Gênero em pauta. Evento tem realização prevista para o dia 22 de outubro

Um evento de muito amor, cores e liberdade. Montenegro deu um passo à frente e terá, no dia 22 de outubro, sua primeira Parada Livre LGBTT — sigla para lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais. Intitulada “Juntos somos iguais, sem diferenças”, a manifestação será realizada no Parque Centenário, às 16h. Toda a forma de respeito, prestígio e inclusão será aceita. Pegue sua bandeira e vontade de construir um mundo includente e igualitário e participe.

Transexual Paula Kerber luta por visibilidade e respeito da comunidade LGBTT

De acordo com a transexual montenegrina Paula Kerber, o primeiro passo, no município, é a realização da parada para, depois disso, investir em algo ainda maior e buscar uma associação, ONG, com assessoria jurídica e psicológica para a comunidade LGBTT.

“O público LGBTT, em Montenegro, tem crescido uma média de três pessoas por mês. Então somamos números dentro do município. E estamos lutando para trazer esse evento também com apoio da Coordenadoria da Saúde, que realizará testes rápidos, como de HIV, distribuirá camisinhas e dará palestras explicativas sobre doenças sexualmente transmissíveis (DSTs). “Shows e músicas não faltarão para representar a nossa alegria”, afirma.

Paula explica que, inicialmente, houve muitas portas fechadas na busca de apoio para o evento, mas isso não fez com que o projeto cessasse.
“Eu cansei de calar a minha voz e sei que Montenegro é a Cidade das Artes e da Cultura, apesar de não ver muitos empreendimentos nessa área. Há também muitos casos de transfobia e homofobia registrados, mas que ficam apenas como agressão e ninguém dá importância. Acredito que o município precisa mudar em muita coisa ainda”, desabafa.

Convicta em sua luta, ela explica que os órgãos públicos municipais também não estão preparados para tratarem pessoas que, assim como ela, conquistaram o direito do nome social. “Quem nos estendeu a mão, na verdade, foi a vereadora Josi Paz, que integra a Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Câmara. E através da comissão, todo o Município precisa nos escutar”, enfatiza.

Atividade beneficia diversos setores da cidade
Além de estimular a liberdade de escolha, de orientação sexual, prezando pelo respeito, independentemente de gênero, Paula destaca que os benefícios trazidos pela Parada Livre vão muito além. “Toda a parada traz um bom desenvolvimento para o turismo, a economia, o comércio e o transporte local. Faz a cidade crescer. Visamos uma abrangência social e pretendemos ainda buscar apoio para a realização de palestras nas escolas, para que os adolescentes vejam que o preconceito não precisa mais existir em pleno século 21. Quero mais visibilidade e oportunidade para a nossa comunidade.”

Trabalhos beneficentes em asilos e com animais de rua também estão dentro dos planos. E, como o processo de autorização da parada ainda está em trâmite, patrocínios continuam sendo buscados. “Infelizmente não temos verbas. A Prefeitura não cedeu dinheiro, apenas o espaço, um microfone e uma caixa de som. Mas a partir da primeira edição, marcaremos a data histórica do município para que a segunda, terceira e muitas outras possam vir”, alegra-se a líder.

Outro objetivo, segundo ela, é conseguir recursos para oportunizar cursos gratuitos e se aliar a empresas para que a comunidade LGBTT também consiga ingressar no mercado de trabalho. “Muitos não conseguem trabalhar e sequer estudar pela falta de chances e apoio psicológico. Não há, ainda, um acompanhamento social adequado que conscientize a nos respeitarem no meio de todos e nos ambientes”, salienta.

Incessante busca por direitos
Violência, olhares e falas sinuosas e discriminação, “matando um leão por dia”, nas próprias palavras da transexual: é assim que ela descreve sua luta diária para enfrentar o preconceito da sociedade.

Quem tem apoio familiar, segundo ela, segue com possibilidades melhores de se destacar nos estudos e de uma vida social.
“Quando a gente é sozinha, tudo se torna mais difícil. E a primeira coisa que o mundo nos oferece é prostituição e drogas. E é isso que quero mudar; que todas as trans consigam um bom currículo escolar, uma vida social mais adequada. De mil, apenas 10 conseguem se destacar”, diz.

Relembrando sua infância e juventude, Paula conta que chegou a ser encaminhada ao Conselho Tutelar por ser um menino com atitudes diferentes. “No meu tempo, tínhamos que nos enquadrar como a sociedade queria. Hoje temos liberdade. Eu não me sinto uma gay, eu me sinto uma mulher. Cada um tem que se sentir bem como quer ser”, explica.

Paula conquistou o nome social e o direito de ser amparada pela Maria da Penha quando foi agredida pelo ex-companheiro. Agora, luta pela cirurgia de troca de sexo pelo Hospital das Clínicas, de Porto Alegre. Sem contar a busca incessante por respeito e visibilidade à comunidade LGBTT. “Sempre me olhei no espelho e me vi como uma mulher. De tanto calar a minha voz, de crescer sofrendo e lutando, ergui essa bandeira e vou adiante. Cansei de me calar e ter minha voz esquecida. As pessoas não são obrigadas a gostarem na nossa opção sexual, mas o mínimo que nos devem é respeito”, conclui.

Presenças importantes Na parada
— Professora Adriana Souza: é coordenadora estadual da Diversidade Sexual e de Gênero da Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social, Trabalho, Justiça e Direitos Humanos do Estado do Rio Grande do Sul
— Marcelly Malta: é a presidente da Igualdade RS, a Associação de Travestis e Transexuais do Estado, e vice-presidente da Rede Trans Brasil[
— Cristina Souza: é coordenadora da ONG Igualdade Gravataí de Travestis e Transexuais

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