer até com menos. Na época, a alternativa mais viável seria fazer o entorno. Nós teríamos uma duplicação da RS, que sairia da intersecção com a 124, daria a volta na cidade, passaria ao lado da JBS e chegaria ali perto do posto da Polícia Rodoviária.

Arquivaram por falta de recursos.
Mas o recurso não seria da EGR. A EGR iria captar o recurso. Banco Mundial, enfim… aí a gente tem que buscar aonde tem.

Talvez seus netos consigam ver a inauguração dessa obra.
Quando falaram da BR 448, diziam isso também. A ponte do Guaíba, também. Mas elas estão aí como obras concretas. Acho que a gente pode, com estratégia, fazer muito e em não tão longo tempo. Aliás, meus netos vão ver. Eles já estão aí.

O PT tentou coligar com o PDT, como em 2016, mas isso não ocorreu. Por quê?
Foi uma decisão do PDT, não nossa. Algumas lideranças do PDT optaram por coligar com os partidos que dão sustentação para o governo Bolsonaro. Nós, de forma nenhuma, poderíamos estar juntos e defender a bandeira de partidos que têm, ultimamente, defendido a retirada de direitos dos trabalhadores; que têm feito todo esse retrocesso que o Brasil está vivendo. Isso seria uma traição para com a nossa base social. Todos os outros partidos, todas as outras candidaturas, ou elas representam a continuação dessa forma de fazer política em Montenegro; ou têm alinhamento com essa política que prejudica o povo brasileiro.

Qual foi o impacto da Operação Lava-jato, da prisão do ex-presidente Lula e do Impeachment da ex-presidente Dilma sobre o PT montenegrino?
O impacto maior foi no ultimo período eleitoral, quando se usou alguns bordões que a Lava-Jato criou. Estava bem na época da prisão do Lula e a gente sabe que tem um elevado elemento político nessa história. O partido deixou de ter uma representação na Câmara. Na campanha, o pessoal ligava a nossa sigla com a corrupção. Isso, de fato, teve um reflexo aqui em Montenegro. Mas, aos poucos, a gente está percebendo uma retomada, uma reconstrução. O PT, inclusive, aumentou em número de filiados.

O senhor acredita na inocência de Lula?
Sim. Um presidente que sai do interior do Nordeste, que tem uma história, ainda hoje continua morando nos mesmos lugares, tendo a sua vida, não tem por quê manchar a biografia. A corrupção é um câncer da sociedade brasileira. Sou professor de História e, desde as capitanias hereditárias, nós temos esse problema. É obvio que o PT não está fora deste mundo, alguns sempre desviam do caminho. O PT teve essas más companhias também. Mas aquilo que nos move para construir; para defender os direitos do povo brasileiro é muito maior que isso.

O PT dificilmente formará uma base na Câmara. Quem serão seus aliados no legislativo e de que forma deseja conquistá-los?
Isso não será, pra mim, um exercício novo. Quando estive na Coordenadoria de Participação, por exemplo, tinha apenas um prefeito que era do PT aqui no Vale do Caí. Mas com diálogo, com cooperação nós conseguimos articular muitas coisas. Eu tenho certeza que nenhum vereador vai estar na Câmara para prejudicar a cidade. Eles vão estar ali pra contribuir. Então, aquilo que é comum e que podemos fazer juntos, nós vamos trabalhar juntos.

Qual será o papel da sua vice, Liliane Melo, no governo se forem eleitos?
A vice é uma pessoa muito ligada à área da Saúde. E se nós olharmos no orçamento do Município, a Saúde ocupa um papel importante; até pelo fato de nós termos aqui um hospital e termos uma abrangência nacional. E do hospital ela conhece muito. Ela trabalhou lá e esteve na linha de frente para transformar este hospital em 100% SUS para a região. Ela vai estar do lado do prefeito. Eu digo assim ‘você vai cuidar das pessoas, porque você tem essa característica’. Ela não é uma figura decorativa. Ela vai estar junto, trabalhando.

Em 2015, foi implantado o novo Plano de Carreira dos servidores. O aumento das despesas com pessoal ficou muito acima do previsto. O senhor pretende rever esta legislação?
Se há privilégios, se há exageros, vamos buscar corrigir. Mas também temos ciência de que, em direitos adquiridos, não vamos mexer. Nos preocupa que esse plano de carreira deixou de fora os professores. Precisamos discutir a saúde financeira do Município e criar meios para resolver isso. O nosso recurso vai, em grande parte, para pagamento de dívida (do Cura). Acho possível uma renegociação. Outra questão: 70% das habitações são irregulares. Nós temos muita gente que poderia pagar imposto e não paga. Então, sobrecarrega aqueles que estão pagando. Temos que fazer uma revisão do nosso sistema tributário. A nossa produção primária, por exemplo, é muitas vezes vendida por pessoas de outros municípios e não é emitida nota porque não há incentivo. A gente precisa repensar isso, também.

