Comércio de Montenegro oferece muitas opções de alimentos livres de defensivos agrícolas

Apesar da imposição das grandes indústrias químicas, agricultores encontram alternativas de produção saudável e incentivam o consumo consciente

“A agricultura que nós temos hoje é doentia”, declara o agricultor e empresário Valdecir Zanovello, 65, sobre o alto consumo de agrotóxicos nas lavouras do Brasil. Há 30 anos ele trabalha no setor de hortifruti e, durante esse período, tem buscado conhecer as diversas questões que envolvem a sua área de atuação, principalmente no que diz respeito à qualidade dos alimentos oferecidos para a população.

Embora não tenha uma produção totalmente orgânica, o agricultor e empresário Valdecir Zanovello é contra o uso de agrotóxicos

Foi a partir desses anseios que Zanovello passou a estudar sobre os diferentes modelos de produção e as infinitas possibilidades na contramão do uso dos defensivos agrícolas, utilizados para controlar insetos, doenças, ou plantas daninhas que causam danos às plantações. Com o tempo e como resultado de sua dedicação, passou a fazer duras críticas sobre a forma como o cultivo de alimento é feito por grande parte dos produtores brasileiros. “Hoje a agricultura do nosso país está sendo considerada muito avançada, mas, por outro lado, estamos ficando cada vez mais doentes em decorrência do uso desses produtos químicos”, lamenta o empresário.

Desde 2008, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking global no uso de agroquímicos. Segundo a Anvisa, na última década, a utilização mundial do produto aumentou 93%, já no país, o número chegou a 190%, alcançando a marca de 130 mil toneladas do material por ano no país. Paralelo a esses dados, pesquisas desenvolvidas por órgãos como a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) e Ministério da Saúde – Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) mostra aquilo que o produtor Zanovello já percebeu: agrotóxicos causar diversas doenças, entre elas, infertilidade, puberdade precoce, má formação fetal, aborto, problemas neurológicos, distúrbios de comportamento, câncer de diversos tipos, entre outras patologias.
É diante de dados alarmantes como estes que o agricultor montenegrino defende um modelo de produção mais saudável, que respeite os recursos naturais e não ofereça riscos à saúde da população.

“Eu sou totalmente a favor que se restrinja o acesso aos defensivos agrícolas, porque há um uso indiscriminado deles, sem contar a falta de conhecimento das pessoas na hora do manuseio. Quando se trata das grandes produções, a situação é ainda mais agravante, já que nem todos os produtores se preocupam com as sérias consequências que isso acarreta”, acrescenta Zanovello. “Os transgênicos é outro problema grave que vai causar danos para a saúde humana e ambiental, tanto quanto o uso de agrotóxicos, isso é preocupante”.

Enquanto as indústrias químicas estão cada vez mais presentes nas lavouras do país e levam os pequenos, médios e grandes agricultores a usarem os defensivos agrícolas, alguns vão resistindo como podem, como faz Zanovello. Ele só utiliza esse tipo de produto em casos excepcionais, alegando que os primeiros prejudicados são os próprios produtores. “O benefício que o produtor teria com a aplicação desses agrotóxicos não compensam o prejuízo que ele causa a longo prazo”, disse o empresário.

A agricultora e empresária Carmen Regina da Silva destaca a falta de apoio e incentivo para a produção orgânica

A agricultora e empresária Carmem Regina da Silva, 38 anos, já viveu essa realidade. Hoje ela e o marido trabalham com a produção e venda de alimentos orgânicos, mas nem sempre foi assim. A agricultora conta que o esposo nunca utilizou muitos tratamentos químicos no cultivo dos alimentos, mas foi notando que, nas poucas vezes que usava ele não se sentia bem. “Foi a partir de então que ele foi procurando cursos, cooperativas e associações que trabalhavam com uma linha de alimentos mais orgânicos, buscando alternativas mais limpas e sustentáveis”, relata Carmem.

