Cássia Oliveira
Jornalista, editora
do Jornal Ibiá

Esta semana, uma criança de seis anos me olhou e disse:
– Dinda, tu sabia que uma menininha morreu com tiro?
Congelei. Não sabia o que fazer. Não sabia o que falar. Passados vários dias, continuo da mesma forma, porém, sou mais capaz de analisar a situação. O que mais me choca é a naturalidade com que meu afilhado contou isso. Desconhecimento do drama social em que vivemos, é claro. Eu, que me preocupo caso ele leve um tombo de bicicleta e “rale” o joelho, não sei onde encontraria forças para viver, caso fosse a mãe da pequena Ágatha, de apenas oito anos, que foi morta no Rio de Janeiro.
Não vou entrar na discussão quanto à origem do tiro, inclusive por não conhecer a história em detalhes. Se havia ou não um confronto. Se os policiais têm responsabilidade ou não. Tudo isso terá de ser apurado e a imprensa tem papel importante de fiscalização, para não deixar mais essa morte transformar-se unicamente em um número nas estatísticas. O que desejo, e está ao meu alcance, é discutir o Brasil que nossas crianças estão recebendo. Que infância é essa na qual saber do assassinato de outra é narrado como algo normal? Não pense que porque seu filho não mora numa favela carioca ele está blindado disso. Esse problema é seu sim, é nosso. Por mais que seja cômodo pensarmos que não.
Estamos às portas de entrar no mês das crianças. Sempre tive – e sigo tendo – fé em um mundo melhor por conta delas. E sempre que tenho contato com os pequenos, reforço essa crença. Você já se deu ao trabalho de ouvir uma criança? Ouvir, não apenas escutar. Em geral, os adultos apenas escutam as crianças, no popular “entra por um ouvido e sai pelo outro”, sem dar a mínima atenção. É a arrogância dos adultos, não lhes permitindo aprender com a sabedoria que apenas a infância expressa. E assim, ao invés de aprender com elas, vamos minando suas ideias, transformando-as em pequenos adultos e matando a chance que elas têm de transformar o mundo.
As crianças não estão preocupadas com a sexualidade de ninguém. Heterossexual, homossexual, transexual… coloque o nome que você quiser, para uma criança, não fará diferença alguma. Ela vê uma pessoa. Uma pessoa boa ou ruim. Uma pessoa que a trata com amor ou com desprezo. Uma pessoa que oferece amor ou violência ao mundo. Uma pessoa que bate ou que afaga. Simples assim. Ofereça um brinquedo à criança e verá que ela não procura pela etiqueta de preço, não quer saber a marca nem a qualidade. Quer saber se traz felicidade! Uma criança quer amiguinhos para brincar. Não se importa se eles têm pais ricos ou sobrenomes que despertam poder. Definitivamente, as crianças chegam ao mundo capazes de transformá-lo. Pena que são impedidas pelos que aqui já estão. Convido todos a se permitirem ouvir as crianças e aprender com elas.

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