Durante a pandemia, muita gente reclamou da Prefeitura por não ter ajudado os pequenos empreendedores? O que o senhor teria feito?
Seria bem interessante que o Município tivesse chamado economistas, técnicos de universidades e criado um núcleo de apoio aos pequenos empreendedores. Porque agora, com a pandemia, muda o foco. É virtual, o delivery, a venda pela internet. E propusesse alternativas, linhas de crédito, enfim, num trabalho multidisciplinar para que a nossa economia seguisse o seu fluxo, cuidando de todos os protocolos e garantindo a saúde da população.

Qual sua opinião sobre incentivos fiscais?
Em alguns momentos, eles são importantes. Acho que com critério e, depois, com a devida fiscalização do Município sobre o retorno, podem ser dados. Mas o maior incentivo para uma empresa vir para a cidade é poder oferecer mão de obra qualificada, telefonia, infraestrutura, tratamento de resíduos, uma boa Saúde, uma boa Educação. Se eu sou um empresário e venho para Montenegro, os meus empregados terão creche, terão Saúde, terão Educação… isso é um baita de um incentivo também. Vamos atender essas necessidades básicas da população e transformar isso num grande incentivo para atrair indústrias. Porque pegar dinheiro dos cofres do Município e dar a uma empresa é a última das opções.

Se o senhor for eleito, vai ter de conviver com adversários históricos no governo do Estado, como o PSDB, e a extrema-direita no governo federal. Como será a relação?
Vai ser republicana. Se é para beneficiar a comunidade, nós vamos atrás. Já estamos fazendo isso quando os parlamentares do PT têm alocado recursos significativos aqui no hospital, via emendas parlamentares. Nós temos o CRAS sendo ampliado com recursos de emenda parlamentar nossa, assim como a reforma da beira do rio, a área de lazer na Vila Esperança. Nosso partido buscou no governo Bolsonaro. Então, se tu tem projetos bons, se tu tem articulação, consegue.

Como avalia o governo Bolsonaro?
É um governo que está atendendo aos interesses de quem o elegeu: o sistema financeiro, o grande latifundiário. A reserva cambial que nós deixamos lá está sendo gasta agora e vêm beneficiando essa elite.

Mas o governo também vem ajudando os mais carentes com o auxílio emergencial.
Porque nós fizemos ele fazer isso. A proposta era ajudar bem menos, eram R$ 200,00. Por conta da representação da população no Congresso se conseguiu elevar esse teto. Mas os bancos e as empresas ganharam muito mais. Mesmo na pandemia, os ricos estão mais ricos e a classe dos menos favorecidos, dos pobres, aumentou bastante.

Como impedirá que as fraudes apontadas pela Operação Ibiaçá se repitam?
Montenegro é um Brasil em miniatura. A começar que, se os prefeitos se elegem apadrinhados por aqueles que depois querem ganhar recursos públicos pra fazer obras e participar das licitações, você já cria aí um grande incentivo à corrupção. Nós não vamos buscar doações; vamos trabalhar com os recursos que temos para não ficarmos atrelados a nenhuma dessas corporações. Nos cargos, vamos colocar pessoas honestas, com capacidade, e que vão gerir os processos.

Por que os montenegrinos devem confiar em Ricardo Kraemer?
Em primeiro lugar, tem que olhar a história. Pela minha trajetória, por tudo o que se fez e pela forma como eu agi nesses últimos 40 anos de vida pública, não tem porquê eu, a partir do ano que vem, mudar. Acho que a minha história referenda muito isso. Nós sempre estivemos na comunidade. Nossa proposta é uma administração que seja pé no chão. Nós não queremos, aqui, prometer fazer grandes obras ou prometer o futuro lá longe. Nós queremos, a partir daquilo que nós temos, construir. Vamos usar de muito diálogo. Precisa dialogar com os servidores municipais, com a comunidade, principalmente através das suas representações: as associações, os conselhos municipais. E, também, tornar Montenegro protagonista da região. Queremos que a comunidade confie em nós porque nós teremos transparência. Os compromissos assumidos serão honrados.

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