Um grande desafio. Ficar meses longe de seus estados de origem e de suas famílias é mais uma prova a ser encarada pelos alunos no processo de formação dos novos policiais militares

Em novembro do ano passado, a Escola de Formação e Especialização de Soldados (Esfes) de Montenegro recebeu 289 novos alunos. Eles vão permanecer na cidade até agosto deste ano. Esses homens e mulheres de diferentes sotaques e características têm um sonho em comum: tornar-se policiais militares. Os primeiros passos para alcançar esse objetivo já foram dados: eles foram aprovados no concurso público e agora passam pelo processo de capacitação. Contudo, um dos maiores desafios enfrentados por eles, certamente, é a saudade de casa e da família.

A aluna-soldado Ana Carolina Almeida de Oliveira, de 25 anos, faz parte de um grupo de dezenas de PMs em formação que vieram de diversas regiões do país para iniciar uma nova fase de suas vidas no Rio Grande do Sul. Há cerca de três anos, Ana mudou-se de Caldas Novas, em Goiás (GO), para Brasília. Incentivada pelo pai, com quem morava na época, a jovem foi para a capital federal preparar-se para concursos públicos.

Ana Carolina Almeida de Oliveira sabe que fez a escolha certa

Ana passou nas seleções do Superior Tribunal Militar (STM) e da Brigada Militar, mas, na hora de escolher o rumo que queria dar para sua vida, não teve dúvidas: optou pela carreira de policial militar. O que ela não imaginava é que sua preparação se daria tão distante de casa, em Montenegro. Para rever o pai, Ana precisa se deslocar de avião até Brasília e, de lá, percorrer mais de 300 quilômetros, de ônibus, até sua cidade natal.

Tamanha distância foi obstáculo para que ela passasse o Natal com a família. “Não imaginava que seria tão doloroso. Vi meus colegas indo pra casa e eu fiquei aqui. Foi o dia mais difícil que passei desde que cheguei na escola”, relata.

A saudade aperta o peito, pois já são quase três meses sem ver os parentes, mas Ana está convencida de que fez a escolha certa para sua vida. “Ficar longe da família é um preço alto, que poucos pagariam, mas que vale a pena”, avalia.

Tem quem não perde uma oportunidade de rever a família
Se comparar com o local de origem de Ana, podes-se dizer que Roger Pereira Witt, 22, mora “ao lado” de Montenegro.
Ele veio de Uruguaiana, cidade onde deixou a noiva, Sabrina Lucas, 22. Segundo ele, mesmo sendo deste Estado, a distância estimula a saudade. Roger já foi duas vezes para Uruguaiana e Sabrina veio uma para Montenegro.

Roger Pereira Witt veio de Uruguaiana, onde deixou a noiva a sua espera

Sabrina apoia a escolha profissional do futuro marido. “Ela sabe que é para o bem do nosso futuro”, diz Roger. Ao término do processo de formação, ele deseja atuar na região da Fronteira, para ficar mais perto de casa. “Mas se não conseguir, paciência. Vou continuar trabalhando até conseguir”, persevera.

A “vizinha de cidade” de Roger, Juliane Rodrigues, 24, de Santana do Livramento, viaja com frequência para rever a família e o namorado. “Sempre que não temos aula, pego a mala e vou pra casa”, revela. Nesse final de s

Juliane Rodrigues aproveita todas as oportunidades de ir para casa

emana não foi diferente, Juliane aproveitou a “folga” para isso. Com um largo sorriso no rosto, ela alegra-se por ser uma das pessoas que mais teve a oportunidade de voltar para sua cidade, até agora. Talvez por isso o namorado seja tão compreensivo quanto a escolha profissional da moça. “Desde que começamos a namorar, ele já sabia dessa decisão e sempre me apoiou”, conta.

Tantas idas e vindas estão com os dias contados. Ao término do curso, Juliane quer atuar em Porto Alegre, ou em alguma cidade da região Metropolitana. Ela segue o exemplo de suas duas irmãs, também policiais. Elas incentivaram e inspiraram Juliane a seguir carreira e, além disso, ensinaram a como lidar com a saudade.

Nesta edição, o Curso de Soldados conta com 289 alunos. Foto: Arquivo da ESFEs

“A gente sabe como é ficar longe”
O sargento Pedro William Rodrigues Pereira, 50, coordenador do curso, mora em Porto Alegre e atua pela Força Nacional de Segurança. Ele conhece como poucos o sentimento que toma conta dos alunos-soldados. Durante quatro anos o sargento esteve afastado da família em missão nos estados do Norte, Nordeste e Rio de Janeiro.

O sargento Pedro William Rodrigues Pereira usa sua experiência para auxiliar os alunos-soldados

A experiência agora é usada para fortalecer os alunos. “Como coordenador, a gente trabalha muito essa questão. A estrutura familiar é muito importante e mostra reflexos no trabalho que eles irão realizar nas ruas”, diz Pedro William.

“A gente sabe como é ficar longe, por isso, sempre que possível, prolongamos os finais de semana para que possam ir para casa ou trazer os familiares para cá”, conta o sargento.

Contudo, para o sargento esse momento de distanciamento da família também é importante para o crescimento pessoal e profissional dos novos policiais.

“Quando eu era criança o meu pai sempre dizia
Filho preste atenção siga o seu coração
Os conselhos do meu pai eu sempre segui
Os meus sonhos realizei e hoje estou aqui
Na EsFES Montenegro referência no Brasil
Polícia ostensiva forte brava e viril
Eis cidadão vê se não se esqueça
Estamos do seu lado não importa o que aconteça
CBFPM pronto pro combate”
Canto dos alunos-soldados em suas corridas

Receptividade ajuda na adaptação
O sotaque nordestino do soldado Alexson Silva dos Santos, 24, motiva diversas brincadeiras entre os colegas e instrutores do Curso. Mas para o alagoano de Maceió isso não é problema, ao contrário, os momentos de riso ajudam a amenizar as saudades da namorada e da irmã, com quem morava até vir para Montenegro. “O pessoal daqui é muito receptivo”, comenta.

No final da semana passada, os alunos-soldados foram liberados e puderam ir para casa. Alexson acompanhou a saída dos colegas, mas permaneceu em Montenegro. Ele passou esses dias na casa de um novo amigo, amizade que nasceu dentro da escola de formação.

Antes do Curso acabar, Alexson Silva dos Santos quer trazer a família

Desde o início da preparação na Esfes, o soldado ainda não voltou para sua cidade. Para driblar a saudade o policial faz planos para curto prazo. “Quero trazer minha namorada e minha irmã para morar aqui no Estado antes mesmo do curso terminar”, conta. “O mais difícil aqui é a saudade da família, mas estou fazendo isso por eles”, destaca.

Aos 16 anos Alexson começou a se preparar para concursos, mas em seu Estado não teve a possibilidade de realizar, pois o último ocorreu em 2012. Consciente da importância do passo que deu, ele encara a distância com um pensamento motivador. “Estou empregado e ganho um bom salário”, conclui.

1 comentário

  1. Sucesso aos novos Brigadianos, uma longa jornada se iniciou, que Deus os acompanhe pois sabemos que estarão sempre nos protegendo. Meu Pai é reformado da Brigada, tenho muito orgulho e respeito pela corporação. Contem com os cidadãos de bem.

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