Pedro Nunes mostra os buracos remendados com sobras de asfalto na rua Capitão Jacob Franzen, no bairro São Pedro

Somente 1/5 das ruas da zona urbana possui algum trecho pavimentado

A melhoria da infraestrutura de ruas e avenidas de uma cidade é uma das obrigações do Executivo Municipal, e é um dos investimentos mais esperados pela comunidade. Em Montenegro neste ano de 2020, 31 ruas já tiveram pavimentação realizada pela Prefeitura, além de capeamento asfáltico em três logradouros.

Na zona urbana do município, existem aproximadamente 530 ruas já denominadas e 71 ruas que aguardam lei de denominação. Segundo a Administração, aproximadamente 112 logradouros públicos possuem pelo menos algum trecho de asfalto, ou seja, apenas 1/5 das ruas receberam alguma melhoria. Na zona rural, existem aproximadamente 71 estradas rurais, sendo que apenas três delas já foram asfaltadas.

Para a realização da pavimentação neste ano, a Prefeitura investiu um valor de R$ 1.871.400,00, em 11 bairros e duas localidades do interior. O bairro com mais ruas pavimentadas foi o Bela Vista, com seis ao total. A grande maioria ficou com três logradouros asfaltados, e o interior recebeu obras na localidade de Vendinha e Campo do Meio. Além disso, as ruas Getúlio Vargas, Quatorze de Junho e Frederico Ozanam receberam capeamento asfáltico. O valor total da obra foi de R$ 376.128,61.

De acordo com o cronograma de pavimentação do Município, quatro ruas estão sendo preparadas para receberem o asfalto, e nove devem receber ainda nesse mandato. Todo o valor para efetuar as obras foram de recurso próprio da Prefeitura.

Na rua 15 de novembro, no Ferroviário, há remendos no paralelepípedo

Ainda que mais de 30 ruas já tenham sido contempladas, andando pela cidade é perceptível a discrepância entre os bairros e a área central. Em diversos locais, moradores esperam pela pavimentação da sua rua há décadas. Esse é o caso do aposentado Pedro Nunes, de 78 anos, que mora há cerca de 49 anos na Capitão Jacob Franzen, no bairro São Pedro, e nem promessa de melhorias foram feitas pelos Administradores.

Com muitos tapas buracos, a rua localizada na grande Timbaúva é um teste para os motoristas, que precisam desviar dos pontos danificados. “Os tapa buracos foram feitos há cerca de duas semanas, mas porque sobrou asfalto. A maior parte dos buracos a gente colocava aterro, pedrinha. Eram uns buracos grandes, os carros tinham que desviar, agora melhorou, mas é pouco tempo também, não dura muito”, declara Nunes.

Situação da rua Capitão Jacob Franzen entristece moradores

Ele relembra que o bairro era popular, e que os moradores foram aumentando ao longo dos anos. “Os canos ainda são de 20mm então não da conta da água. […]Na esquina, uma vez um caminhão tirou a boca de lobo e afundou a calçada, e quando chove os canos entopem e a água sai no nosso pátio”, reclama. Nunes lamenta que o fato tenha ocorrido há mais de um ano, e até hoje não houve solução. “Espero ver essa rua asfaltada ainda antes de morrer”, diz.

Na lista de vias sendo preparadas para receber a pavimentação, a rua 15 de Novembro, no bairro Ferroviário, também é acometida por diversos buracos, inclusive em agosto deste ano, foi palco para uma situação desastrosa. Um caminhão de lenhas ficou preso em um buraco de conserto de vazamento feito pela Corsan, e por pouco as madeiras não caíram na casa de um morador.

Na rua Vereador João Vicente, no bairro Centenário, próprios moradores tiveram de colocar paralelepípedo. Problema dos buracos é fonte de reclamações

Atualmente o trecho entre a rua Firmino R. Cardoso em diante está praticamente pronto, mas no local onde a montenegrina Aline Silva mora o problema segue o mesmo. “Se tivesse pavimentação ficaria bem melhor pro pessoal. É ruim pros carros. A minha cunhada e o meu marido moram desde pequeninhos nessa rua e nunca teve asfalto, agora que vão botar”, relata. Proprietária de um veículo, Aline anseia pela pavimentação para que foi prometida ainda durante a campanha eleitoral.

Na Rua dos Sinos, no Senai, poeira e enxurrada de água são problemas

Planejamento
Apesar de necessário, a pavimentação deve ser realizada com planejamento e conhecimento técnico. Isso porque esse tipo de obra pode promover consequências em diversos outros fatores. Segundo o biólogo e presidente do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema), Rafael Altenhofen, podem ser citados problemas como enchentes (oriundas das cheias do Caí ou dos arroios que passam na cidade) e enxurradas (que são águas que provêm do escoamento pluvial – chuvas).

Para evitar isso, ele ressalta a necessidade de planejamento em drenagem urbana. “Enquanto as inundações causadas pelas enchentes possuem causa mais ampla e de menor governabilidade a nível de município, a questão do quanto uma chuva forte terá de potencial para causar uma enxurrada vai depender de quanto impermeabilizamos a nossas áreas urbanas, podendo ter consequências cada vez mais desastrosas”, explica Altenhofen.

