“Tudo começa da gente”, declara Helena da Costa. Ela trabalha cuidando da limpeza da UTI, um dos pontos mais críticos do hospital

Nem sempre os mais valorizados, trabalhadores têm atividade essencial no combate à doença

Tem muita gente, até governantes, que se refere à pandemia do novo coronavírus como uma verdadeira guerra. E a luta contra esse inimigo invisível que já matou mais de 4 mil brasileiros coloca na linha de frente não só os profissionais da saúde, mas também uma categoria que, muitas vezes, não recebe o devido destaque. Quem cuida dos processos de higienização nunca foi tão essencial para garantir a segurança de todos.

“Tudo começa da gente”, reconhece Helena da Costa, parte da equipe de limpeza do Hospital Montenegro há dois anos. Com 36 anos de idade, ela atua numa das áreas mais críticas da instituição de saúde: a UTI. “De começo foi um baque, um apavoramento. Mas a gente teve bastante palestras para ensinar e explicar a situação.”

No total, o time que cuida da higienização dos ambientes, equipamentos e enxovais do HM conta com 40 pessoas que trabalham 24 horas por dia, divididos em escalas. São cinco membros a mais do que antes do início da pandemia. “A gente deu uma reforçada para conseguir suprir as necessidades e ter uma equipe aumentada se ter alguma falta”, explica o supervisor de hotelaria, Sabastian Baez.

Para enfrentar a Covid-19, todos os diferentes setores passaram por capacitações desde o início de março. No fim dele, foram mais dois dias de encontros específicos só para a equipe de higienização e limpeza. Foram focados, principalmente, no uso consciente e racional dos Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) e demais materiais.

“A higienização é vista, mundialmente, como um trabalho que tem que andar lado a lado com a equipe assistencial”, coloca o responsável pelo controle de infecção no Hospital, o enfermeiro Diogo Bonini. “O ambiente, se não higienizado, vai comprometer muito o paciente e seu dia a dia da melhora.”

Ao todo, 40 trabalhadores integram a equipe responsável pela higienização dos ambientes, equipamentos e enxovais dentro do Hospital Montenegro

PROTOCOLOS
O encarregado explica que todos os procedimentos adotados no HM precisam seguir os protocolos do Ministério da Saúde e das Vigilâncias Sanitárias estadual e municipal. Há especificidades para limpar áreas críticas, como UTI e bloco cirúrgico, e não críticas, o que demanda atenção do pessoal da limpeza. E diante do novo coronavírus, ele aponta, houve uma intensificação do trabalho.

“O que a gente aprofundou foram as vezes em que as higienizações são realizadas e o cuidado de se paramentar corretamente com os EPI’s padronizados”, conta Bonini. “Os insumos e as formas como elas são feitas ainda são os mesmos”. Aos que entram e aos que saem do hospital para o trabalho, há orientações de higienização que são focadas, especialmente, em não trazer a contaminação de fora para dentro. O uniforme é vestido só nas dependências do HM.

Há um cuidado especial na área do hospital que foi separada para o atendimento específico da nova doença. A chamada “Área COVID” tem horário específico para limpeza, quando os profissionais trabalham devidamente paramentados com os EPI’s. Todos que lá atuam tomam banho antes de irem pra casa; e os resíduos provenientes da área são todos encaminhados para incineração.

“(Os protocolos) não mudam muito do que se tem para outros pacientes que são isolados por questão de germe”, avalia o enfermeiro. “O que difere é o temor que todos nós temos em relação a esse vírus, que ainda é desconhecido e a gente não sabe bem como ele se comporta nos ambientes.”

Questão emocional é peso extra
Apesar das regras e dos protocolos, a equipe do HM também lida com o medo e as incertezas que, provavelmente, são comuns a todos em relação ao novo coronavírus. “Já aconteceu de nós termos de uma profissional ter positivado; e a gente não sabe de onde”, recorda o enfermeiro Diogo Bonini. “Foi a única. A gente já testou mais de quinze funcionários.”

Uma das responsáveis pela limpeza da UTI, Helena da Costa trabalha com a família em mente. “Para quem tem criança é bem difícil. A gente sai daqui, já toma banho, se higieniza. A roupa, coloca em saco fechado. É todo o cuidado para não levar (o vírus) pra casa”, relata. Ela mora com o marido e três filhos: um de dezessete, um de quinze e um de apenas três anos de idade.

Desde o início da pandemia, a demanda por atendimento psicológico entre os profissionais do hospital cresceu. “Muitos trazem de casa situações, muitos temem levar o vírus”, conta Bonini. “Nós orientamos todos eles para que venham até nós e que a gente acione a Psicologia, que faz esse trabalho além da rotina do que já é feito. Isso aumentou muito nos últimos dias.”

“Mas às vezes é mais perigoso fora do hospital do que aqui dentro”, salienta o supervisor de hotelaria, Sabastian Baez. “Aqui (no HM), nós sabemos que as pessoas estão se cuidando. É mais perigoso fora, num mercado, num ônibus, do que aqui dentro.”

Aos 65 anos de idade, dona Luiza não abre mão do serviço mesmo em meio à pandemia

O medo, no entanto, nem sempre é racional. “A gente fica se perguntando o que pode acontecer e quando tudo vai voltar. Está sendo difícil”, confidencia Luiza Schneider da Silva, responsável pela limpeza na maternidade e na pediatria do hospital. De seus 65 anos de idade, 31 foram trabalhados na instituição de saúde. E ela admite que nunca presenciou situação igual a atual.

“A gente tem que ter muita força. Sair de casa pensando ‘eu vou, eu vou conseguir trabalhar e vou voltar’”, indica. Mesmo sendo do grupo de risco da Covid-19, ela não aceitou ser dispensada do serviço. “Eu estou me cuidando e me protegendo. Podendo trabalhar, tem que trabalhar”, declara, empenhada em fazer sua parte.

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