Por mais chocantes e cruéis que sejam, as histórias de filhos que matam ou que tentam assassinar os pais assombram a humanidade desde o começo dos tempos. Resumidamente, na mitologia grega, temos o exemplo de Édipo, que dá fim a Laio, seu progenitor, e depois, sem saber, casa com Jocasta, sua própria mãe. A Bíblia nos traz a história do príncipe Absalão, que procura destronar e matar o pai, o Rei Davi, mas não consegue realizar seus planos e acaba, ele próprio, morto em batalha.

Não por acaso, o tema é recorrente na literatura e no cinema. Livros e filmes sobre crimes violentos em família, inclusive, encabeçam muitas listas de “mais lidos”. Por isso, é difícil entender a crítica que vem sendo feita ao lançamento de duas películas, em abril, que trazem para as telas duas visões sobre um dos episódios mais macabros da crônica policial brasileira neste começo de século. Refiro-me ao assassinato do casal Manfred e Marísia Von S, em 31 de outubro de 2002.

O crime foi planejado e executado pela filha das vítimas, Suzane, pelo seu namorado, Daniel Cravinhos, e pelo irmão dele, Cristian. O trio invadiu a casa enquanto Manfred e a esposa dormiam. Na cama, os dois foram executados brutalmente a pancadas. Seus algozes usaram barras de ferro. Os três foram condenados a penas que variam de 38 a 39 anos de prisão, mas todos já obtiveram progressão de regime. Em breve, estarão livres, apesar da gravidade do que fizeram.

De forma inédita, os filmes serão lançados ao mesmo tempo e poderão ser assistidos juntos, em exibições alternadas nos cinemas. O enredo é baseado nos autos do processo e no que foi dito durante o julgamento. Suzane e os irmãos contaram versões diferentes. Ela disse que foi o namorado quem planejou tudo, de olho na fortuna do casal. Já Daniel garantiu que a filha dos ricaços foi a mentora intelectual do crime, cansada das ordens e do controle exercido pelos pais. Na verdade, não importa muito saber em que mente perturbada a ideia nasceu e foi maturada. O fato é o que casal agiu em conjunto e ficou tão feliz com o banho de sangue que, logo após o crime, foi para um motel comemorar numa suíte de luxo.

Nas redes sociais, muita gente está criticando a produção, alegando que ela pretende “absolver” os criminosos junto à opinião pública, “glamurizando” a chacina. Outros, entendem que as películas servirão de inspiração para novos crimes do tipo. Parem com isso! Se fosse assim, teríamos visto a multiplicação dos serial killers pelo mundo todo depois que surgiram os primeiros filmes sobre Teddy Bundy, Charles Manson ou Jack, o Estripador. Que dizer das novelas, que então nada mais seriam do que escolas de crime e morte, com seus personagens falsos, ignorantes, violentos, bizarros e racistas? Precisaríamos tirar todas elas do ar, assim como queimar toda a obra de autores como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle, Truman Capote e Stephen King, para citar apenas alguns dos maiores romancistas do gênero.

De outro lado, se alguém passar a ver Suzane Von Richtofen como modelo, não será por causa do filme, mas porque é doente: ou é psicopata ou já foi contaminado pelo vírus da ignorância. Aliás, a segunda alternativa é relativamente comum. Que outra explicação teria o fato de criminosos condenados, no mundo todo, receberem cartas com declarações de amor e até pedidos de casamento? Mas, ainda que se declarem fãs, esses idiotas não se tornam assassinos.

Filmes e livros baseados na realidade são bem-vindos, sempre. Especialmente quando contam histórias de crimes. Além de jogar luz sobre aspectos obscuros e muitas vezes desconhecidos, eles nos mantêm alerta. Assim com o bem existe e pode ser traduzido em gestos de solidariedade e amor, também o mal caminha entre nós e devemos estar prontos para identificá-lo e nos proteger dele. Pretendo assistir às duas versões do crime, mas, desde já, tenho a certeza de que minha opinião sobre Suzane e os irmãos Cravinhos continuará a mesma: eles são bandidos cruéis, que deveriam permanecer confinados pelo resto de suas vidas.

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