Para evitar isso, o biólogo cita o Plano Municipal de Saneamento do município, que possuí um termo específico sobre “Drenagem Urbana e Manejo de Águas Pluviais”. “Esse plano, infelizmente, além de não revisado, não foi posto em prática em boa parte de seus aspectos. Um exemplo é nosso Plano Diretor Municipal, que sequer apresenta limites para taxas de permeabilidade nas novas construções no centro da cidade, por exemplo”, relata Rafael. Isso permite com que se construa impermeabilizando 100% de um lote, o que, em outras palavras, significa que toda a água da chuva que incidia sobre um terreno e que era absorvida por esse seja, depois de construído, então jogada na rede pública.

Para o presidente do Comdema, conhecimentos em drenagem e na capacidade de suporte de corpos hídricos devem orientar também o planejamento da ocupação das cabeceiras dos arroios do município. “Novas ocupações e impermeabilizações dessas inevitavelmente irão acarretar em maior fluxo de água para a calha dos arroios.

[…] Montenegro é uma espécie de ponta estreita de funil, para onde drenam e confluem vários arroios cujas nascentes estão em áreas hoje rurais, como o Montenegro, o da Cria, o São Miguel e o Alfama. Se forem impermeabilizadas suas cabeceiras teremos aumento exponencial das inundações urbanas oriundas em enxurradas pluviais”, completa. De acordo com ele, há diversas novas ruas asfaltadas sem nenhum estudo técnico, planejamento ou observância ao Plano de Drenagem e Manejo de Águas Pluviais, diretrizes urbanísticas de permeabilidade do solo ou consulta prévia ao Comdema e Conselho Municipal de Plano Diretor.

Em resposta à reportagem do Ibiá, a Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Montenegro ressaltou que toda melhoria, sendo ela recuperação ou novo asfaltamento de vias é de suma importância para a população, tendo vista que um dos pilares do desenvolvimento urbana é a mobilidade. “Vias principais de grande tráfego, onde em seu entorno existam Escolas, Creches, Hospitais, Postos de Saúde são prioridades. Comunidades mais periféricas também devem ser contempladas, pois promoverão o desenvolvimento e valorização de suas áreas, tanto para a comunidade quanto para instalações comerciais e industriais”.

Em setembro, ruas do bairro
Senai ficaram embaixo d’água. Foto: Divulgação/Defesa Civil

Chuva é sinal de problema
Seja por falta de planejamento ou impermeabilização do solo, para muitos montenegrinos, chuva é sinal de transtornos. Uma das primeiras moradoras do bairro Centenário, Rosane Kerber, relata que toda vez que chove muito forte a rua Vereador João Vicente fica alagada. “O maior problema é a água da chuva, alaga tudo aqui e tem água que chega até a mureta da minha casa. Na minha vizinha e na minha irmã entra água dentro de casa”, diz.

Kerber relembra que há mais de 20 anos, os moradores se uniram e pagaram do próprio bolso a colocação do paralelepípedo da rua. “Antes era só de areia, era muita poeira. […] A Prefeitura nunca fez nada; depois eles foram tapando os buracos, mas nunca foi feito nada certo. A nossa rua é muito abandonada”, comenta.
Segundo ela, o bairro é muito bom para morar, mas a poeira que entra na casa, os problemas com as chuvas e os buracos entristece. “A primeira coisa que eles tinham que fazer é limpar as bocas de lobo, porque a água vem do início da rua e alaga aqui. É muito cheiro ruim, e vem bichos também”, fala.

Rosane Kerber teve quintal inundado no último temporal. Foto: Arquivo Pessoal

Quase do outro lado da cidade, Gisele Ferreira, de 23 anos, passa por situação parecida. Moradora da Rua dos Sinos, no bairro Senai, há mais de cinco anos ela conta que quando chove muito a água chega a descer correndo pela rua. No início de setembro, a mesma rua e outras do bairro ficaram alagadas devido a uma enchente. A água chegou até o meio da geladeira de moradores. Após o incidente, a Prefeitura Municipal limpou dutos e galeria, e também refez o bueiro.

Com uma menina de quatro anos e um bebê de sete meses, Gisele se preocupa também com a poeira da sua rua. “Os carros passam aqui na frente e a poeira vem toda pra dentro, e o meu medo maior é estender roupa de bebê porque a poeira vem tudo pra ele. Depois a criança pega uma doença e a gente não sabe porque. Agora verão é época do carrapato, e qualquer bichinho que está no chão pode ir pra roupa da criança”, fala.

Segundo ela, até placa para pavimentação da rua já foi posta, mas nunca foi feito nenhuma melhoria no local. “A rua principal mesmo, que é a rua Tiete está toda esburacada, e a rua um fizeram, mas aqui pra baixo ninguém pensou”, comenta. Ela reclama também dos carros passando em alta velocidade na rua. “Precisávamos de um quebra molas, porque aqui se deixarem ninguém vai respeitar”, expressa.

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