Para Jair Sarmento, que tira três toneladas por ano, peixe é um bom negócio

Alternativa. A criação de peixes ainda não se fortaleceu em Montenegro, mas vende bem

A piscicultura – criação de peixes para venda – poderia ser um pilar mais forte na econômica primária de Montenegro. Mas há um paradoxo entre aumento da procura pela carne branca em contraste com a redução da oferta. O cenário muda na época da Páscoa, quando a crença religiosa traz para as feiras da Prefeitura estes agricultores que agregaram este ramo à sua atividade. A criação requer investimento e um trabalho atencioso, com retorno somente após quase dois anos.

Após o arrastão, a pescaria das Carpas passa a ser feita com as mãos

O atual presidente da Associação Montenegrina de Piscicultores, Nelson Zanetta, acredita que houve um desinteresse, tanto que agora a feira mensal (todo segundo sábado) na Praça da Timbaúva (Grêmio Gaúcho) está em processo de retomada. Quando um grupo de interessados na atividade se reunia há 10 anos, eram entre 10 e 12 produtores. Hoje, após dois anos de fundação, a Associação contabiliza 22 integrantes. Mas na Prefeitura, afirma Zanetta, a lista de quem se apresenta como piscicultor chega aos 150 nomes.

A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural (SMDR) não confirma este número, e ressalta que em torno de 15 piscicultores participam das reuniões mensais. A informação coaduna com a percepção do presidente de que o número daqueles com uma forte criação para venda não ultrapassa os 15 agricultores. “No ano passado teve muito mais gente procurando para vender durante a Páscoa”, observa. Por outro lado, ele garante que aqueles que trazem peixe para vender na cidade têm ótimos resultados.

A Emater/ Ascar em Montenegro tem outro número, ao somar cerca de 80 piscicultores no cadastro, sendo 22 da Associação. No planejamento 2019, 12 agricultores terão acompanhamento do órgão. O técnico extensionista Valmir Michels explica que da lista da Emater, alguns criam para negócio; outros para consumo, vendendo o excedente. Estes fazem a venda na propriedade, a chamada “na taipa”, mantida pela clientela fiel.

“Uma depende da outra”
Outro método é o equilíbrio através da convivência das quatro espécies em consórcio. Ele explica que Prateada e Cabeçuda não comem ração, mas algas e os dejetos da Capim e da Húngara; que por sua vez são as únicas que comem ração. Já a Capim também consome vegetação, pois apenas o alimento artificial a engordaria, mas sem crescer.

Na propriedade de Demenciano Padilha toda a família faz o arrastão nos açudes

E se ela ficasse sozinha no tanque o excesso de dejetos a sufocaria. Enquanto isto, a Húngara se alimenta apenas de ração e nutrientes da água.
Outro fator relevante das Cabeçudas e Prateadas é o processo de oxigenação da água, quando puxam e soltam semelhante às baleias. A criação em consórcio não deve ser interpretada pelo olhar financeiro, pois a Cabeçuda, por exemplo, cumpre seu papel e acaba virando consumo do piscicultor.

Isso porque sua característica de cabeça grande diminui em mais de 50% a parte nobre do filé, o que acaba por afastar o consumidor, que em geral quer o filé.

Sucesso depende de disciplina
A Carpa é a principal espécie criada na região. Alguém que pode ser considerado piscicultor de verdade é Jair Sarmento, que ao ano vende cerca de três toneladas das espécies de Carpa. Hoje e amanhã sua banca está na Timbaúva, sendo que já na terça-feira ele tirou 1.500 peixes do seu maior açude no Potreiro Grande. Na visão dele a criação de peixes é promissora. “Eu acho que dá um bom retorno. Se não, eu não estaria 15 anos no ramo”, declarou.

Sistema faz um equilíbrio natural das quatro espécies de Carpa

Na propriedade de Demenciano Padilha onde seis açudes cavados garantem as feiras. Nesta quarta-feira, 17, a família toda fez “arrastão” para retirada em dois dos tanques. Até sexta-feira ele vende no ponto autorizado na propriedade da família no Assentamento 22 de Novembro, Estrada do Morro Montenegro. “Eu gosto de fazer aqui porque dai vou vendendo e tirando mais da água”, explicou. Nas feiras o peixe precisa, obrigatoriamente, ser vendido e levado vivo, então o agricultor não faz toda a retirada de uma única vez.

Neste ano Padilha projeta oferecer entre 400 e 500 quilos de Carpa, das espécies Capim, Prateada, Húngara e Cabeçuda. Seus açudes permitem criar simultaneamente 1.200 peixes, todavia com períodos distintos de colocação dos alevinos. O sistema evita que toda a criação alcance simultaneamente o peso ideal adulto. “Com um ano consegue tirar peixe de três quilos. Isso se seguir todas as orientações à risca”, salienta.

Na propriedade de Sarmento o açude é totalmente seco para a retirada

O piscicultor refere-se a técnicas para controlar a acidez e oxigenação da água, pois, assim como o solo na agricultura, ela não pode ser pobre em matéria orgânica. “Todo o nutriente que tem na terra tem que ter na água”, explica. E neste caso a alimentação balanceada entre ração artificial e natural (capim) é imprescindível.

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