No dia a dia, Carmen comenta que o maior desafio para quem produz alimento orgânico é ter controle de pragas e doenças nas plantações. Contudo, mesmo diante dos obstáculos, ela permanece nessa linha de produção e acredita que os interesses econômicos das multinacionais, atrelados com os de alguns governos, esbarram em políticas públicas que estimulem essa cultura. “Tudo gira em torno do financeiro”, dispara a emprestaria.

Para o agrônomo Andre Camargo Volpato, existe uma dependência da agricultura com relação aos agrotóxicos, isso graças à lógica imposta nos últimos tempos. Porém, ele destaca que já são grandes as experiências e pesquisas para o desenvolvimento de produtos para controle de pragas e doenças que não sejam tóxicos. “O que falta para esse caminho é pesquisa das empresas e do governo para desenvolver e disseminar essas tecnologias limpas em larga escala”, ressalta Volpato.

É preciso observar a natureza
O agricultor e empresário Valdecir Zanovello, 65, conta que entre suas experiências na lavoura já enfrentou uma severa praga de lesma que lhe tirou o sono. Lendo sobre o assunto, ele descobriu uma forma de eliminar a praga sem utilizar substâncias toxicas, usando apenas o “pó de rocha”, que, segundo ele, ainda serve como nutriente para a terra. “Existem algumas técnicas em que não é preciso usar os defensivos agrícolas, e, assim, são muitas coisas que descobrimos simplesmente observando a natureza e buscando mais conhecimento”, declara o agricultor.

Arma química: a origem dos agrotóxicos
Mergulhar na história dos defensivos agrícolas e conhecer sua origem permite compreender um pouco dos motivos que o torna tão polêmico. Antes de s fazer parte dos processos de manuseios das lavouras pelo mundo afora, os produtos eram amplamente usados como armas químicas durante a Segunda Guerra Mundial.

Após o fim dos conflitos, a destinação dos agrotóxicos mudou e passou a ser utilizado no combate de pragas presentes nas grandes plantações. No período pós-guerra, a indústria química encontrou uma grande oportunidade de expandir os negócios com a venda dos defensivos agrícolas. Diante da fome que assolava a Europa em decorrência dos combates, surgiu a “Revolução Verde”, que tinha como objetivo fomentar a agricultura, resultando na produção de alimentos em larga escala.

Qualidade estética e nutricional dos alimentos
Na sociedade das influências digitais não são apenas as pessoas que sofrem a imposição de padrões de beleza esteticamente perfeitos, os alimentos também. Enquanto uma parte da população preza pelo visual das frutas, verduras, legumes e hortaliças, outra porção não abre mão da qualidade nutricional que cada um oferece.

O agricultor e empresário Valdecir Zanovello comenta que esses dois tipos de consumidores se dividem entre a qualidade estética e nutricional dos alimentos, o que acaba obrigando muito dos produtores a recorrem ao uso dos agrotóxicos por não terem capacidade de atender todas as demandas.
“Quando eu preciso usar, sempre procuro ler todas as instruções e, principalmente, saber o tempo que ele fica agindo na cultura. Caso o defensivo agrícola fique agindo por muito tempo, eu prefiro abrir mão da qualidade estética devido às consequências que isso pode causar a saúde de quem consume”, destaca Zanovello.

A nutricionista Camila destaca que os alimentos orgânicos são mais saborosos e nutritivos

A nutricionista Camila Kleber de Oliveira, destaca que a agricultura orgânica condena e exclui o uso de fertilizantes sintéticos ou qualquer produto químico, e tem o compromisso de preservar os recursos naturais. “Um alimento sem agrotóxico possui mais sabor e aroma do que os produzidos em larga escala, além de apresentar maior concentração de nutrientes e antioxidantes”, acrescenta Camila.

Para a também agricultora e empresária Carmen Regina da Silva, a preferência por produtos esteticamente bonitos sem levar em consideração a qualidade nutricional é uma questão de consciência. “Os meus clientes, por exemplo, não reclamam se encontram um legume diferente daqueles encontrados nos mercados convencionais, porque eles sabem o valor em nutrientes que uma alimentação orgânica oferece”, afirma Carmem.

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