O acesso facilitado à tecnologia e, por extensão, ao conhecimento vem premiando a humanidade com avanços indiscutíveis nos mais diversos campos, especialmente na Medicina. Por outro lado, nada disso é capaz de domar nossos instintos mais sombrios, que ainda nos impedem, muitas vezes, de conviver com os diferentes de maneira respeitosa e tratar os problemas dos outros com o mínimo de empatia. Seguem os ataques – verbais e físicos – a gays, negros e pobres. Deficientes são tratados com desdém, assim como os idosos, gente que, para muita “gente”, perdeu a função na sociedade e não passa de estorvo. Colocar-se no lugar do outro parece cada vez mais difícil, justamente num momento em que é tão necessário.

Esta semana, enquanto garimpava na Netflix, deparei-me com uma produção espanhola intitulada Handia. Li a breve sinopse e decidi dar o play. A trama gira em torno de dois irmãos bascos na metade do século XIX. Um deles, Martin, é mandado à guerra pelo pai, deixando o outro, Joaquin, na fazenda decadente da família. Quando volta para casa, três anos depois, com um braço paralisado por ferimento à bala, o soldado descobre que seu irmão passou a sofrer de gigantismo.

Pobre, deficiente e sonhando em se mudar para a América, Martin decide explorar a impressionante estatura do irmão, que mede cerca de 2,5 metros, num show itinerante para ganhar dinheiro e fugir. O filme beira o sombrio e se desenrola numa atmosfera pesada e melancólica. A dupla faz apresentações em diversas cidades espanholas e até na Inglaterra. Eles ganham muito dinheiro, mas a história sofre uma reviravolta. Assistam! Vale a pena.

Handia, que significa “gigante” no idioma basco, presta-se a uma série de reflexões. É comovente ver a degradação de uma pessoa exibida como um animal de circo só porque é diferente. Dói ver a tristeza no semblante do personagem-título cada vez que alguém o aponta como se fosse uma aberração, quando nada mais é do que um ser humano diferente. Em Madri, por exemplo, ele é apresentado à rainha Isabel II, uma adolescente na época. Para sua suprema humilhação, ela manda que o “Colosso” fique nu, pois quer saber se o pênis é proporcional ao tamanho descomunal do resto do corpo.
Depois de assistir a algo assim, é impossível escapar de algumas perguntas. Quantas vezes já fomos apontados por que não nos enquadramos nos padrões erguidos pelo senso comum? Ou mesmo humilhados por que não usamos uma roupa nova ou chegamos a pé a um evento? Quantos olhares de reprovação já enfrentamos por causa das nossas escolhas? Quem convive com dificuldades de locomoção ou possui alguma deformidade – adquirida em acidente ou congênita – certamente já experimentou o gosto acre dos olhares de pena misturados com desprezo.

No fundo, em algum momento da vida, todos somos “Handias” servindo ao deleite de alguém. Talvez isso nos ajude a perceber que também discriminamos os diferentes e que isso pode causar sofrimento. É o primeiro passo para deixarmos o século XIX em seus hábitos e atitudes. Precisamos evoluir.

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